A hermenêutica de Jesus (3): Jesus e as Parábolas

| 17 Mai 2022

(A primeira parte deste texto pode ser lida aqui; e a segunda nesta ligação.)

 

Cristo ensinando os apóstolos. Fresco da Catacumba de Domitila, Roma (séc. II).

Cristo ensinando os apóstolos. Fresco da Catacumba de Domitila, Roma (séc. II).

 

O ensino das sagradas escrituras na época de Jesus era uma prática comum entre o povo judeu. Desde cedo, os rabinos ensinavam às crianças a leitura e escrita da Torá e a memorizar grandes porções da mesma. Instituíam também entre eles o hábito de interpretar a Torá, havendo mesmo várias escolas rabínicas – entre elas, a de Hillel e de Shamai. Entre as várias técnicas de ensino, estava a utilização de parábolas. Parábolas são, afinal, breves narrativas dotadas de conteúdo alegórico e cuja finalidade é a transmissão de conhecimento. O género literário era já usado no Antigo Testamento e na literatura rabínica. Quando usadas, tinham como objetivo induzir os ouvintes à reflexão pessoal e transmitiam verdades divinas. A título de exemplo, no livro Segundo de Samuel, capítulo 12, o profeta Natã utiliza uma parábola para repreender o rei David após este ter cometido adultério e homicídio e, no livro do profeta Isaías (5:1-7), este expõe a parábola da vinha como analogia do próprio povo de Israel e acerca da sua rebelião contra Yahveh.

Nos evangelhos, e especialmente nos sinópticos, o que sobressai no ensino do rabi Jesus, é a utilização de parábolas cuja centralidade é a pregação do Reino de Deus ou dos Céus. O evangelho de Marcos regista mesmo que Jesus “com muitas parábolas como essas, pregava-lhes (às multidões) a palavra, conforme eram capazes de compreender. Sem parábolas não lhes falava; porém, em particular explicava tudo aos discípulos” (Evangelho de São Marcos 4:33-34). Sabemos assim que Jesus, das muitas parábolas registadas nos evangelhos, terá fornecido algumas interpretações das mesmas ao círculo mais chegado dos seus discípulos e que foram preservadas. No entanto, as próprias multidões sentiam a necessidade de encontrar o significado das mesmas. É verdade que no evangelho de Marcos – o mais antigo de todos – o messianismo de Jesus se revela velado às multidões, mas, no caso das parábolas, terá sido talvez algo positivo que os evangelistas não tenham revelado muitas das suas interpretações. As narrativas serão assim, conforme já o indicara o cardeal Tolentino Mendonça no seu extraordinário livro A Leitura Infinita, como que leituras abertas, que convidam e desafiam o leitor a se envolver no enredo das estórias contadas por Jesus.

Um dos problemas levantados por algumas escolas de interpretação das escrituras tem sido a leitura literal dos textos, como se os significados de muitos dos mesmos tivessem sido fixos para todos, independentemente da cultura e da era dos seus leitores. Mas as parábolas de Jesus apresentam-se elas próprias como paradigmáticas, no sentido que a sua interpretação, além de se revelar individualmente a cada um dos seus leitores, fica igualmente aberta a outras novas interpretações ao longo dos tempos. Audiências diferentes ouvirão inevitavelmente mensagens diferentes. Reduzir o sentido das muitas parábolas de Jesus a um único sentido, terá certamente como consequência a destruição do riquíssimo potencial estético e ético que cada uma delas tem em si mesmas.

Marcos regista ainda que Jesus dizia que “a vós é dado conhecer o mistério do reino de Deus; mas, para os que estão de fora, tudo é feito em parábolas, para que olhando, olhem e não vejam e ouvindo, ouçam e não compreendam, não vão eles converter-se e [tudo] lhes seja perdoado” (Evangelho de São Marcos 4:11-12). Os mistérios do Reino de Deus jamais serão revelados àqueles que tenham expetativas erradas acerca do mesmo, até porque a “dynamis” ou o poder de Deus nunca será manifesto segundo o entendimento deste mundo. Afinal, os mistérios do Reino ou segredos divinos proclamados por Jesus, ao invés de revelados através de extensos discursos elaborados com base em sistemas teológicos ou dogmáticos, serão revelados somente pelo Espírito e aos que creem (Evangelho de João 14:26).

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.

 

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