A grande hospedaria

| 5 Ago 2023

Aconteceu que, enquanto estavam ali, se cumpriram os dias da parturição dela, e deu à luz o seu filho primogénito e envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. ( Lc 6-7)

Todos os hóspedes que se apresentem [no mosteiro] sejam recebidos como se fosse o próprio Cristo, pois Ele dirá [um dia]: «Fui hóspede, e recebeste-me». E a cada qual sejam prestadas as honras convenientes, de modo particular aos «domésticos da fé» e aos peregrinos…Diante de todos os hóspedes, tanto à chegada como à partida, inclinem a cabeça e, prostrado todo o corpo por terra, neles adorem a Cristo que [na pessoa deles] é recebido. (Da Regra de São Bento, cap. LIII – Do acolhimento dos hóspedes)

Diocese do Porto: Celebração das Filipinas. Foto @ João Lopes Cardoso

 

Por estes dias, pode dizer-se de Portugal, com propriedade, que é uma enorme, englobante e comovente hospedaria.

Disponibilizaram-se e quiseram vir até nós, milhares de jovens, provenientes de quase todas as nações que existem debaixo do céu, para connosco, partilharem a sua vida, cultura, tradições e fé. Uma bênção dos céus, uma construção de homens e mulheres!

Para melhor poderem celebrar a fraternidade universal, aceitaram fazer a experiência da errância, tornando-se necessitados, despojando-se de mordomias, centrando-se no essencial.

Para responder a esta ousada determinação, Portugal vestiu-se com a camisola do acolhimento e pôs a indumentária do serviço e da amabilidade, respondendo com um estrondoso sim à interpelação feita em nome de uma fé que se procura viver.

De Norte a Sul, passando pelas Ilhas, foram milhares as famílias que escancararam as suas portas, convidando a passar a soleira da irmandade.

Porque somos todos pertença da humanidade peregrina, que se irmana através dos laços do abrigo e da partilha, alguns atreveram-se a atravessar a fragrância da novidade e a eloquência da distribuição, rumo à comunhão, para serem, eles mesmos, atravessados pela surpresa que o outro carrega consigo e ficarem imersos na beleza da pluralidade.

Com a confiança dos destemidos, uns e outros, abrem-se ao acolhimento recíproco, para se enriquecer mutuamente, quebrando barreiras linguísticas e deixando-se permeabilizar pela história que cada um sustenta. Para tal, ousam sentar-se frente a frente, olhar-se contemplativamente, abrindo os ouvidos do coração, encetando a conversa dos comensais que desejam partilhar a vida.

Cada um, a seu modo, peregrinos e famílias de acolhimento, preparou a sua mente e o seu afeto, expectante do encontro de quem se iria atravessar na sua vida, não por um acaso, mas por um projeto providencial, que a todos nos ultrapassa, porque impregnado de mistério salvífico.

Posto isto, ignorando quem iria calhar em sorte, confiando na providência divina e na bondade dos homens, uns e outros iam ficando a postos para o encontro, com a abertura própria dos audazes, que sabem confiar e se deixam interpelar. É esta, também, uma das maravilhas da confiança, dos que sabem que não se escolhem, mas que aceitam a surpresa e a imprevisibilidade.

E, assim, partiram rumo ao abraço fraternal, feito de simplicidade, preenchido pela bondade, arriscando a construção de uma nova narrativa, para serem em conjunto interpretes da história, que os simples e humildes tão bem sabem construir.

O desejo do encontro foi-se tornando cada vez mais apressado, que se quis dizer ao tempo, porque não avanças tu? A embriaguez dos amantes, fá-los, por momentos, ter o anelo da insensatez, usando a linguagem apenas percetível aos apaixonados, porque querem, o mais rápido possível encontrar-se no regaço da amizade.

E, ali estão, peregrinos e acolhedores, alegremente reencontrados, olhando-se mutuamente, agora expectantes de que o tempo lhes permita fazer a viagem da abertura e do conhecimento, para que se possam cativar e mergulhar na cumplicidade criativa, consequência dos que abrem as portas ao outro e se deixam abraçar pela dinâmica do coração.

Para que tal aconteça, é necessário desarmarmo-nos da cegueira do preconceito, que não permite rasgos de engenho fecundo. Precisamos sim, de reinventar um novo modelo de confiar e acreditar, para que reaprendamos a acreditar na pessoa e nas sua potencialidades, porque, acima de tudo, precisamos muito da misericórdia dos irmãos, pois a de Deus não nos abandona.

Em regozijo, voltamos os nossos olhos para o céu e erguemos as nossas mãos para o bom Deus, agradecendo tamanha bênção, feita de enriquecimento mútuo, partilha genuína e desinteressada. É a bênção dos céus, que envia a cada um de nós o outro, com toda a sua história, tornando-se rosto de Jesus cansado e frágil, precisado de guarida, onde possa recostar a sua cabeça e beber um copo de água.

Ao jeito de Maria, mulher da disponibilidade e do atrevimento, levantamo-nos todos, partindo com audácia e destemidos, rumo à construção da fraternidade universal, onde despidos das nossas certezas, nos atrevemos a acolher o outro como ele é, para nos abraçarmos, fundando uma nova civilização, assente no acolhimento e na partilha, na amabilidade e na delicadeza.

De mãos dadas, erguemos as nossas vozes, louvando o Senhor da Vida, que continua a interpelar-nos e a desafiar-nos a ser criativos e audazes na forma de nos acolhermos e de partilhar a Vida.       

 

António Ribeiro está aposentado e é cristão católico; contacto: amvribeiro@sapo.pt.

 

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