A guerra dos papas

| 13 Jul 19

Falo da guerra não dos papas entre si (que também as houve e bem violentas) mas entre os “adeptos” deste ou daquele, nas imensas bancadas onde toda a gente se pode refugiar e donde aprecia, a modos de júri conflituoso, o grande desfile dos sucessores de São Pedro.

Comecei a dar-me conta desta “guerra” aquando da eleição de João XXIII, em 1958. Muita gente viu nesse papa uma catástrofe religiosa, um verdadeiro atentado contra a “eterna verdade” que sustentava a “cidade eterna”. E tratava-se de pessoas profundamente religiosas! Porém, não estariam preparadas para pensar que nenhum dos muitos caminhos para procurar a verdade se pode arrogar ser o único verdadeiro. Como se cada um de nós não tivesse que trabalhar e sofrer para se manter fiel à procura da verdade!

Como escreveu o padre jesuíta Miguel de Almeida, cada Papa tem o seu próprio carisma e estilo de intervenção, embora pareçam ocupar um lugar acima do resto dos mortais.

Numa pequena tertúlia sobre questões religiosas, aconteceu-me elogiar particularmente algumas características do então recém-eleito Papa Francisco. Tive então a experiência de como pode surgir uma “guerra dos papas”…

 

Os Papas da minha vida

Estudei os seus principais escritos. Aqui, com base nalgumas notas antigas, pretendo ser fiel aos sentimentos que mais me marcaram, úteis para discussão mas demasiado usados para “fazer guerra”.

Pio XII (1939-1958) foi o Papa da minha adolescência. Hierático, quase um ser sobrenatural, divino, imagem da perenidade e solidez da “única” “Igreja de Cristo”, à qual podemos confiar (descansadamente, para alguns) a nossa “salvação”. Imperturbável: no bombardeamento de Roma, na II Guerra Mundial, acalmava, com um gesto comedido, a multidão que “manchava de sangue o branco imaculado da veste pontifícia”. Asceta e sábio, a sua opinião era sagrada.

Pio XII, “imperturbável”. Foto: Direitos reservados.

 

João XXIII (1958-1963). De repente, um papa “bonacheirão”, bondoso, sorridente e afável, divertido até. Apostava nas relações humanas positivas, construtivas e geradoras de alegria. Profundo conhecedor (e activista) dos problemas sociais e tragédias humanas do seu tempo. Consciente de que as várias confissões cristãs não andavam atentas aos “sinais dos tempos”, apresentando um “reino de Deus” estagnado e legalista. Abriu caminho a uma nova linguagem, a uma comunicação mais honesta, realista, amiga, humilde – e portanto espantosamente sonora. Foi o Vaticano II. Enfrentou contendas e duras oposições, mas os cristãos sentiram de novo que valia a pena e era saudável ser cristão.

João XXIII, um papa “bonacheirão”. Foto: Direitos reservados.

 

Paulo VI (1963-1978) uniu autoridade pontifícia à inteligência e experiência de dirigir uma diocese fulcral (Milão). Provoca dissensões entre os padres conciliares ou conselheiros. “Converte” alguns e opõe-se drasticamente a outros. Encíclicas “fortes”, bem pensadas e estruturadas. Mas escolheu a posição contrária à da maioria dos peritos, ao publicar a retrógrada Humanae Vitae. Sob alguns aspectos, misturava Pio XII com João XXIII, mas longe do carisma de “estar com os outros”, característico de João.

Paulo VI (aqui na visita a Fátima, em 1967): autoridade e inteligência. Foto: Direitos reservados.

 

João Paulo I (26 de Agosto-28 de Setembro 1978) prestou homenagem às qualidades positivas de João e Paulo. O “papa do sorriso”, perante as máscaras que se escondem nos recantos sombrios do Vaticano. Deixou alguns escritos que nos tocam profundamente. A sua morte reavivou o fim violento de alguns papas e alertou toda a gente para que até no mais alto nível humano, há quem se sirva de Jesus Cristo para satisfazer a ganância do poder.

João Paulo I a receber cumprimentos do cardeal Karol Wojtyla, que viria a ser João Paulo II, o seu sucessor: o “papa do sorriso” e ao ar fresco de quem veio de longe. Foto: Direitos reservados

 

João Paulo II (1978-2005) toruxe aquele ar muito fresco de quem vem de longe – da Polónia, onde pratica desportos de Inverno e onde aprendeu o seu gesto teatral. Um homem que sofreu, nos amigos chegados e na própria pele, a crueldade física e psicológica da perseguição comunista. Um homem que tudo fez para projectar a “sua” Igreja Católica como mensageira da salvação em Jesus Cristo. Com a firmeza (discutível) de verdadeiro líder. A forte imagem que criou fora da Igreja tanto provocou adeptos fervorosos como descontentamento pela sua “política interna”. E acabou por favorecer grupos (não só de leigos), que se apegavam e se serviam demasiado do poder ideológico e económico do Vaticano.

Bento XVI (2005-2013) não me podia agradar, pois conhecia a sua posição de inquisidor, inflexível e “perseguidor” de eminentes teólogos e homens da Igreja, que parecessem pôr em perigo ou desvalorizar o depositum fidei(o que já se notava em João Paulo II). De grande inteligência e cultura, mas criando desinteligências com alguns dos seus “ditos”. Partilho a opinião de muitos, ao dizer que o seu feito mais positivo e mediático foi a resignação. É sempre um louvor à virtude da humildade e funcionou como um toque de alarme. Mas continuou a ser fraco perante os que ateavam nele o fogo da oposição. Encíclicas notáveis, sobretudo as primeiras.

Bento XVI (aqui no Porto, em 2010): a resignação foi o seu feito mais positivo. Foto © Ricardo Ramalho/Wikimedia Commons

 

Francisco libertou a linguagem humana. Mostrou que o sentimento e racionalidade das palavras do nosso mundo favorecem o encontro sincero com Deus. Sabe escutar: como um médico, pai e amigo… e só assim dará uma resposta “com sentimento e racionalidade”, muitas vezes bastando apresentar-se com o silêncio de um ombro amigo.

Dá exemplo de como é necessário, para a realização da pessoa, libertar-se das opressões da pobreza e sobretudo da riqueza, dinheiro e poder. Mostra como simples acções são “revolucionárias”, quando de acordo com o impulso de cada vez melhor instaurar o Bem. Procura sem medo a verdade: sem medo de “adversários” e sem medo dos “poderosos” (ou que agem como se fossem).

Francisco, o Papa que libertou a linguagem humana. Foto © Agencia de Noticias ANDES

 

Na longa entrevista com Dominique Wolton, quase que define a sua missão como “ir ao encontro dos outros”. Sacerdotes, religiosas e religiosos devem exercer a função “educadora” (= libertadora) de pai e mãe, com o prazer de quem se realiza ao fazer surgir pessoas adultas, capazes de promover no mundo o que é bom, vivendo assim uma sã sexualidade.

Centrado na pessoa humana e não nas leis (muitas vezes anti-humanas), promovendo uma Igreja anti-corrupção, tem sido muito atacado, como seria de esperar. Pela mesma razão, e porque é avesso a autoritarismos, é muito apreciado e bem-vindo. Evidentemente, se não pudéssemos ver-lhe defeitos e erros, é porque usaria as tais máscaras do Vaticano sombrio.

 

Manuel Alte da Veiga é professor universitário aposentado

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