
“O cérebro é o último órgão do corpo a amadurecer anatomicamente, continuando a crescer e a moldar-se até aos 25 anos.” Foto © Tumisu / Pixabay
O cérebro é o último órgão do corpo a amadurecer anatomicamente, continuando a crescer e a moldar-se até aos 25 anos. As redes da atenção desenvolvem-se em paralelo. As neurociências têm permitido detetar mecanismos e zonas específicas do nosso cérebro, responsáveis pela regulação das emoções. Uma das ações da ansiedade é bloquear o córtex pré-frontal impedindo a concentração e dificultando, por exemplo, a aprendizagem. Tenho visto muitos adolescentes rotulados de défice de atenção, por vezes a fazerem mesmo medicação, e que realmente o que têm é ansiedade.
A teoria da salutogénese deu um contributo muito interessante para a compreensão do stress. Permitiu desenvolver metodologias de intervenção que visam reforçar a capacidade de os indivíduos gerirem, de modo saudável, a sua exposição a fatores traumáticos de natureza psicossocial. Na origem da salutogénese está o desenvolvimento de fatores protetores, que passa por encontrar um sentido para a vida. A promoção da saúde bebeu muito do paradigma salutogénico e do sentido de coerência desenvolvido por Antonovsky. O sentido de coerência entra em linha de conta simultaneamente com vários aspetos da pessoa (a afetividade, as redes informais e formais de apoio social, os aspetos cognitivos). Um sentido de coerência fortalecido consegue lidar com a tensão de um modo mais saudável. Há experiências que comprovam que indivíduos com um sentido de coerência elevado se revelaram menos afetados pelos efeitos dos agentes stressores, tanto do ponto de vista comportamental como psicológico e emocional.
Muitas vezes, a ausência de um sentido para a vida, de um propósito, proporciona apatia e uma certa inércia em fazer diferente.
Não é por acaso que Daniel Goleman, autor do bestseller Inteligência Emocional, defende a existência de um foco como um fator fulcral para o sucesso. Denomina esse foco como “o motor oculto da excelência”.
A atenção regula a emoção. Se conseguimos manter-nos sintonizados em um qualquer objetivo, focados, a ansiedade diminui. Esta autorregulação emocional é fulcral para a vida e pode ser estimulada através da exercitação da força de vontade e da persistência. Tal como no exercício físico, quantas mais repetições, mais forte o músculo se torna. Esta capacidade pode ser treinada. As técnicas de meditação baseiam-se exatamente neste processo. O que se aprende nessas técnicas é que quando a mente começa a divagar, se deve direcionar a atenção para a respiração e manter aí a atenção. Regressa-se então ao ponto focal e repete-se este processo as vezes que forem necessárias.
Os indutores de stress estão omnipresentes nas nossa vidas e como reação a eles o organismo responde com um estado de tensão. O modo como se lida com essa tensão, mais ou menos adequado, mais ou menos eficaz, é que acabará por determinar o dano que esse stress trará às nossas vidas. O que faz com que um determinado fenómeno, uma experiência, um estímulo seja vivenciado ou não como um stress, depende do significado do estímulo para a pessoa e do reportório que ela dispõe de mecanismos automáticos para restaurar o equilíbrio (mesmo que instável). Os acontecimentos têm significados diferentes para as diferentes pessoas e são distintamente ameaçadores devido às experiências do passado e dos reportórios disponíveis.

Etty Hillesum: através da meditação, ela aprendeu a entender as forças contraditórias dentro de si e a confiar. Foto: Direitos reservados
Etty Hillesum fascina-me. No ano de 1941, tinha então 27 anos, começou a escrever o seu Diário. Morreria em Auschwitz antes de fazer 30. Ler este Diário (com o coração e não apenas com os olhos) é, em minha opinião, uma experiência fascinante por múltiplas razões, mas também para perceber como a meditação pode ser de uma grande ajuda no controlo da ansiedade.
Através da meditação, Etty aprendeu a entender as forças contraditórias dentro de si, os seus sentimentos e emoções, e aprendeu sobretudo a confiar. A meditação não a isolou do mundo, antes pelo contrário. Ofereceu-se como voluntária no campo de concentração de Westerbork. Em 8 de Junho de 1941, domingo de manhã, 9h30, escrevia: “Acredito que é isto que vou fazer: de manhã antes de começar o trabalho, passar meia hora ‘para dentro’, a escutar o que está dentro de mim. ‘Submergir-me’. Também se pode chamar a isso meditar. Mas essa palavra ainda me atemoriza um pouco. Mas sinceramente por que não? Uma meia hora de silêncio dentro de si. Não chega somente mover os braços e as pernas e todos os outros músculos, de manhã na casa de banho. O ser humano é corpo e alma. E assim, uma meia hora de ginástica e uma meia hora de ‘meditação’ podem formar em conjunto uma larga base de calma e concentração para o dia inteiro. Porém, não é tão simples como isso: uma ‘hora silenciosa’ assim. Isso requer aprendizagem. Toda a pequena tralha humana e todas as superficialidades teriam de ser eliminadas lá dentro. No final de contas há sempre um monte de desassossego em vão, numa cabecinha destas. Sentimentos e pensamentos de abertura e libertação também existem, mas a tralha está sempre à mistura. E é precisamente esse o objectivo dessa meditação: que, por dentro, uma pessoa se torne uma planície grande e ampla, sem o matagal manhoso, que esconde a vista. Que portanto alguma coisa de ‘Deus’ penetre em ti, tal como existe algo de ‘Deus’ na Nona de Beethoven. Que alguma coisa de ‘Amor’ penetre em ti, não um amor de luxo de meia hora, onde te delicias a flutuar orgulhosa dos teus próprios elevados sentimentos, mas amor, com o qual podes fazer algo no banal dia-a-dia.” (Etty Hillesum, Diário 1941-1943, Assírio & Alvim, Lisboa, 2008).
Helena Fonseca é pediatra especializada em Medicina do Adolescente e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Correio eletrónico: helenaregalofonseca@gmail.com
Este é o último texto desta série.










