A hermenêutica de Jesus

| 13 Jun 21

Jesus, arte bizantina, Sérvia

Jesus ensina na Sinagoga em Nazaré. Fresco bizantino, 1350. Mosteiro Visoki Decani, Sérvia.

 

A palavra hermenêutica vem da palavra grega hermeneuein que, etimologicamente, significa a arte ou técnica de interpretar e explicar um texto ou discurso. A hermenêutica é importante, por exemplo, na área jurídica, permitindo a um advogado munir-se de normas racionais e seguras para uma interpretação de enunciados normativos. Na área bíblica, a hermenêutica tenta estabelecer princípios, leis e regras ou métodos de interpretação dos textos que compõem as escrituras sagradas.

Depois, dada a complexidade e variedade dos métodos de interpretação usados ao longo do tempo, podemos desde já assinalar que as próprias escrituras, dada a variedade de estilos literários que a compõem, impelem forçosamente para uma variedade de metodologias interpretativas. Textos escritos em forma poética devem ser interpretados de maneira diferente de textos contendo relatos históricos. O mesmo dizer de livros proféticos ou apocalípticos, que remetem mais para o simbolismo, muitas vezes de interpretação difícil e obscura. Os próprios evangelhos, não sendo propriamente biografias de Jesus, carecem igualmente de preparação de leitura atendendo, tanto ao seu contexto sociológico e cultural, como à morfologia e significado do texto.

Jesus abordou as escrituras ao longo do seu ministério, mas qual seria a sua hermenêutica, como interpretava ele a lei (Torá), os profetas e os escritos? A questão continua pertinente para os nossos dias? É assim tão importante? É um facto indiscutível que a maioria dos cristãos lê as escrituras e as interpreta com as lentes da sua própria confissão religiosa. Muito dificilmente, e para o bem ou mal, ninguém estará isento de pressupostos e de condicionamentos prévios. Ainda que pareça difícil, e na liberdade que nos é dada pelo Espírito, temos de abrir mão de alguns desses condicionamentos, dos medos que muitas vezes temos em inquirir e interpelar com humildade os textos bíblicos. Como disse certa vez e muito bem o agora cardeal José Tolentino Mendonça, o encontro com as escrituras é sempre novo, surpreendente, imprevisível. Nunca se domina um texto que é dinâmico, vivo, enigmático e interrogativo.

Jesus é, por excelência, o verdadeiro hermeneuta, aquele que interpreta verdadeiramente a vontade do Pai. Jamais alguém viu o Pai; por isso, também ele é o único que revela o Pai. Outros dirão igualmente que Jesus é a chave hermenêutica para a compreensão das próprias escrituras, algo com que também concordo. Mas é preciso também dizer com coragem que Jesus, além de interpretar as escrituras, também as reinterpreta, dando-lhes novos sentidos.

Como devemos então interpretar corretamente as escrituras? São conhecidas várias escolas rabínicas nos tempos de Jesus, entre elas, a de Hillel e a de Shamai. Cada uma tinha a sua própria linha de interpretação da lei. De Jesus, que não criou qualquer escola interpretativa da Torá, sabe-se que tão-somente anunciava o Reino de Deus numa linha profética, cujas posições perante a Lei são colaterais e sempre em função de problemas concretos. O ponto de partida das suas pregações, não residindo em explicações e aplicações legalistas da lei, ia mais no sentido de a todos alcançar, de anunciar-lhes a chegada do Reino do Seu Pai, não excluindo a quem quer que fosse.

Cada evangelho apresenta-nos imensas perícopes onde Jesus se confronta com doutores da Lei e fariseus, muitas delas que tinham a ver com a quebra do sábado e dos rituais de pureza prescritos na Lei e traduções orais dos judeus. Não deixa de ser interessante que Jesus, na Sua interpretação da Lei, dê maior destaque e importância ao amor ao próximo. Arriscaria mesmo a dizer que todos os seus ensinamentos e conduta de vida desembocam, não num conjunto de leituras literalistas e legalistas da Lei, mas antes numa ortopráxis de vida, de misericórdia e de amor. “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?”, questionaram certa vez a Jesus. “Jesus respondeu: O primeiro é escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor; e amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é este: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que esses”. No fim, se alguma coisa permanece, conforme irá mais tarde escrever Paulo no seu magistral hino ao amor (I Coríntios 13), é tão-somente o amor, nada mais. É esta a verdadeira hermenêutica de Jesus, revelada ao longo de toda a Sua vida e nesse Reino do Pai que a todos quis proclamar.

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.

 

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