O Padre Mateo Bautista García, religioso camiliano, é o animador internacional da Pastoral do Luto e criador do Grupo Paroquial de Mútua Ajuda no Luto “Ressurreição”. Espanhol (Alba de Tormes, 1960), reside atualmente em Lima (Peru), depois de ter servido em Buenos Aires, Argentina, no tempo do cardeal Jorge Mario Bergoglio, futuro Papa Francisco). Autor de várias dezenas de livros sobre religião, pastoral da saúde e luto, o religioso passou por Aveiro, no final de abril, para lançar os grupos “Ressurreição”, prevendo-se a criação de um em Esgueira, uma das paróquias da cidade. A Pastoral do Luto tem três níveis: do sofrimento à cura; da cura à maturidade; e da maturidade à esperança.
Pergunta – Como correu a visita a Aveiro e qual foi a sua intenção ao visitar a diocese?
MATEO BAUTISTA – A minha missão é animar a nível internacional a pastoral do luto. A passagem por Aveiro destina-se a lançar esta pastoral na cidade. Estivemos com o bispo de Aveiro, porque esta é uma pastoral da Igreja. Gostávamos em que cada paróquia houvesse um grupo de acompanhamento das pessoas que sofrem pela perda de alguém.
Hoje todos temos mais dificuldades em aceitar e viver a morte. Noutros tempos, convivia-se mais com a morte: as taxas de mortalidade eram mais altas e a morte dos familiares acontecia dentro de casa…
Somos como que analfabetos da morte. Mas de que morte? Primeiro, temos dificuldades em assimilar que morreu um ente querido. Mas também somos analfabetos para ajudar a morrer os entes queridos, quando acontece uma doença, uma patologia. E somos ainda mais analfabetos para fazer um trabalho de luto pela nossa própria morte. Esta pastoral lembra-nos que, se nós não trabalhamos a morte dos entes queridos, não vamos trabalhar a nossa própria morte, não assumimos. E se não assumimos e trabalhamos a nossa própria morte, não vamos fazer um bom trabalho quando morre um ente querido. Há diferenças culturais, é certo, mas na Europa e na América temos esta dificuldade em comum de não saber lidar com a morte dos entes queridos.
Como funcionam os grupos de pastoral do luto?
O grupo é sempre de base paroquial. Recordamos que é a Igreja que se ocupa dos seus filhos que sofrem pela morte de alguém querido. Não é uma associação de leigos. Não é um grupo, por exemplo, de viúvos ou viúvas, ou de pais a quem morreu um filho. É a Igreja que, como mãe e mestra, se ocupa em fazer este acompanhamento humano e espiritual. É responsabilidade de toda uma paróquia.

Porta da Morte, na Basílica de São Pedro: Quem passou por uma experiência de perda, “sabe como a alma se retorce”. Foto © Joaquim Félix]
O acompanhamento nos momentos de dificuldade está no centro da vida cristã…
Sim, até porque, como cristãos, anunciamos que a paixão, o sofrimento, a morte e a ressurreição de Jesus são o coração do Evangelho, o coração da Igreja. A pastoral do luto é uma pastoral que se faz com muito humanismo. Seguramente, para muitas pessoas, trata-se do sofrimento maior da sua vida.
A morte de um filho, por exemplo…
O que pode haver de mais grave e doloroso? A perda de trabalho? Não, certamente. Porque este tipo de mortes e de feridas deixa muitas pessoas numa crise existencial, sem esperança, sem projetos. Morrem em vida. Muitas pessoas entram numa crise espiritual. Ficam ressentidas com Deus. A ideia de que Deus levou “o meu ente querido” é terrível. Então, não só ficam com a morte de um ente querido, mas até mesmo enojadas e inimigas de Deus. A pastoral do luto é uma pastoral de uma profunda evangelização. As grandes perguntas da fé acontecem à volta do sofrimento, do mal, da injustiça e da morte. Por isso, esta pastoral está no coração do Evangelho.
Mas o que distingue um grupo desta pastoral do luto de outro grupo em Igreja? Há algumas regras?
Em primeiro lugar, os coordenadores ou animadores têm de ter passado por uma experiência própria de sofrimento. Sabem como a alma se retorce. Ou seja, a morte de um filho, a morte de um marido, da mulher… Segundo, passaram por um processo de sanação, de cura. Depois, os nossos grupos trabalham seis dimensões.
Pode explicar-nos um pouco essas dimensões?
Primeira, o cuidado corporal. Não esqueçamos que onde se nota, à primeira vista, que uma pessoa sofre é nos olhos e na cara. O cuidado corporal, que tem a ver com a autoestima. Depois, há a dimensão afetiva, emocional, anímica. O que fazer com o amor e sentimentos como o medo, a culpa? Trabalhamos também sobre a autoestima e a perda de vontade. Focamo-nos ainda nas ideias insanas e perversas. Por exemplo, “esta ferida é para toda a vida”. Não, não é. Ou “nunca mais vou ser feliz”. Não é verdade.
Trabalhamos também o tema relacional. Não são grupos de autoajuda, mas de mútua ajuda, onde o membro tem de trabalhar não só com companheiros, mas também na sua família. Depois, temos o tema dos valores: a fortaleza, a temperança, a espiritualidade. Trabalhamos numa imagem saudável de Deus, tal como Jesus faria, evitando estes processos de ressentimento, de ficar frustrados e enojados…

Mateo Bautista com o Papa Francisco: na década de 1990, o padre Mateo trabalhou em Buenos Aires, com o então arcebispo Jorge Mario Bergoglio. Foto: Direitos reservados.
Há mais alguma regra? Há limites no número de elementos do grupo?
Normalmente, estes grupos funcionam com cerca de dez pessoas e as reuniões duram duas horas por semana. E é muito importante que cada pessoa fale cinco vezes em cada encontro.
Ou seja, há regras próprias que foram elaboradas pelo padre Mateo?
Sim, temos uma metodologia. Os coordenadores ou animadores têm um guia. E há temas para os encontros. Há sempre um trabalho mental muito importante a fazer porque acreditam que é preciso esquecer o ente querido, não o lembrar, não falar, não pensar, não amar. Ora, todos têm de falar. É muito importante que os que sofrem aprendam a chorar. Que aprendam a falar, a apontar, a dar nome à sua vida.
O padre Mateo viveu em Buenos Aires, quando o arcebispo era Bergoglio, depois Papa Francisco. Conheceu-o?
Estive na Argentina de 1989 a 2002. Ele foi eleito bispo em 1992, primeiro como auxiliar e desde 1997 como arcebispo. O mal não é que eu o conheça. O mal é que ele me conhecia (risos). Mais a sério: ele tocou-nos como arcebispo. Recordo que houve uns atentados contra a embaixada de Israel, com mortes, incluindo a de um padre, e a primeira pessoa que apareceu foi o cardeal Bergoglio. Ele era muito sensível ao acompanhamento, sobretudo dos mais velhos. Mas agora que ele morreu, sabe uma coisa interessante?
Conte-nos…
Ele preparou-se para a sua morte. Fez testamento, sim. Fez autobiografia. Sabia o que era estar num hospital muito antes destes últimos meses. Em Buenos Aires, foi operado no Hospital de São Camilo [da congregação a que pertence o padre Mateo] e já nessa altura falávamos, porque eu era secretário episcopal da Pastoral da Saúde, que a pastoral não podia ser apenas assistencial, mas também preventiva e promocional.
(Este texto foi cedido pelo autor, depois de publicado inicialmente no Correio do Vouga, jornal da diocese de Aveiro.)










