
Caminhar na natureza pode diminuir os níveis de ansiedade. Foto © António José Paulino
Temos urgentemente de encontrar alternativas para dar tréguas ao stress, sob pena de ficarmos mesmo doentes, já que a saúde e a doença têm de ser entendidas na sua interação com o ambiente e o meio social.
Há medidas macro e micro para ajudar a prevenir o stress e é obrigação dos governos zelar pelo bem-estar e criar condições para que as pessoas vivam com menos stress.
Os estudos de Damásio mostraram como os pensamentos desencadeiam as emoções e como as modificações do corpo durante as emoções se transformam em sentimentos. A nossa mente utiliza a consciência de si mesmo para manter o que necessitamos de fazer sob controlo, regular as nossas emoções, pensar sobre o pensar. À semelhança da metacognição, a meta-emoção permite o diálogo entre o sentimento e o impulso. Só assim conseguimos orientar as nossas vidas.
O modelo mente-corpo defende que a saúde, os estilos de vida e os comportamentos são interdependentes da emoção e do pensamento.
Viver numa sociedade mais justa não sentindo o dia a dia como uma ameaça ou um fardo, como se vivesse num campo de batalha onde diariamente temos de combater as exigências que nos são impostas, não pode conduzir a uma vida feliz.
A prática regular de exercício físico pode funcionar como uma arma importante contra o stress. São várias as razões subjacentes: a libertação de endorfinas que são responsáveis por uma sensação de bem-estar e, simultaneamente, neutralizam a libertação aumentada de cortisol; a melhoria da circulação sanguínea; a redução da tensão arterial; a melhoria do controlo metabólico; os benefícios psicológicos. Há pessoas para quem a melhor terapia para o stress é ir ao ginásio, onde conseguem finalmente abstrair-se dos problemas e relaxar, dormindo nesse dia melhor. Nos desportos de grupo acrescem os benefícios que advêm do contacto social e da interação do grupo.
A meditação e as práticas de relaxamento têm encontrado cada vez mais adeptos. Caminhar na natureza pode diminuir os níveis de ansiedade. A natureza, para além de ser uma dádiva extraordinária, tem (ao contrário dos humanos que são limitados) todo o tempo do mundo, renovando-se constantemente. Se incutirmos nos nossos filhos o amor pela natureza, eles irão não apenas aprender a respeitá-la, mas também irão começar a usufruir deste recurso pacificador.
Uma teoria que nos últimos anos tem sido apontada como podendo ter uma contribuição positiva para a prevenção e controlo do stress é o construto de mindfulness. Através do exercício de uma atenção focalizada sobre as sensações e emoções do momento presente (independentemente do quanto possa ser difícil ou intenso), sem questionar o passado ou o futuro, permite minimizar muito eficazmente os sintomas de ansiedade.
A investigação tem demonstrado que as técnicas de mindfulness são eficazes no tratamento de múltiplas patologias e que o investimento nesta ferramenta de mudança pessoal proporciona ganhos de eficiência em saúde, quer em termos de promoção da satisfação e bem-estar bem como no modo como se lida com o stress.

Um tempo de pausa ajuda a ponderar as potenciais consequências da tomada de ação. Foto © Nenad Stojkovic, CC BY 2.0 <https://creativecommons.org/licenses/by/2.0>, via Wikimedia Commons
Infelizmente, com o objetivo de aliviar o stress, o indivíduo recorre frequentemente a hábitos menos saudáveis, tais como a ingestão de bebidas alcoólicas, tabaco ou outras drogas. É muito frequente vermos adolescentes e adultos jovens que fumam erva com o objetivo de aliviar o stress. Uma alimentação desequilibrada seja por excesso, frequentemente com crises de voracidade alimentar (binge) ou por defeito e a privação de sono, são outras estratégias desajeitadas de tentar lidar com o stress.
O estilo de vida e as opções que fazemos são muito importantes na prevenção do stress. Porém, conforme todos nós já experimentámos, as mudanças comportamentais não dependem diretamente da qualidade e quantidade da informação de que dispomos. O homem é um ser complexo e a sua personalidade, circunstâncias de vida, crenças, motivações, podem facilitar ou pelo contrário dificultar essas mudanças. Alguns, quiçá mais vulneráveis, têm pouca capacidade de lutar contra a força do destino. Ajudá-los a sair dessa onda de fatalismo, melhorando a sua capacidade de fazer escolhas, de compreender o que em cada momento é mais importante e como pode ser atingido, poderá ser de uma grande ajuda. Sempre que se faz uma escolha, ganha-se e perde-se, esperando-se que os ganhos sejam superiores às perdas. Ter o sentido da realidade e ser fiel aos valores que possam sustentar as escolhas é um processo nem sempre fácil e em constante construção.
Há uma terapia muito interessante denominada Pause Button Therapy (PBT) desenvolvida pelo casal Shirran e que consiste em utilizar a ideia das teclas de pause, rewind, fast forward e play dos aparelhos de controlo remoto para ajudar a ganhar tempo para pensar quando é necessário tomar decisões. Esse tempo de pausa ajuda a ponderar as potenciais consequências da tomada de ação. Esta técnica, influenciada pelas terapias cognitivas comportamentais, permite fazer melhores escolhas na nossa vida, viver melhor o presente e efetuar mudanças positivas. Incide essencialmente sobre o momento da tomada de decisão, escolhendo entre continuar seguindo o mesmo padrão, ou quebrá-lo e criar um novo.
Responder e reagir não são a mesma coisa. Não seria melhor responder com base na reflexão em vez de reagir automaticamente? Quanto maior o stress, o estado de confusão, a indecisão, maior o benefício em carregar no botão de pausa. Ganhar tempo, parar para visualizar as consequências e perceber o que é mais importante a curto e médio prazo, tentando ultrapassar a tentação da gratificação imediata. Perceber o que tem mais significado pode fazer toda a diferença e ajudar a ganhar controlo sobre a situação. Parar permite olhar para trás e para diante, encoraja a ver, imaginar, viver mentalmente as consequências de uma determinada ação. É muito mais do que simplesmente parar por alguns segundos. É imaginar (e rezar) uma decisão diferente que poderá ter implicações distintas para a vida do próprio e dos outros com quem nos relacionamos e são significativos para nós.
Helena Fonseca é pediatra especializada em Medicina do Adolescente e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Correio eletrónico: helenaregalofonseca@gmail.com










