Igreja Católica – que caminhos de futuro? (Debate – 18)

A Igreja não pode voltar a dar “uma mão cheia de nada”

| 25 Abr 2023

O catolicismo vive uma crise profunda, apesar de continuar a ser para muitas pessoas um espaço vital de busca de sentido e experiência de fraternidade. As situações de abusos de poder e violências sexuais vieram evidenciar problemas sistémicos. Em Portugal, depois de terem criado uma Comissão Independente (CI) para estudar os abusos sexuais sobre crianças, os bispos ficaram na indefinição sobre o que fazer com o panorama posto a nu pelo relatório da CI. Perante a perplexidade que tomou conta da sociedade e de muitos crentes, o 7MARGENS convidou católicos a partilhar leituras da situação e propor caminhos de futuro, a partir de três perguntas:

  1. Quais são os pontos que considera centrais nas medidas a assumir agora pela Igreja, para ser fiel ao Evangelho e ser testemunho de Jesus Cristo na sociedade? A quem cabe concretizar e liderar a aplicação de tais medidas?
  2. Considera que faria sentido que os batizados se encontrassem e se escutassem sobre essas tarefas e desafios que se colocam à comunidade eclesial, a nível diocesano e/ou nacional? Como? De que formas?
  3. Que contributo(s) estaria disposto a dar para que a Igreja, os católicos e as suas comunidades adotem um caminho centrado no Evangelho em ordem a superar a prática de abusos?

 

Nesta décima oitava resposta, Helena Martins Carmona, leiga, católica, professora de Educação Moral e Religiosa Católica, chama a atenção para a importância das decisões coletivas ao nível da CEP e para a necessidade de que todo o processo seja isento e transparente. Propõe ainda a participação de todos os batizados através de assembleias diocesanas.

 

Exigência de processo isento e transparente

“As decisões não podem ser tomadas bispo a bispo, mas sim na CEP, de modo a que seja igual para todo o território. Caso contrário, temos abusadores de 1ª e de 2ª, conforme o entendimento do bispo diocesano.” Foto: Presidência da Conferência Episcopal Portuguesa. © Agência Ecclesia /HM

 

1. A Igreja não pode voltar a dar “uma mão cheia de nada”, como fez no passado dia 3 de março. Somos um só país, queremos uma só Igreja. As decisões não podem ser tomadas bispo a bispo, mas sim na CEP, de modo a que seja igual para todo o território. Caso contrário, temos abusadores de 1ª e de 2ª, conforme o entendimento do bispo diocesano.

A CEP tem também o dever de se assumir como Igreja no seu todo e, em relação aos padres que já morreram, fazer não só um verdadeiro pedido de desculpas, assumindo o mal efetuado e responsabilizando-se pelo acompanhamento das vítimas. O que tem vindo a publico, em relação a esses padres é quase um “lavar de mãos, como Pôncio Pilates”.

Num debate a que assisti recentemente, o Dr. Souto Moura afirmou que o prazo de prescrição canónico é bastante mais dilatado que o civil. A maioria dos abusadores pertencentes à Igreja não são investigados pelo departamento da Polícia Judiciaria, especializado no assunto, devido à prescrição civil. Mas, como é feita a investigação na Igreja? É muito importante, para as vítimas e para a confiança de todos os crentes que esse processo seja isento e transparente, feito por quem tem formação para chegar ao caminho da verdade.

A Comissão Nacional de acompanhamento que está, ou já foi criada, deve chegar a todas as vítimas, sem exceção.

2. Para mim, faz sentido começar por perguntar às vítimas o que é que elas pedem à Igreja. Nós cristãos estamos feridos, mas as vítimas que só agora tiveram força para denunciar, qual é a reparação que querem? Este é o primeiro passo, porque elas têm de ser a principal preocupação da Igreja.

Sim, é importante também ouvir o que os batizados têm a dizer sobre o assunto. No entanto, é difícil essa realização. Os desafios, como já disse, devem ser nacionais, mas decididos em assembleias nas dioceses. Isto é, realização de assembleias diocesanas, por zonas, vigararias, conforme a dimensão do território diocesano. Todas devem ter como ponto de partida as mesmas questões, orientadas por pessoas que não pertencem à hierarquia da Igreja. Um pouco como se fez com a primeira fase do sínodo. As respostas, depois de resumidas, dariam a solução final para cada uma das questões. A apresentação seria tornada publica por uma equipa constituída por membros de todas as dioceses.

P.S. As assembleias deveriam ser divulgadas pelos meios de comunicação social e não apenas nos espaços eclesiais, onde, se não estiverem de acordo, os senhores padres nem no assunto falam, como aconteceu com o sínodo.

3. Que contributo(s) estaria disposto a dar para que a Igreja, os católicos e as suas comunidades adotem um caminho centrado no Evangelho em ordem a superar a prática de abusos?

Primeiro, temos de encontrar o caminho. Muitos têm sido apontados: o celibato facultativo, a formação dos sacerdotes e a integração da mulher na vida da Igreja, entre outros. Estou de acordo com todos, mas considero que o essencial é a educação. Tem de haver um trabalho conjunto entre Igreja e Estado para que o tema passe a fazer parte da educação das crianças e dos adolescentes, que na sua grande maioria, nem pensam que tal possa acontecer (sei do que falo).

Enquanto esta solução conjunta não for possível, a CEP tem de ter a coragem para dizer que a prevenção tem de ser feita nos grupos de catequese, nos grupos de jovens, na pastoral da deficiência e, de um modo geral, a todos os adultos que pretendam saber mais sobre o assunto. É preciso prevenir, é preciso alertar, é preciso dar ferramentas para que não haja vítimas, ou, no caso de as haver, que denunciem de imediato. As dioceses devem criar equipas que possam fazer essa formação junto dos grupos de risco.

Quanto aos abusadores, considero que a Igreja tem de criar um mecanismo de acompanhamento, e até discernimento. O afastamento é importante, diria mesmo obrigatório, já que tal também acontece com quem não pertence à Igreja. No entanto, sabemos que uma grande parte das pessoas acredita na inocência dos abusadores, colocando em causa as acusações. Assim, é importante o assumir de culpa, por quem a tem, e a sua condução para atividades que não estejam diretamente relacionadas com os grupos de maior risco. Mas é preciso garantir que estas pessoas também têm ao dispor um grupo de técnicos que os possam acompanhar. Não queremos suicídios! Mas, também não basta falar no sacramento da Reconciliação, como já foi dito por alguns bispos. As vítimas precisam que acreditem nelas e que haja uma forma de punição. A impunidade, é a causa da maior revolta para as vítimas.

 

Helena Martins Carmona é leiga católica, professora de Educação Moral e Religiosa Católica. Contacto:  helena.carmona22@gmail.com

 

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