A grandeza do ínfimo

| 31 Jan 20

Franz Jägerstätter, retratado no filme “Uma Vida Escondida”, de Terrence Malick. Foto: Direitos reservados

 

Há obras de arte que nos incomodam e nos comovem. Creio aliás que uma pintura, uma escultura, um poema, um romance, uma partitura ou outro meio expressivo encontrado pela espécie humana que não incomode e comova nunca passará de um artefacto, por maior que seja a perícia técnica do executante.

Acontece o mesmo com os filmes. Se forem guiados pela mão certa, conseguem transformar-se em obras de arte total, aliando imagem, palavra, narrativa, reflexão, silêncio e movimento.

Movido pela forte lembrança de um filme intitulado The Thin Red Line (1998) e pela recordação de páginas lidas sobre uma ínfima e gigantesca figura chamada Franz Jägerstätter (1907-1943), fui ver a nova obra de Terrence Malick, saída em 2019. Com a família, miúdos incluídos. Concluídas as quase três horas de fita, The Hidden Life (Uma Vida Escondida) deixou-nos vários minutos em silêncio. A melhor resposta a tudo quanto víramos.

A frase final, de George Eliot, surgiu como moralidade quase desnecessária. O “texto” imagético de Malick dispensá-la-ia. Franz fala pouco no filme, sobretudo a partir do momento em que tem de recusar a sua assinatura no juramento a Hitler, vendo-o como aquilo que era (a encarnação do Mal), em que tem de desviar-se de todas as seduções revestidas de bom-senso, em que tem de pôr em prática a mais radical coerência – aquela que vê na paz e no respeito pelos outros, mesmo que violentos e dominados pela maldade, um caminho para a concórdia e para a bem-aventurança –, em que aceita o martírio como testemunho abnegado de quem recusa nas palavras e nos actos a apostasia.

A dado passo, um restaurador diz a Jägerstätter que espera ter um dia a graça de pintar um novo Cristo. Um dedo aponta-nos, muito discretamente, a chave. O silêncio de Franz, só quebrado pela ressonância das suas cartas para Franziska, a sua esposa igualmente enorme, lembra-nos a escassez de palavras d’Aquele que foi julgado e condenado em Jerusalém. Nos gestos ínfimos se descobre a luminosidade que vai impedindo a queda do mundo na escuridão extrema.

Poderíamos despir o filme de Malick de todo o conteúdo narrativo e, ainda assim, teríamos um políptico expressando a condição humana, a heroicidade e a cobardia, os dilemas da humanidade, as suas mais absurdas e diabólicas quedas, as ténues, mas seguras vias de salvação. Há momentos em que recordamos ali a pintura de Turner, Biberstein ou mesmo, noutros segmentos, de Rembrandt ou do Goya das “pinturas negras”. Que perturbadora fotografia esta obra tem! Como as melhores obras-primas, vale, no entanto e sobretudo, pelas interrogações que nos obriga a colocar. Interrogações fundamentais num tempo plúmbeo como o nosso que tanto precisa de heróis e da “mais perfeita alegria”.

 

(A propósito deste filme, o 7MARGENS publicou já artigos da autoria de Jorge Wemans e de Pedro Vaz Patto)

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