A História não é para mulheres

| 5 Fev 20

Há cem anos, uma jovem mulher sueca desembarcou em Belém do Pará, onde ajudou a construir a maior igreja pentecostal do país. Depois foi perseguida, internada num hospício e apagada da História.

 

A esmagadora maioria dos fiéis desta igreja pentecostal histórica, que conta hoje com milhões de pessoas no Brasil, não fazem a mais pequena ideia da história de vida de Frida Maria Strandberg Vingren, que morreu doente aos 49 anos, no dia 30 de setembro de 1940, na Suécia, nos braços da filha, quando pesava apenas 23 quilos. O desfecho trágico de Frida é produto de lideranças religiosas misóginas que não apenas lhe cortaram as asas, como boicotaram repetidamente a sua acção missionária evangélica e a destruíram como pessoa.

A jovem missionária de 26 anos que viajou de Estocolmo para o norte do Brasil em 1917, e que casaria com Gunnar Vingren em cerimónia realizada pelo pastor sueco Samuel Nyström, não sonhava que este viria a ser um dos seus principais opositores, tal como Daniel Berg, que fundara a igreja Assembleia de Deus no país, juntamente com o seu marido.

Frida notabilizou-se rapidamente pelo trabalho social desenvolvido pela igreja de que o marido fora um dos fundadores sete anos antes, entre órfãos, idosos, doentes e sobretudo nas frequentes visitas aos leprosários.

Na Suécia luterana do início do século XX, os pentecostais constituíam um grupo religioso recente e foram perseguidos, pelo que migraram especialmente para os Estados Unidos, mas alguns foram para o Brasil, tendo escolhido Belém do Pará, que era ao tempo uma das cidades mais ricas do país graças à riqueza gerada pela extracção da borracha.

Como o marido adoecia frequentemente durante as repetidas viagens ao serviço da igreja, por diversas vezes com malária, Frida assumia cada vez mais as suas funções como pregadora, além de traduzir hinos do sueco para o português, de cantar e tocar. Visitava todas as semanas a prisão de Belém, onde eram mantidos 200 rapazes entre os cinco e os vinte anos de idade, sendo que alguns estavam ali simplesmente por não terem pai. Mas Samuel Nyström entrou em choque com Frida por não aceitar que uma mulher pudesse pregar a Palavra, queixando-se recorrentemente da situação à igreja em Estocolmo. Dada a tensão instalada, o casal Vingren muda-se então para o Rio de Janeiro em 1924, já com quatro filhos, onde desenvolve trabalho pioneiro e funda um jornal onde defende com frequência, através de argumentos bíblicos, que as mulheres poderiam pregar, ensinar ou doutrinar, provocando a animosidade de diversos pastores brasileiros de mentalidade machista.

O caso Frida esteve na origem da convocação da primeira convenção da igreja, em 1930, em Natal (RN), que, sem o proibir, veio a desencorajar a pregação feminina. Mas, nos tempos que se seguiram, Frida – que sempre contou com o apoio do marido – insistiu na pressão para que as mulheres não recuassem e a tensão agravou-se, apesar de as suas qualidades de liderança serem geralmente reconhecidas. Com a situação a agravar-se e depois de uma acusação de adultério, embora sem provas, a família regressa à Suécia em 1932, mas Gunnar morre um ano depois de chegar à Europa.

Mais tarde Frida tenta retomar a obra missionária, mas nem os líderes da igreja no Brasil ou na Suécia aprovam, pelo que tenta vir para Portugal, a partir de onde se crê que embarcaria num navio de volta a terras brasileiras. É então detida na estação ferroviária de Estocolmo e levada em camisa-de-forças para um hospital psiquiátrico. A igreja retira-lhe a guarda dos filhos e desfaz-se dos seus pertences. Não há registo médico de Frida sofrer de qualquer transtorno psiquiátrico, mas encontrava-se esgotada e provavelmente sofria de hipertiroidismo, a causa provável da sua morte.

Hoje, quando a igreja sueca é confrontada com tal arbitrariedade, defende-se: “Aquilo era uma novidade completa para nós. Foi horrível o que fizeram com ela. Muita gente ficou chocada com a forma como foi tratada pelas antigas lideranças”, afirmou Gunnar Swahn, antigo secretário de missões de Estocolmo à BBC Brasil.

Nestes pouco mais de cem anos de existência da Assembleia de Deus no Brasil, o ministério feminino tem vindo a ganhar espaço progressivamente, embora com mais incidência numas regiões do que noutras, dada a extensão continental do país, os profundos contrastes sociológicos e o sistema congregacional de governo eclesiástico vigente na denominação. Mas Frida – que era enfermeira, jornalista, compositora e teóloga – pagou um preço elevadíssimo por se tratar duma mulher excepcional e muito à frente do seu tempo.

A sua estória elucida de forma clara como o homem religioso pode ser cruel na defesa dos seus preconceitos e ideias próprias, deixando de lado tanto a caridade cristã como aquilo que S. Paulo escreveu já há dois mil anos: “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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