Angola à porta das eleições

A guerra MPLA-UNITA continua a não ter alternativa política

| 7 Ago 2022

Percorri, durante um mês, muitos caminhos de Angola. Visitei Luanda, Benguela, Lubango e Huambo. Participei em muitas reuniões e celebrações. Escutei apoiantes do MPLA, da UNITA e quem não suporta nenhum deles, pois estas forças políticas estão ligadas à guerra e a uma governação corrupta que continua a desgraçar a vida da maioria da população. Um professor no Lubango citava-me Mia Couto que dizia não ser possível ‘fazer omeletas diferentes com ovos das mesmas galinhas’. Mas, apesar de todas as nuvens de suspeição que pairam no ar e dos medos de se ‘repetirem’ fraudes eleitorais do passado, respiram-se esperança e confiança num futuro com mais justiça e desenvolvimento.

 

A Ilha de Luanda com bandeiras do MPLA e da UNITA nos mesmos postes. Foto © Tony Neves.

A ilha de Luanda com bandeiras do MPLA e da UNITA nos mesmos postes. Foto © Tony Neves.

A voz escutada dos bispos católicos

A reunião dos bispos católicos, realizada em Luanda, de 15 a 21 de Julho marcou a agenda da Igreja e dos média. A um mês das eleições, os bispos fizeram uma análise da situação do país. Constataram: “Uma tímida melhoria no tratamento das actividades dos partidos políticos. Encorajam todos os órgãos de comunicação a fomentarem a cultura do contraditório e da informação imparcial a bem da cidadania e da democracia.” Mas também constataram e denunciaram “vários focos de instabilidade pré-eleitoral, com sinais claros de violência física e verbal, entre os partidos políticos, pelo que apelam para a necessidade da salvaguarda da paz e da reconciliação, dentro das legítimas diferenças”. 

D. Belmiro Chissengueti, bispo de Cabinda e porta-voz da Conferência Episcopal, em dia de ordenações no Huambo. Foto © Tony Neves.

D. Belmiro Chissengueti, bispo de Cabinda e porta-voz do episcopado, em dia de ordenações no Huambo. Foto © Tony Neves.

Bandeiras do MPLA e da UNITA nos mesmos postes

A ilha de Luanda continua a ser o espaço dos grandes restaurantes e dos passeios mais agradáveis para quem vive e visita a cidade.

Mas, às portas das eleições e por ocasião da morte de José Eduardo dos Santos, há algo que chama a atenção: os postes de iluminação da grande avenida estão cheios de bandeiras a dançar ao vento. A novidade é que os mesmos postes seguram bandeiras do MPLA e da UNITA, algo impensável há uns anos.

Benguela, a cidade das acácias rubras, está cheia de bandeiras de todos os partidos, como na ilha de Luanda ou em muitas cidades e aldeias em que se veem bandeiras dos diferentes partidos que concorrem às eleições de 24 de agosto. Foto © Tony Neves.

Benguela, a cidade das acácias rubras, está cheia de bandeiras de todos os partidos, como na ilha de Luanda ou em muitas cidades e aldeias em que se veem bandeiras dos diferentes partidos que concorrem às eleições de 24 de agosto. Foto © Tony Neves.

Confrontado com este dado novo na paisagem da ilha, João Francisco, natural do Huambo, considera um sinal positivo de um pluralismo que todos querem que venha para ficar, com mais razão agora após a morte do presidente que derrotou a UNITA e governou sozinho durante 38 anos. Também Júlia Clementina, directora de uma escola nas periferias da cidade, considera este dado relevante, a apontar para novos tempos, na era pós-Eduardo dos Santos. Boa parte dos angolanos quer que haja verdadeira democracia e esta constrói-se com pluralismo verdadeiro

Joaquim Kapango, natural de Benguela, diz que já viu bandeiras juntas noutras províncias, mas quer que venham as eleições para concluir se há ou não maturidade política nos líderes dos partidos e se a democracia é real ou de fachada…

Sim, durante o longo périplo de milhares de quilómetros em territórios angolano, vi muitas cidades e aldeias com bandeiras dos diferentes partidos que concorrem às eleições de 24 de agosto.


A morte ‘inoportuna’ de Eduardo dos Santos

Angola é hoje um país com múltiplas fracturas. A notícia da morte do ex-presidente Eduardo dos Santos colheu-me em Luanda. Esperava ondas de grande consternação, como fora com Agostinho Neto, mas não. Os media do governo deram muito espaço a esta morte, sem nunca referir as enormes polémicas levantados à volta do funeral. Todas as sedes de governo local abriram espaços de homenagem, com a colocação de livros de condolências, mas as discussões eram quase todas para tentar saber se a família tinha ou não razão para não deixar o corpo voar para Luanda e ali se realizar um grande funeral de Estado.

A cidade do Huambo ainda com marcas da batalha que a arrasou em 1993. Foto © Tony Neves.

A cidade do Huambo ainda com marcas da batalha que a arrasou em 1993. Foto © Tony Neves.

Esta ‘telenovela’ foi politicamente muito aproveitada pela oposição que percebeu quanto o histórico MPLA, que sempre foi governo sem oposição, estava fracturado. Nas muitas conversas que mantive em Angola, percebi que, além da luta política MPLA-UNITA, há outra ainda mais evidente e decisiva entre as diversas facções do partido do governo. Veremos nos resultados das eleições qual terá sido o real impacto desta morte acontecida num momento delicado da história de Angola.


24 de Agosto: e depois?
Imbondeiro, árvore africana de áreas quentes e secas, na estrada que liga Lubango e Benguela. Foto © Tony Neves.

Imbondeiro, árvore africana de áreas quentes e secas, na estrada que liga Lubango e Benguela. Foto © Tony Neves.

Estas eleições prometem dar que falar. Se ganhar o MPLA, João Lourenço promete continuar a investir no desenvolvimento e no combate à corrupção e despesismo descontrolado do Estado. Se ganhar a UNITA, abre-se uma nova página na história da Angola que nunca conheceu outro governo para além do MPLA. As escolas do país estão já com grandes placards a indicar o número de assembleia de voto. Falta saber se as eleições serão mesmo livres e se os vencidos aceitarão os resultados e tornar-se-ão numa força política de oposição construtiva. Até lá, a campanha eleitoral vai fazendo o seu caminho e cada força tenta capitalizar a capacidade de mobilização. Depois de 24 de Agosto nada será igual em Angola.

Assembleia de voto na escola da Missão Católica do Bailundo, a alguns kms da vila. A Missão foi palco de violentos combates na guerra civil. Foto © Tony Neves.

Assembleia de voto na escola da Missão Católica do Bailundo, a alguns kms da vila. Foto © Tony Neves.

 

A Missão Católica do Bailundo, a alguns kms da vila, foi palco de violentos combates na guerra civil. Foto © Tony Neves.

A Missão Católica do Bailundo, a alguns kms da vila, foi palco de violentos combates na guerra civil. Foto © Tony Neves.

 

A Igreja da Missão da Senhora das Dores, na cidade do Lubango. Foto © Tony Neves.

A Igreja da Missão da Senhora das Dores, na cidade do Lubango. Foto © Tony Neves.

 

O interior do país está cheio de mercados populares, como é o caso deste na vila do Waku-Kungo, no Kuanza Sul. Foto © Tony Neves.

O interior do país está cheio de mercados populares, como é o caso deste na vila do Waku-Kungo, no Kuanza Sul. Foto © Tony Neves.

 

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