Gálatas 5:16-17: “Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais as coisas que quereis.”
A vida do cristão é uma vida de luta espiritual entre a sua própria vontade e duas influências opostas que o habitam. Existe o mito de que a grande batalha do crente é contra as forças das trevas. Não é! É contra si mesmo. “Conheço as tuas obras; eis que diante de ti pus uma porta aberta (uma garantia de vitória), e ninguém a pode fechar; porque tendo pouca força, guardaste a minha palavra, e não negaste o meu nome” (Apocalipse 3:8). Portanto, só eu posso fechar a porta que Deus abriu diante de mim!
A luta interior de todo o cristão. Se há uma verdade universal sobre a experiência humana, é que todos nós, em algum momento, nos sentimos como um campo de batalha, a sofrer uma guerra civil travada no nosso íntimo. De um lado, desejos nobres como amar, perdoar, ser pacientes e generosos. Do outro, impulsos mais sombrios, como a raiva que explode, a inveja que corrói, a preguiça que paralisa, a luxúria que seduz. Noutras religiões existe a consciência desta luta interior. No Budismo usa-se a meditação. No catolicismo usam-se as penitências ou castigos corporais autoinfligidos. Até mesmo no Islão existe a ideia da jihad (a luta interior).

Marc Chagall, A luta entre Jacob e o Anjo. Direitos reservados
Mas que tipo de luta é este? É espiritual, entre a “carne” e o “espírito”. Neste sentido a “carne” não é o corpo físico. Significa a natureza humana decaída, a nossa existência autossuficiente, independente de Deus. É a tendência interior, a inclinação natural para o pecado, que habita em todo o seu humano. É o “eu” no centro do universo, com os seus desejos egoístas, paixões descontroladas e rebeldia contra o Criador. E as obras da carne estão tipificadas em Gálatas 5:19-21. Várias das coisas ali apontadas são sentimentos e algumas nada têm que ver com o corpo.
E o que é o “Espírito”? O Espírito de Deus habita em todo aquele que crê em Jesus Cristo. É a presença ativa e transformadora de Deus na nossa vida. Quando nos entregamos a Cristo recebemos um novo princípio de vida, o Espírito Santo, que nos guia, nos convence do pecado e nos capacita a viver de acordo com a vontade de Deus.
A luta interior é dura. Paulo descreveu-a com uma clareza e honestidade brutais na sua Carta aos Romanos (7:19-24). Não falou duma batalha filosófica, teológica, doutrinária ou cultural. Ele descreve a agonia de querer o bem, mas encontrar o mal à porta. Por vezes o espírito está pronto mas a carne é fraca, como Jesus explicou no Getsémani (Marcos 14:38). Mas a sua luta interior é um sinal de vida espiritual. O pior estado não é lutar e cair, é estar tão morto espiritualmente que a pessoa nem se apercebe desta batalha.
Como vencer? Não é com orações especiais, longos períodos de jejum, declarações como “o diabo está debaixo dos meus pés”, sacrifícios corporais ou promessas a Deus. A solução não está na força de vontade, mas na nossa rendição. S. Paulo dá-nos a estratégia: “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito”. Viver no Espírito é a posição espiritual que recebemos em Cristo, mas andar no Espírito é a prática diária.
Como “andar no Espírito”? Alimente-o com as Escrituras e a Oração. Crucifique na cruz as obras da carne a cada dia, cultivando o fruto do Espírito. Não se centre em não praticar o mal, mas em fazer sempre o bem. Aquele que estiver melhor alimentado é que predomina: a carne ou o espírito.
Mas a boa notícia é que esta batalha já foi vencida na cruz por Jesus Cristo, que enfrentou e venceu o poder do pecado e da morte: “Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte.” (Romanos 8:2-4).
Assim, a luta diária do cristão não é para conquistar a vitória, mas para nos apropriarmos da vitória que Cristo já conquistou. E quando caímos, não somos definidos pela nossa derrota, mas pelo perdão e pela graça que nos é oferecida em Cristo, mediante arrependimento sincero.
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.
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