O tema dos abusos foi um dos que dominou a assembleia extraordinária da CEP, ocorrida nesta quarta-feira, 17, em Fátima. O outro foi a homologação dos membros das novas comissões episcopais, bem como a nomeação de dois novos directores de secretariados: Rita Carvalho, responsável do Ponto SJ, passa a liderar o Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, enquanto o padre Joaquim Ganhão, de Santarém, passa a liderar o Secretariado Nacional de Liturgia.
Nos dois dias anteriores, o episcopado debateu a inteligência artificial nas suas jornadas pastorais. E o comunicado final treinou o seu uso: de acordo com a Renascença, o texto foi redigido com a ajuda da IA. Dedicadas ao tema “Anúncio da fé na nova revolução tecnológica e na nova cultura”, o texto conclusivo não cita a recente encíclica Magnifica Humanitas uma única vez, o documento do Papa Leão dedicado precisamente à salvaguarda das pessoas na era da inteligência artificial.
O documento diz que a Igreja é chamada a não “fugir da inteligência artificial nem ajoelhar-se diante dela”, antes a “habitá-la com alma, a avaliá-la com ética e a usá-la com sentido missionário”. E acrescenta: “Num mundo mediado por códigos e ecrãs, a Igreja deve continuar a anunciar o Deus que se fez carne, presença e proximidade”, acrescenta o texto. “E essa é talvez a sua maior novidade pastoral: usar os meios novos sem perder o centro antigo e sempre vivo da fé cristã – encontro de pessoa a pessoa, onde cada rosto continua a valer mais do que qualquer dado.”
A iniciativa partiu de uma “pergunta decisiva para a Igreja: o que traz esta nova realidade de verdadeiramente novo para a evangelização, para a vida pastoral e para a presença cristã no mundo?” Tendo em conta a “mudança cultural profunda” que a IA provoca, a Igreja Católica “é chamada a perceber que a evangelização já não acontece apenas num mundo que usa tecnologia, mas num mundo moldado por ela”. Por isso, a pergunta “deixa de ser apenas ‘como usar a IA?’ e passa a ser ‘que humanidade estamos a formar num mundo mediado por códigos, dados e ecrãs?’”

Aspecto dos participantes nas jornadas pastorais da Conferência Episcopal Portuguesa sobre Inteligência artificial (Junho 2026), em Fátima. Foto © Samuel Mendonça/Diocese do Algarve
O texto de conclusões resume ainda o contributo dos diversos intervenientes: o padre Renzo Pegoraro, presidente da Pontifícia Academia da Vida, e Juan Narbona, professor na Faculdade de Comunicação Social na Pontifícia Universidade de Santa Cruz, ligada à Opus Dei, mostraram que “a tecnologia nunca é neutra” – precisamente uma das ideias centrais da encíclica do Papa Leão – e por isso é necessária uma “algorética, isto é, uma ética inscrita desde o início na concepção e no uso dos sistemas tecnológicos”.
João Manuel Duque, professor da Universidade Católica, e Eugénia Abrantes, presidente do Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização, aprofundaram a reflexão teológica, espiritual e antropológica. “A fé cristã anuncia um Deus que se fez carne; por isso, a Igreja não pode aceitar uma cultura que esqueça o corpo, o rosto, a vulnerabilidade e a comunidade”, diz o resumo conclusivo. Por isso, adianta o texto, é “necessário ir ao encontro das periferias digitais, escutar as perguntas que nascem nos ambientes online, criar percursos de acompanhamento e fazer do digital uma porta para o encontro real”.
Tendo o jornalista Octávio Carmo, da Ecclçesia, apresentado modos práticos de usar a IA, o documento de conclusões apresenta uma lista grande do que se exige à Igreja: “literacia digital, conhecimento básico sobre inteligência artificial, capacidade de avaliar riscos, consciência ética, sentido crítico perante a desinformação, cuidado com os dados pessoais, qualidade comunicacional, atenção às linguagens das novas gerações e maturidade espiritual para não confundir visibilidade com fecundidade pastoral”, bem como a formação de “agentes pastorais capazes de usar ferramentas digitais sem se deixarem dominar pela lógica das métricas.”
Um dos desafios maiores é a defesa da dimensão interior das pessoas, acrescenta o texto, do modo a “recuperar a profundidade num mundo muitas vezes superficial, a pergunta num tempo de respostas imediatas e a liberdade interior num ambiente orientado para captar a atenção”.










