A ideia de Deus

| 25 Set 2021

Mãos que se tocam

“Só se pode encher o que vai vazio, só pode encontrar quem efetivamente procura por se saber perdido ou incapaz de seguir sozinho.” Foto © Matheus Viana / Unsplash

 

Não é certo que quem nasça numa família de forte tradição religiosa esteja em melhores condições do que qualquer outra pessoa para desenvolver a componente espiritual e uma relação com o divino. Pode acontecer exatamente o inverso.

Crescer com uma ideia de Deus pode levar-nos a cristalizá-la nos ritos, hábitos ou procedimentos que, a dada altura, são desajustados ou necessariamente superficiais, pois mudamos ao longo da vida, deixando para trás o que já não serve.

O desajustamento da vida espiritual com o crescimento nos adolescentes expõe a desproporção entre as várias dimensões do nosso ser, como os jeans que ficam curtos e sem margem para mais utilização. Do mesmo modo, o que levamos da fé herdada pode começar a ser um autocolante cada vez mais solto, inapropriado, infantil e descabido.

Porque Deus não é uma ideia, Deus é Pessoa. E toda a experiência religiosa nasce do encontro entre duas pessoas, divina e humana, em que o homem é revelado a si mesmo na profundidade do olhar do Deus (Vaticano II, Gaudium et Spes 22).

Impossível de ser esquecido (Evangelho de João 1:39), esse encontro é como um novo nascimento (João 3:3) para uma vida feita de encontros. Pois o encontro com Deus leva ao encontro com os homens, sem exceção, e o tempo interior e exterior é feito de êxodo, ainda que não saiamos do lugar: o êxodo de um coração em busca de Deus em todo o mundo criado.

Sem encontro, feito cada vez mais de amor do que de palavras, a vida deixa-se invadir de vacuidade e desnorte. E podemos ir deitando a mão à ideia de Deus e a criar expedientes que nos dão a falsa segurança do encontro, quando o encontro com Deus, por definição, nos retira todas as seguranças.

Percebe-se bem por que razão, ao tempo de Cristo, os chefes religiosos e os teólogos foram incapazes de O ver: estavam cheios de uma ideia de Deus, tinham-No capturado em expedientes de perfeição, tinham adulterado a Sua aliança, eram idólatras e não crentes.

Os pecadores, esses, do fundo da sua perceção de indignidade, no vazio da sua ideia de Deus e longe dos expedientes do acesso ao divino, puderam ver Deus. Não só ver, como aproximar-se (Evangelho de Mateus 17:14), como gritar-Lhe (Marcos 10:46), como tocar-Lhe (Mateus 9:2), como pedir-Lhe impossíveis (Lucas 18:35). E tê-los de bandeja.

Só se pode encher o que vai vazio, só pode encontrar quem efetivamente procura por se saber perdido ou incapaz de seguir sozinho.

Ao longo do nosso caminho, tal como Moisés e o povo escolhido na travessia do deserto, seremos tentados de muitas formas, mesmo tendo tido o privilégio de perceber toda a latitude e a profundidade do amor de Deus. Uma delas é, sem dúvida, instalarmo-nos numa certa ideia de Deus e num roteiro para Ele, quando o único roteiro só Ele mesmo nos pode dar, dia a dia, como o maná no deserto, que é sempre novo.

Ainda que voltemos às orações de infância, e é certo que voltamos, elas enchem-se de ressonâncias íntimas, imensa petição, tantos rostos, tanta adoração, e uma tal proximidade que jamais ousaríamos deixá-las. Porque ao vocalizá-las não reproduzimos palavras ou ideias. Apenas amamos, e não com o nosso amor, mas com o amor do Criador no nosso coração.

 

Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

“A grande substituição”

[Os dias da semana]

“A grande substituição” novidade

Outras teorias da conspiração não têm um balanço igualmente inócuo para apresentar. Uma delas defende que estamos perante uma “grande substituição”; não ornitológica, mas humana. No Ocidente, sustentam, a raça branca, cristã, está a ser substituída por asiáticos, hispânicos, negros ou muçulmanos e judeus. A ideia é velha.

Humanizar não é isolar

Humanizar não é isolar novidade

É incontestável que as circunstâncias de vida das pessoas são as mais diversas e, em algumas situações, assumem contornos improváveis e, muitas vezes, indesejáveis. À medida que se instalam limitações resultantes ou não de envelhecimento, alguns têm de habitar residências sénior, lares de idosos, casas de repouso,…

Agenda

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This