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Domingo, às 16h00

A história da encenação do Pequeno Auto de Natal de Sibila Cassandra na Capela do Rato

O autor refaz neste texto o processo (e as peripécias) que possibilitou a leitura encenada da sua adaptação do Auto da Sibila Cassandra no próximo domingo, 11 de janeiro, na Capela do Rato, em Lisboa, pelas 16h00.

 

Sou um convertido tardio a Gil Vicente. Como todos, tive o meu Gil Vicente escolar e no colégio, aos 7 anos, recitei o extraordinário vilancete de Abel pastor, Adorai montanhas, Ó Deus das alturas. Ainda tenho a fotografia dessa performance de macaquinho amestrado, mas que terá deixado raízes. Lembro-me ainda que no tempo do liceu, alguns, como o João Carlos Espada, me conheciam por eu falar “vicentino”, pois dizia muita coisa em heptassílabos. Depois, isso passou-me.

Muito, mas mesmo muito mais tarde, no Verão de 2021, a minha atenção virou-se de novo para Gil Vicente através do contacto com Noémio Ramos, um não académico que propõe um código de leitura de Gil Vicente, a saber: as personagens dos autos correspondem a figuras históricas, como Erasmo, Lutero, o Papa Júlio II, Carlos V, os Comuneros de Castela e por aí fora… Gil era um membro da corte “governamental” e estava a par dos eventos contemporâneos, além de a sua obra de ourives mostrar entrosamento com o programa régio. O código é uma boa sugestão teatral, mas conduziu-me a uma leitura aturada da obra de Gil Vicente e dos seus ricos comentadores em busca de “coerências” mais profundas.

Em palestra de Outubro de 2024 no Colóquio da Biblioteca de Évora, Pela Felicidade Pública, procurei o lugar singular do chamado Sermão de Abrantes de Gil Vicente, escrito e recitado pelo próprio no dia de Carnaval de 1506, no Paço de Abrantes, por ocasião do nascimento do infante D. Luís. É uma obra literária de valor universal, um erasmismo avant la lettre.

 

Uma feminista do séc. XVI

Robinet Testard –  Fcheiro da Biblioteca Digital Gallica, disponível sob o identificador btv1b10515437z/f61

Em abril de 2025, interessei-me a fundo pelo Auto da Sibila Cassandra e pela extraordinária modernidade, ou melhor, contemporaneidade dos seus conteúdos. Apareceu-me uma “feminista do séc. XVI”, uma mulher dotada de determinação e fé e, sobretudo, júbilo em existir. A leitura de Leo Spitzer e outros revelou-me um núcleo inesperadamente atual, para mim, da dramaturgia vicentina.

Essa descoberta no ano de Jubileu confirmou a intuição inicial: a Sibila não pertence ao passado; pertence a todos os tempos. O Pequeno Auto da Sibila Cassandra nasce dessa mesma convicção. Em crónica, então publicada no 7MARGENS sobre Gil Vicente e o Jubileu 2025 em junho do ano passado escrevi: “Portugal adora Gil Vicente. Pela sua pena, continua a falar um país que se reconhece em qualquer evento onde haja júbilo e alegria, onde fala o inconsciente coletivo vibrante, e onde o sagrado pagão e o cristianismo se entrelaçam como fios de um mesmo tecido. Talvez por isso os seus autos continuem a ecoar nos currículos escolares, nos grandes e pequenos grupos de teatro e em tantos projetos culturais que persistem em o trazer à superfície”.

O calendário para a representação começou, pouco a pouco, a ganhar densidade e a 2 de outubro o pequeno auto encontrava-se redigido. A 19 de outubro foi delineado um primeiro plano de trabalho, em círculo familiar, onde se começou a pensar em leitura encenada. A 2 de novembro, comecei a falar com Pepe Feu, com a encomenda de peças musicais a par das peças do repertório do coro da Capela do Rato, reconhecendo o papel estrutural que o coro e a música teriam na dramaturgia.

Entretanto, a 15 de novembro de 2025, deu-se um momento importante nesta caminhada vicentina. Por iniciativa de Catarina Castel-Branco e de Teresa Albuquerque realizou-se a leitura encenada da minha tradução para português do Sermão de Abrantes. Ocorreu precisamente no palco da Assembleia de Abrantes, para assinalar um recomeço de atividades; simultaneamente foi publicado o texto com comentário.

Foi também na sequência dessa leitura em Abrantes que me apercebi de que a encenação do pequeno auto em círculo familiar não iria funcionar. Foi nesse contexto que no domingo, a 30 de novembro, após participar no coro, comuniquei com tristeza ao Pepe Feu, não haver condições – nem tempo, nem atores – para concretizar a leitura encenada.

 

Convergência de boas-vontades

Foi então que os acontecimentos se precipitaram. Maria José Moniz Pereira, ao escutar-nos, disse-nos que Joana Cotrim talvez tivesse disponibilidade. E Isabel Vila disse-nos que a Margarida Rosa Rodrigues poderia ajudar; e mais: convidou-nos a ir assistir nessa mesma tarde, na livraria Sá da Costa, a um espectáculo do grupo de Teatro Maizum. E, quando saímos da Capela, não é que a Joana Cotrim saiu do Pingo Doce, ex-machina, e mostrou-se disponível? E que num almoço de “missalizantes” nesse domingo, o nosso capelão António marcou a data de 11 de janeiro para a apresentação. Todas estas pessoas desbloquearam o que parecia um caso encerrado!

Mas as coincidências e as manifestações de boa-vontade não acabaram ali. A caminho da Sá da Costa telefonámos ao Júlio Marín, mas ele não atendeu. Pudera! Quando nos sentámos na plateia, já atrasados e na última fila da sala cheia da Sá da Costa, ele apareceu nas nossas costas: ia atuar em mais uma dessas deliciosas peças portuguesas do séc. XVII. E no final veio ter connosco a Manuela Martins que eu bem conhecia desde a Universidade.

Deste modo, o que talvez fosse uma veleidade pessoal, tornou-se obra de comunidade, sobretudo pela intervenção do Júlio Martin. Recebendo nesse dia o texto inicial em português, justapôs-lhe excertos do original em espanhol, criando uma dualidade interessantíssima entre duas línguas e duas épocas. Além disso, assegurou a dramaturgia e a encenação da leitura. Com o apoio do Teatro Maizum, do Teatro Académico da Universidade de Lisboa, que dirige, o Manuel Vieira, o Nuno Cortez, o Goncalo Sarávia, e o Luís Miranda vieram generosamente colaborar e a eles se juntou depois a Margarida Mercês de Melo. Em tempo  recorde, o Júlio planeou os ensaios, em que se vieram entrosar a música original e as canções do coro da Capela do Rato dirigido por Pepe Feu, com o Pedro Sassetti Paes e Mariana Barros. Faltava só fazer a folha de sala. A Catarina Castel-Branco escolheu uma ilustração, da sua exposição Silêncios, de 2009,  e Pedro Ribeiro Ferreira criou o design da folha de sala.

Cassandra continua a falar. A questão permanece a mesma de sempre: estamos dispostos a ouvi-la?

 

Introdução à profecia

Este Pequeno Auto da Sibila Cassandra, escrito e encenado por Mendo Henriques e Júlio Marín é uma mediação entre o texto quinhentista e o público contemporâneo do Auto da Sibila Casandra, do grande Gil Vicente, uma obra fundadora do teatro Peninsular, onde o cómico pastoral e o mistério cristão se articulam numa unidade dramática.

Contra a leitura tradicional que via o Auto como uma mistura incongruente de religioso e profano, já vários autores como Leo Spitzer e Tatiane Artoli evidenciaram que a peça possui uma unidade rigorosa. Essa unidade não é apenas simbólica ou alegórica, mas constrói-se literalmente a partir do texto, da progressão dramática e da função estética das cenas. O eixo central é o motivo da profecia, anunciado no título, e a tensão entre o que significa ser mulher e mãe.

Para ouvir e ver esta leitura encenada Pequeno Auto da Sibila Cassandra, são colocadas a par partes do original castelhano e as intervenções contemporâneas em português, com interlúdios musicais a cargo do coro da Capela do Rato, dirigido por Pepe Feu. Nesta adaptação livre preservam-se os núcleos simbólicos, a progressão do cómico ao sagrado e o papel central da profecia, ao mesmo tempo que se atualizam indícios e se procura manter a inteligibilidade cénica.

Nesta versão, Cassandra é lida como uma jovem de forte ressonância contemporânea: uma voz que procura unir a sua exceção pessoal a um mundo  universal; uma “feminista” do século XVI que explora a tensão entre ser mãe e mulher no sentido biológico e social e ser mãe e mulher que partilha do mistério da salvação. A modernização do auto sublinha o conflito entre subjetividade absoluta e sentir comum, tornando visível a atualidade ética e política dos problemas de natalidade.

O registo cómico inicial — o namoro falhado com o influenciador Salomão, e as tias sibilinas, é mantido como elemento estrutural. A modernização valoriza essa leveza inicial como condição necessária para a emergência do drama profético e do confronto final entre verdades e erros. A cena final confirma o carácter optimista da peça: é um auto de Natal. No desfecho, todas as personagens assumem o papel de profetas do nascimento de Cristo por Maria — patriarcas bíblicos e sibilas pagãs — formando um cosmos unificado pela expectativa messiânica.

À comunidade da Capela do Rato e a todos quantos assistirem no domingo de 11 de janeiro de 2026, fim oficial do ciclo litúrgico e de Natal e início do Tempo Comum, é assim apresentado este Pequeno Auto da Sibila Cassandra em que a comicidade, o excesso, a profecia e a salvação seguem um mesmo movimento dramático para a reintegração do indivíduo num mundo comum.

 

Ficha Técnica

Personagens:

  • CASSANDRA                        Joana Cotrim
  • SALOMÃO                            Gonçalo Sarávia
  • ERUTEA                               Manuela Martins
  • PERESICA                            Margarida Mercês de Melo
  • CIMÉRIA                               Margarida Rosa Rodrigues
  • ABRAÃO                               Nuno Cortez
  • MOISÉS                                Manuel Vieira
  • ISAÍAS                                  Luís Miranda

Adaptação contemporânea do Auto da Sibila Cassandra de Gil Vicente: Mendo Henriques e Júlio Martín
Dramaturgia e Encenação: Júlio Martín
Músicas e Direção de Coro: Pepe Feu
Coro: Pepe Feu, Maria José Moniz Pereira, Mariana Barros, Mendo Henriques, Pedro Sassetti Paes.
Assistente de Produção: Isabel Vale
Fotografia: Mariana Lupi
Folha de Sala
– Design Pedro Ferreira
– Ilustração de Catarina Castel-Branco

Teatro Maizum
Teatro Académico da ULisboa
O Clube

 

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