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À hora dos cães

| 11/11/2022

Foto © Ana Sofia Brito

Cães, animais, Educação. Foto © Ana Sofia Brito

 

“Esta é a década em que plantas viraram pet e pets viraram filhos”, dizia a minha amiga um dia destes, enquanto passávamos na calçada à hora dos cães.

Nas cidades grandes os donos levam os cães à pracinha no final da tarde, depois do trabalho, da mesma maneira que, há décadas, se levavam os filhos ao parque. As praças têm espaços próprios para o efeito; com grades, vedação e brinquedos, tal como os baloiços no parque infantil.

É uma rotina engraçada à qual já me habituara – até porque eu própria levo a minha cadela à pracinha – e na qual não pensava muito. Mas a frase que a minha amiga jogou para o ar, de facto, levou-me a uma reflexão mais profunda e detalhada sobre o assunto.

Se antes pensava “ah, ok, tudo bem; a malta chega dos trabalhos e traz os cães à rua; como os horários de trabalho são padronizados, coincide de a malta se encontrar toda a mesma hora, com as ditas mascotes”, agora penso “realmente, isto é um fenómeno social muito mais engraçado do que, à partida, parece”.

Rotineiramente, àquela hora em cada bairro, os cães são soltos à brincadeira enquanto os donos conversam entre si. Trocam-se opiniões, fazem-se amizades; os vizinhos já sabem o nome dos cães do prédio do lado e cumprimentam-nos à chegada ao lugar, enaltecem-se qualidades e apontam-se defeitos comportamentais (dos cães), entre outras coisas.

As coisas acontecem exatamente à semelhança do que, na minha infância, há trinta anos, acontecia no parque dos baloiços. Os comportamentos são exatamente os mesmos, só as crianças viraram cães.

Queremos sim, aliás precisamos, de criar laços afetivos e está-nos no sangue o sentido de responsabilidade – um cão bem pode ocupar esse lugar da vida de um humano, com a vantagem dos percentuais de cuidados e dedicação serem um tanto menores. Outra diferença é a esperança média de vida: como sabemos, a do cão é muito inferior à do filho; o que acaba por ser uma vantagem para o lado dos patudos, tendo em conta os ritmos de vida da atualidade.

Em tempos idos a mentalidade era a de que “animais, só para quem tem espaço”; e, aliás, ainda o é em meios rurais. Os bichos são para quintais e terrenos, para andarem à larga e ao ar livre, para guardarem a casa e afastarem pragas. Nos grandes centros urbanos, não havendo terrenos nem quintais, os pobres animais enjaulam-se tanto quanto nós em apartamentos de 20 m2, vinte horas por dias à excepção da hora dos cães – aquela da pracinha.

Estaremos nós, também e mais uma vez, a provocar alterações contranatura nas espécies alheias?

Serão estes cães humano-urbanos um escape à solidão pós-laboral do padrão que temos vindo a construir? Serão eles o pretexto psicológico para suprir a teoria do sentido da mini-responsabilidade? Algo que usamos para ocupar um espaço que deveria ser ocupado por outrém, mas que a vida assim não o permite? Ou será tão só e apenas o reflexo da humanidade invasiva a cimentar tudo o que é mundo, trazendo consigo, para esse cimento, o que bem lhe aprouver? Egoísmo ou altruísmo, eis a questão!

 

Ana Sofia Brito é performer e artista de rua por opção, embora também mantenha a arte de palco; frequentou o Chapitô e estudou teatro físico na Moveo, em Barcelona.

 

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