A Guiné Bissau e o futuro incerto

| 19 Mar 20

Estava em Bissau dia 27 de fevereiro a participar numa missão da ONGD Afetos com Letras, quando Umaro Sissoco Embaló, tomou posse como Presidente da República, sem que houvesse decisão do Supremo Tribunal de Justiça a um recurso interposto por Domingos Simões Pereira, o outro candidato, por alegadas irregularidades eleitorais.

No dia 28, por sua vez, o presidente da Assembleia Popular, Cipriano Cassamá, tomou posse como Presidente da República interino. Nesse mesmo dia, o autoproclamado Presidente Sissoco reuniu o Conselho de Estado e demitiu o Governo legitimado pelas eleições legislativas chefiado por Aristides Gomes, nomeando para primeiro-ministro Nuno Nabiam, presidente do partido APU-PDGB que apenas detém cinco assentos parlamentares. As mais altas patentes das Forças Armadas estiveram na tomada de posse do novo Governo, deixando assim claro que estão do lado de Sissoco Embaló nesta contenda.

No dia 30, Cipriano Cassamá veio resignar ao cargo de Presidente interino, alegando que ele próprio e a família estavam sob ameaça. Nos dias seguintes houve “visitas” de militares às casas de ministros do Governo de Aristides Gomes, alegadamente para recolha de viaturas, mas que foram entendidas pelos visados como intimação.

Podemos verificar que, mais uma vez, a Guiné está sob instabilidade política e com um Governo irregular, que tenta a todo o custo demonstrar que o seu poder é legitimo, mas que vai ao arrepio das regras constitucionais. As forças internacionais, nomeadamente da CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental), que tem a ECOMIB, uma força de interposição militar com a missão de garantir a segurança dos titulares dos órgãos de soberania, com o alto patrocínio das Nações Unidas, foi, entretanto, acantonada. Uma missão da CEDEAO que iria a Bissau para mediar a negociação de uma solução para o conflito, foi impedida de entrar no país.

Durante esses dias conturbados, viajámos pela Guiné. As viagens neste país não se contam em quilómetros, mas sim em tempo. Em barcos de carreira, entre estradas esburacadas e picadas, atravessámos várias regiões e cidades, como Bissau, as ilhas do arquipélago dos Bijagós, Cachungo, Bafatá, Gabu e Cheche, com destino à ilha de Canhambaque, à Ilha de Pecixe, a Barambe e a Dandum.

Todos estes locais por onde passei me marcaram pela realidade de um povo cultural e etnicamente muito rico, onde convivem pacificamente muçulmanos, católicos e animistas. A Guiné-Bissau enfrenta uma pobreza estrutural gritante, e as pessoas sobrevivem sem um Estado que garanta mínimos, através da auto-organização comunitária e de pequenos negócios de praticamente tudo.

A divisão sexual do trabalho está fortemente enraizada e às mulheres cabe o trabalho mais duro, nas lides domésticas, no abastecimento de água, na agricultura, para além da função de cuidadoras de muitas crianças que correm em hordas pelas aldeias, num país com taxas elevadas de mortes materno-infantis.

O Homem Grande da tabanca de Dandum (Guiné-Bissau): sonhos e angústias. Foto © Afetos com Letras.

 

Nas Colinas do Boé, depois de oito horas de carro desde Bissau, com a travessia de jangada do rio Corubal e de uma picada de pedras debaixo de mais de 40 graus, na tabanca de Dandum, muito perto da fronteira com a Guiné-Conacri, reunimos com o Homem Grande, a quem a Afetos com Letras ofereceu, como prometido numa visita anterior, uma fotografia de Amílcar Cabral numa bonita moldura. O Homem Grande emocionou-se com lágrimas que saltavam das memórias da guerra e da luta pela independência, da terra libertada, mas sobretudo do sonho de Cabral e da esperança que tarda em chegar.

O Homem Grande disse-nos que aqueles que estão em Bissau dizem que sabem o que pensava Amilcar Cabral, mas que não sabem. E acrescentou que a Guiné tem de dar educação aos jovens, para que estes tomem o país nas suas mãos.

Esta visita aconteceu dias antes da tomada de posse de Sissoco Embaló, e sentia-se nas palavras do Homem Grande a angústia do que estava para vir e o sentimento de que o país precisa de formar e capacitar os mais jovens para que a Guiné arranque, livre como sonhou Amilcar Cabral, livre de poderes absolutos que não se interessam pelo povo, livre de narcotráfico, livre de mutilação genital feminina, de casamentos precoces e de  meninos talibé levados para a Guiné-Conacri para exploração e tráfico.

Livre para enfrentar o futuro.

 

Catarina Marcelino é deputada do Partido Socialista e ex-secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade

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