A história sórdida de abusos sexuais num orfanato católico na Alemanha

| 15 Fev 21

Catedral, Spira, Alemanha, Igreja, património

Catedral de Spira (Alemanha): mais uma diocese alemã abalada por um sórdido caso de abusos. Foto: Roman Eisele/Wikimedia Commons

 

Um antigo vigário-geral da diocese alemã de Spira (Speyer), na Renânia-Palatinado (120 quilómetros a sul de Frankfurt), praticou abusos sobre crianças à guarda de um orfanato durante largos anos. Irmãs da congregação religiosa que tomava conta da instituição poderão ter sido cúmplices desses atos.

O escândalo, mais um a afetar a Igreja Católica na Alemanha, foi objeto de sentença judicial em maio de 2020, mas tinha-se mantido escondido, até que a agência protestante EPD e a agência católica KNA tiveram acesso ao processo e divulgaram o seu teor. O bispo de Spira, Karl-Heinz Wiesemann, já considerou as acusações credíveis, manifestando, ao mesmo tempo, solidariedade com as vítimas.

Os abusos terão sido cometidos entre 1963 e meados dos anos 70, tendo como figura central o antigo vigário geral Rudolf Motzenbäcker, falecido em 1998. Foi uma vítima, presentemente com 63 anos, que decidiu apresentar a um tribunal os horrores por que passou.

Segundo as suas revelações, foi obrigado centenas de vezes a submeter-se aos caprichos do padre e, de tempos a tempos, ele e outras crianças eram forçados a participar em orgias sexuais que contavam com a presença de outros adultos (abstemo-nos de pormenores que não são relevantes para a compreensão dos factos).

Segundo esta vítima, as religiosas do Divino Salvador, congregação fundada no século XIX, eram quem escolhia as crianças e que recebiam dinheiro por esse papel. O tribunal de Darmstadt que julgou o caso deu como merecedoras de crédito as acusações, de resto, na sequência de perícias psicológicas e psiquiátricas, e obrigou a diocese, que era responsável pela fundação detentora do orfanato, a pagar uma quantia à vítima e a assumir os encargos com tratamentos de natureza psicológica.

Logo que o escândalo eclodiu, em dezembro último, o bispo Wiesemann assumiu no jornal da diocese Der Pilger que tinham sido cometidos crimes graves naquela instituição de acolhimento de crianças.

A congregação do Divino Salvador, também conhecida por Irmãs de Niederbronn, deixou em 1995 de ter presença e responsabilidades no orfanato. Mas a superiora provincial, no cargo apenas desde abril passado, solidarizou-se com as vítimas e disse ser “incompreensível que os atos cruéis como os que foram alegados e suas consequências não tenham sido percebidos e denunciados pelas irmãs ou pelos funcionários”.

Por outro lado, observou, em declarações citadas pelo site suíço Cath.ch, que o testemunho das vítimas é uma ajuda preciosa para “fazer a melhor prevenção possível.” Faz, entretanto, questão de salientar que, para certos detalhes, relativos a encontros sexuais com a participação de padres, dignitários e políticos, estupros coletivos e a alegada prostituição de crianças por irmãs, “não há evidências sobre o assunto e estas não puderam ser confirmadas por entrevista com as irmãs ou pelo Ministério Público.

A documentação relativa à instituição e às crianças encontra-se na posse da diocese e, aparentemente, não foi ainda objeto de estudo aturado. Mas o caso pode não estar encerrado, visto que, na sequência do impacto público deste caso, e em especial, da entrevista do bispo local ao Der Pilger, houve pelo menos três pessoas – não vítimas, mas conhecedoras do que se passou – que se disponibilizaram para contar o que sabem junto da comissão independente da diocese de Speyer, que trata das questões sobre abusos sexuais.

 

Em Colónia, um relatório que não é publicado

Este caso é apenas mais um numa sequência de acontecimentos relacionados com os abusos sexuais que deixa a Igreja alemã em maus lençóis. Recentemente, o arcebispo de Colónia, cardeal Rainer Maria Woelki, foi acusado de ocultar e não informar o Vaticano sobre as acusações de abuso sexual contra um padre. Dada a polémica desencadeada, o cardeal acabou por pedir ao Papa Francisco que avalie a sua conduta como relatava a Deustche Welle.

Num caso separado deste, o mesmo cardeal está a ser acusado de se recusar a publicar o resultado de um relatório sobre abusos sexuais na sua diocese. Depois de ter encomendado o trabalho a uma equipa independente e prometido torná-los públicos, entendeu que os resultados não deveriam ser divulgados sem serem reapreciados. Ainda assim, quis reunir com um grupo de jornalistas sobre o assunto, mas impondo como condição que eles se comprometessem ao sigilo sobre o que ali ia ser dito. Este comportamento levou a que a totalidade dos jornalistas presentes tivesse abandonado a reunião.

Em 2018, a Conferência Episcopal Alemã apresentou um estudo nacional sobre o abuso perpetrado por líderes e funcionários da Igreja contra menores. O estudo apurou que cerca de 1.670 clérigos, na maioria padres, foram acusados ​​de abusos sexuais entre 1946 e 2014 sobre pelo menos 3.677 vítimas, na sua maioria rapazes.

 

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