A I República e os protestantes portugueses

| 9 Nov 21

Em Novembro de 1921, durante a I República, reunia no Porto a primeira assembleia plenária da Aliança Evangélica Portuguesa. Hoje a instituição celebra 100 anos sobre a sua data fundadora.

Aliança Evangélica Estatutos 1935

Estatutos e Pacto da Aliança Evangélica Portuguesa (1935): “Tendo começado por ser uma associação de pastores e líderes evangélicos a AEP é hoje uma federação que representa o movimento evangélico em Portugal.”

 

A Evangelical Alliance (que mais tarde foi rebaptizada como World’s Evangelical Alliance) foi fundada durante uma série de encontros realizados no Freemason Hall, em Londres, de 19 de Agosto a 2 de Setembro de 1846, com a presença de representantes de Inglaterra, Escócia, Irlanda, País de Gales, Suécia, Alemanha, França, Países Baixos, Suíça, Estados Unidos da América e Canadá.

Herdeira do entusiasmo do movimento espiritual que havia marcado muitas comunidades e personalidades protestantes, em particular no mundo anglo-saxónico, e que ficou conhecido como o Segundo Grande Despertamento (1791-1842), esta organização procurou desde logo fortalecer os laços de fraternidade cristã, sem fronteiras geográficas ou denominacionais. Para além dos valores centrados na defesa de um cristianismo bíblico, a Evangelical Alliance desde cedo manifestou a sua preocupação com a condição humana, incluindo nas suas discussões temas como a escravatura, os problemas sociais causados pela Revolução Industrial e a liberdade religiosa entre outros.

Neste espírito universalista, as relações da Evangelical Alliance com a incipiente comunidade protestante em Portugal tiveram início logo no ano da sua fundação. Sem presença social organizada entre cidadãos portugueses por mais de três séculos, a contar desde que o movimento eclodira em 1517 na Alemanha, o protestantismo em Portugal experimentava em meados do século XIX um tímido arranque, graças ao pioneirismo do andaluz Vicente Gomez y Tojar (1796?-1878), antigo cónego católico que fundara uma primeira comunidade protestante de rito episcopal (1839), a partir da sua chegada a Lisboa em 1834, e que se viria a inscrever como o primeiro membro em Portugal da Evangelical Alliance. Passou então a ser apoiado por esta organização no desenvolvimento do seu trabalho evangelístico junto à Capela da Propagação Evangélica do Filho de Deus, em Lisboa.

Entre 23 e 25 de Abril de 1878, numa conferência realizada em Madrid, representantes das igrejas protestantes de Portugal e Espanha, formam a Aliança Evangélica Hispano-Lusitana. De Portugal estiveram presentes Robert Stewart (presbiteriano), Robert Moreton (metodista) e Manuel dos Santos Carvalho (congregacional). Nas bases adotadas por esta organização afirmava-se que não era sua intenção “criar uma nova seita ou denominação, nem tão pouco efectuar uma amálgama de igrejas, sendo tão-somente o seu objecto facilitar o trato pessoal e as mútuas boas relações”.

Sem ligação conhecida a Gomez, o escocês Robert Kalley (1809-1888), com origens no movimento presbiteriano mas com fortes ligações ao florescente congregacionalismo britânico, tinha começado a reunir aquela que se viria a constituir como a primeira igreja protestante portuguesa na ilha da Madeira, a partir da sua chegada à região em finais de 1838. Todavia, este grupo de fiéis viria a experimentar um duro revés que levou à sua desactivação e dispersão, em virtude da perseguição católica que lhe foi movida em Agosto de 1845 e nos meses seguintes (e que já em tempos referimos nesta coluna), facto ao qual a Evangelical Alliance não ficou indiferente logo no seu primeiro relatório.

Em 1901, por ocasião da ausência do rei D. Carlos em Londres, para participar nas exéquias oficiais da rainha Vitória, durante a regência da rainha D. Amélia, foram enviados guardas a diversas casas de culto evangélico em Lisboa, impedindo-as de realizar serviços religiosos. Tomando conhecimento do sucedido, o monarca português garantiu aos representantes da Evangelical Alliance em Londres que tal situação seria revertida.

No ano de 1906 sai do prelo a primeira edição da obra Manual Político do Cidadão Português, da autoria de Trindade Coelho, reputado magistrado de ideologia republicana, que dá conta da existência de 55 comunidades evangélicas disseminadas pelo continente e ilhas, 30 escolas de ensino primário mantidas por essas igrejas, e ainda 3 livrarias e 8 publicações periódicas evangélicas.

A despeito das fortes ligações institucionais entre as igrejas evangélicas em Portugal e o movimento britânico, associado a um espírito fraterno nacional muito pujante, seria necessário esperar mais de sete décadas, até que se constituísse formalmente em Portugal um ramo da Evangelical Alliance. Isso só viria a acontecer a partir da primeira sessão plenária da Aliança Evangélica Portuguesa, que decorreu em Lisboa a 14 de novembro de 1921.

As comemorações do centenário decorrem agora e incluirão um roteiro pelas igrejas e lugares históricos do protestantismo, uma sessão comemorativa com a intervenção da académica Helena Vilaça e outros investigadores, além de Frank Hinkelmann, actual presidente da Aliança Evangélica Europeia.

Tendo começado por ser uma associação de pastores e líderes evangélicos a Aliança Evangélica Portuguesa é hoje uma federação que representa o movimento evangélico em Portugal, incluindo indivíduos, igrejas e comunidades eclesiásticas, assim como organismos de cooperação de igrejas e organizações interdenominacionais. Segundo os últimos estudos conhecidos mais de 5% da população da Grande Lisboa afirma-se evangélica e existem no país mais de mil locais de culto desta confissão. A Aliança Evangélica Mundial (World’s Evangelical Alliance) representa hoje cerca de 600 milhões de fiéis em todo o mundo.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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