
‘Se é verdade que o caminho se faz caminhando, valerá a pena perguntarmo-nos “para onde quero caminhar?” ‘
Ninguém muda de um dia para o outro. Não se pode esperar que um jovem com níveis elevados de ansiedade, por exemplo, os comece a conseguir controlar num instante.
Pessoalmente gosto muito da regra dos 3 P que aprendi com os jesuítas (Pequeno, Pessoal e Possível). Proponho um exercício individual:
1º passo – Pequeno
Vou mudar o quê? Comece por identificar uma coisa ao seu alcance (algo que gostasse de mudar em si), selecione uma ou duas coisas e coloque isso no centro das prioridades.
2º passo – Pessoal
Sou eu que vou mudar (não é o outro). Já Sartre dizia que o Homem será aquilo que projeta ser.
3º passo – Possível
Estabeleça metas possíveis. Um atleta chega ao recorde após muito treino e muitas tentativas, algumas (muitas?) falhadas.
Antes de definirmos os passos para iniciar um plano de mudança (fica para a próxima semana) vamos discutir alguns pressupostos.
Encontrar um propósito para a vida
A nossa vida está diariamente exposta à contradição, somos constantemente alvo de estímulos e solicitações em relação aos quais temos de optar. Somos chamados para direções diferentes, somos um emaranhado de vida e precisamos de nos organizar e estabelecer prioridades. Se é verdade que o caminho se faz caminhando, valerá a pena perguntarmo-nos “para onde quero caminhar?” Valerá a pena fazermos essa pergunta a nós próprios e tentarmos arrumar as várias questões/problemas em gavetas, não para que fiquem lá trancados, mas para que o foco da nossa atenção não se disperse. Atirarmo-nos de cabeça para as coisas e “logo se vê”, vivermos num delírio de superação com a sensação de que alguém nos há de aguentar, não resulta.
Promover o altruísmo

Voluntários na associação Virar a Página, em Braga, a preparar refeições solidárias. Foto © Catarina Soares Barbosa.
Daniel Marcelli, um pedopsiquiatra francês, aborda no seu livro L’Enfant, Chef de la Famille a questão muito pertinente nos tempos atuais da criança que se tornou o rei da família. Claro que ainda há no mundo muitas crianças que não têm as suas necessidades básicas satisfeitas, subnutridas, maltratadas, negligenciadas, exploradas. No entanto, nas sociedades ditas desenvolvidas, há uma tendência para colocar a criança (muitas vezes filha única, muito amada) num pedestal. Essa criança vai ter dificuldade em aceitar um “não” e perceber os limites, e começa a explorar tudo e todos.
Já acompanhei famílias em que os pais estão a passar por grandes dificuldades económicas, mas que poupam os filhos a todo o custo. Estes pais heroicos podem não ter nem o que comer, mas não recusam a compra dos ténis de marca que o pequeno déspota pede, para que ele não sofra. Tenho a certeza de que o fazem com a melhor das intenções, à custa muitas vezes de grande sacrifício, mas duvido que estejam mesmo a fazer o melhor pelos filhos.
Filhos que crescem achando que tudo existe em função deles não têm a vida facilitada para se tornarem adultos solidários e responsáveis. Nada chegará para os saciar, irão sempre querer mais e mais. A sua voracidade torna-os constantemente insatisfeitos. Em contrapartida, se tivessem sido educados numa atitude de poder admirar a flor sem ter de a colher para colocar na jarra, talvez tivessem crescido com a noção de que há mais mundo para além deles e que cada um de nós é apenas uma pequeníssima parte da realidade. Aprenderiam, talvez, que têm de respeitar a fronteira entre eles e os outros, sem entrar num delírio de si mesmos.
Marcelli defende que a criança precisa de encontrar limites à sua necessidade de oposição para ganhar força de carácter. Quando esses limites não são colocados, as crianças crescem num sentimento enganador de todo-poderosos, interpretando a menor contrariedade como uma ameaça, vivendo na necessidade constante de que os outros aceitem os seus desejos, os seus caprichos. Corre-se o risco de que a preocupação pelas necessidades fundamentais nos leve a criar necessidades que nos tornam dependentes das coisas em detrimento das pessoas. A concentração da energia no ter desvaloriza o ser.
Educamos muitas vezes os nossos filhos para uma satisfação imediata dos apetites. Importaria conseguir transmitir-lhes que cada um de nós é apenas uma pequena parte e não o todo. Educar nestes moldes não é fácil, mas será certamente possível. No entanto, a impressão que tenho é que, mesmo que não se vejam de imediato os frutos, os bolbos ficam lá e acabam por florescer noutra estação. Não há nada de mais fascinante quando chega a primavera ao jardim e os bolbos dos anos anteriores começam a brotar. Às vezes, temos agradáveis surpresas pois já nem nos lembrávamos que tínhamos plantado ali aquele bolbo, meio esquecido, mas que teima em brotar.
Fortalecer os aspetos positivos

“Focarmo-nos nos aspetos positivos é uma prática fundamental a exercitar e pode ser uma ferramenta para reencontrar o equilíbrio.” Foto © Forgacs / Unsplash
Todos temos a experiência de, perante uma determinada situação, termos a tendência de nos determos mais sobre os aspetos negativos e quase esquecermos o que correu bem. A negatividade foca-nos naquilo que nos perturba.
As terapias cognitivas defendem que nos devemos focalizar nos aspetos positivos de uma determinada experiência, sob pena de deprimirmos. Uma capacidade que deve ser treinada é trazer à memória os sentimentos positivos que experimentamos e manter aí o nosso foco. Os trabalhos de Frederickson mostram que, quando nos sentimos bem, a nossa consciência expande-se de um foco centrado em «mim» para um foco mais alargado e gratificante, centrado no «nós». No nosso dia a dia temos a noção de que quando nos defrontamos com um momento positivo, tal como reencontrar um amigo que já não víamos há muito tempo, a disposição positiva perdura. Nos deprimidos verificou-se que esse efeito dura menos. Assim, focarmo-nos nos aspetos positivos é uma prática fundamental a exercitar e pode ser uma ferramenta para reencontrar o equilíbrio. É a história do copo meio cheio ou meio vazio.
Estudos que envolveram ressonância magnética funcional mostraram que quando nos debatemos com aspetos negativos, as áreas cerebrais ativadas geram ansiedade, conflito e tristeza, enquanto o foco nos aspetos positivos ativa a rede de circuitos cerebrais ligados à recompensa e às áreas das sensações boas e das memórias felizes. Estas descobertas conduzem-nos à necessidade de nos focarmos mais nos nossos pontos fortes do que nas fraquezas, se nos queremos abrir a novas ideias e projetar um futuro desejado.
Manter a alegria
Ter alegria naquilo que se faz ajuda a manter o foco na atividade e, deste modo, a controlar a ansiedade. O atleta mantém a alegria da prática e da aprendizagem, apesar de já ter repetido o exercício até à exaustão. O músico continua a desfrutar o prazer dos treinos e ensaios, apesar das múltiplas repetições.
Helena Fonseca é pediatra especializada em Medicina do Adolescente e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Correio eletrónico: helenaregalofonseca@gmail.com










