O livro Uma Igreja que Ri – Os Padres na Berlinda, Um Concílio Fatal e o Humor Como Terapia, da autoria de José Eduardo Franco e Cristiana Lucas Silva com ilustrações da Irmã Leonor Wemans foi lançado na quinta-feira, dia 30 de abril, em Coimbra, no âmbito das Conversas Almedina. Além dos autores, Carlos Fiolhais, físico e professor aposentado da Universidade de Coimbra, Martinho Soares, professor da mesma universidade, e Jorge Wemans, editor do 7MARGENS, apresentaram o livro. O texto que se segue é retirado da apresentação feita por este último.

O livro foi apresentado na quinta-feira, 30 de abril, em Coimbra, no âmbito das Conversas Almedina. Foto: Direitos reservados
Uma Igreja que Ri é um bom título! Título inesperado, que aponta para tema pouco explorado e que corre o risco de se apresentar como nada evangélico, porquanto nos torna logo a todos, aos crentes e aos não crentes, em descrentes convictos: mas a Igreja ri? Não se acredita! Não parece mesmo nada que assim seja! Riso e Igreja não são realidades que se associem facilmente, ou que sejam vistas juntas em público. E porém, Ela move-se, ou seja, neste caso: Ela ri!
Podem crer que sim! Eu próprio digo que a maior parte das boas tardes / noites de gargalhadas em série (porque será que as nossas recordações de momentos de muito riso nunca são matinais?), muitos dos tempos de grandes risos de que me recordo na minha já longa vida têm a assinatura de algum padre, ou andam à roda de clérigos, frades e freiras.
Nisto as minhas recordações não seguem exatamente o perfil de interpretação que os autores do livro nos sugerem. O meu trajeto pessoal leva-me a considerar que o humor crítico que escolhe como objeto da sua ironia e da sua troça o clero, a Igreja Católica, outras igrejas e outras religiões é o mesmo que estende o seu sarcasmo a outras realidades e instituições do nosso presente. Quero com isto dizer que, se podemos detetar com nitidez o riso que nasce da troça do hábito, não conseguimos apontar o frade que se dedica exclusivamente a satirizar a Igreja e os atores eclesiais. Mesmo se se apresentam com tonsura impecável, tais humoristas (encartados, ou não) de tudo, ou de quase tudo, fazem humor, não se deixando emparedar no estreito âmbito eclesial.
Mas já que trouxe para aqui a minha experiência pessoal, talvez valha a pena apresentar-me no que de relevante para aqui conta. Sou católico, vivi parte da minha juventude a correr o mundo, visitando movimentos estudantis católicos que era suposto coordenar a nível internacional. Conheci centenas de padres, frades e freiras e milhares de estudantes católicos. Diverti-me bastante, ri ainda mais e em várias outras ocasiões fartei-me de chorar por causa de gente amiga presa, torturada, morta.
Vem isto a propósito do que escrevem os autores (pág. 63) sobre quanto o riso “é uma saudável terapia” perante “as imperfeições e fragilidades humanas” que tornam insuportável o “peso da moral, da doutrina, da disciplina e da alta exigência que é imposta a homens e mulheres que à Igreja se consagram”. Sim, será certamente uma excelente terapia contra esse peso sufocante. Mas o riso tem também uma outra não menos importante função terapêutica: a de manter mentalmente saudável quem enfrenta o mal do mundo dos outros, quem, por dever e missão, se torna, mesmo sem o querer, testemunha e por vezes depositário do que de mais sórdido, doloroso, selvagem e terrível habita o coração e os gestos dos homens.
Não tenho dúvidas: alguns dos que, naqueles tempos de juventude, de modo fácil e recorrente nos punham a rir com piadas sobre tretas eclesiais eram, de facto, pessoas que tinham sofrido na pele, ou por interpostas pessoas, coisas do diabo. O riso, visto assim, parece não ser tanto uma coisa do diabo, mas antes uma arma para manter o diabo, os diabos, quietos no seu lugar.
Contra o clericalismo

“Do meu ponto de vista, só uma igreja sinodal pode verdadeiramente rir com gosto”, afirmou Jorge Wemans. Foto © Centro de Estudos Globais
Voltando à minha biografia. Devo dizer que no contexto da apresentação deste livro fui obrigado a revê-la. Achava-me um anticlerical, mas após o resumo do anticlericalismo dos liberais do século XIX que os autores nos apresentam, vejo-me obrigado a mudar a designação para não me confundir com os conteúdos que esses altos vultos do nosso pensamento lhe emprestaram. Defino-me então de modo mais prosaico como sendo contra o clericalismo. Católico, pois claro, mas contra o clericalismo que reputo de maior cancro da Igreja Católica, não apenas em Portugal, mas em todo o mundo.
Ele é a causa principal dos abusos sexuais e de toda a ordem de abusos perpetrados no interior da Igreja Católica, abusos que não são apenas de ontem, mas que continuam no presente e se prolongarão no futuro caso não consigamos erradicar o clericalismo vigente. E não encontro nenhuma boa piada para adocicar isto.
Como referem os autores, “o anticlericalismo é uma reação ao insuportável clericalismo excessivo” (pág.17). O que é verdade. Mas apenas em países em que também é excessiva a tutela da Igreja sobre a sociedade. Nos países em que a Igreja nenhum poder fático ou real detém sobre a sociedade ninguém perde tempo a investigar as razões de tal fenómeno, ou a criticar a sua nocividade.
Em qualquer caso, em sociedades profundamente trabalhadas pelo catolicismo como é a nossa, resistir e superar o clericalismo são tarefas muito significativas porque são parte integrante do combate cultural dos nossos dias. De facto, temos de novo o nosso espaço público ocupado, e por vezes monopolizado, pelo discurso e pelas ações de rejeição do diferente, de acusação preconceituosa sem provas nem fundamento real, da igualização da democracia e da ditadura e da selvajaria discriminatória contra a mulher, o imigrante, o mais pobre e mais vulnerável. Derrotar estas práticas e este pensamento troglodita e antidemocrático é o combate principal do nosso tempo.
Embora não seja para todos evidente, superar o clericalismo num processo em direção a uma Igreja sinodal é, seguramente, algo que converge com este combate, quanto mais não seja por tornar todos os católicos mais responsáveis e mais participativos na definição e concretização das prioridades das suas comunidades, dando nelas lugar central aos mais esquecidos, aos que habitam as periferias de todo o género que marcam a atualidade das nossas cidades.
E, do meu ponto de vista, só uma igreja sinodal pode verdadeiramente rir com gosto e levar os católicos a perderem aquele ar de enterro que o Papa Francisco tanto criticava!
A gargalhada de Jesus

“Creio que a leitura deste livro ajuda a perceber que o problema da Igreja com o riso é semelhante ao que ela tem com tudo aquilo que são as pulsões humanas”. Foto © Centro de Estudos Globais
Regressando, então, ao riso…
Igualmente muito interessante me pareceu o argumentário reunido neste livro para abrir a porta à ideia de que Jesus ria e teria feito rir. Claro que sim! No seu tempo foi acusado de ser “um beberrão e um comilão” [Mateus 11;19]. Não terá sido por ser triste e nunca rir! E a quantidade de banquetes, casamentos, almoços e jantares em que Jesus participou e que os Evangelhos nos relatam seriam todos momentos tristes e sisudos, sem uma piada, sem uma boa gargalhada? De igual modo: por que razão em tantas parábolas Jesus coloca os seus protagonistas à mesa, a prepararem casamentos, banquetes e outras festas? Uma das suas imagens preferidas para falar do Reino dos Céus não é o banquete? Não há dúvida, Jesus gostava de vinho, adorava estar à mesa, devia ser uma companhia muito alegre e ter bastante humor. Ainda bem que os autores deste pequeno livro resgatam esse lado de Jesus que durante séculos a hierarquia cristã na sua quase totalidade tentou esconder.
Mas porque tem a Igreja tanto medo do riso? Creio que a leitura deste livro ajuda a perceber que o problema da Igreja com o riso é semelhante ao que ela tem com tudo aquilo que são as pulsões humanas não imediatamente controladas. “Aquelas forças internas constantes e inesgotáveis que emergem do corpo e impulsionam o indivíduo em direção à satisfação, frequentemente contornando o controlo consciente imediato”, como qualquer definição barata as apresenta. Riso, sexo, corpo, inconsciente e descontrolo, talvez façam parte do mesmo universo com o qual a Igreja desde muito cedo na sua história se foi dando sempre mal, com honrosas, se bem que parcas, muito parcas, exceções. Tradição de exceções em que este bem humorado livro se insere.
A bem da transparência, devo acrescentar que as ilustrações carregadas de humor que enchem as páginas deste livro são da minha sobrinha Leonor Wemans a quem a vida conventual parece ter acicatado a veia humorística para nos fazer rir com os seus cartoons glosando os duplos sentidos de algumas palavras do léxico católico e da própria tradição cristã!
Mas numa apresentação de um livro com este título não poderia deixar de lembrar alguns Papas sorridentes. Sobretudo aquele meu homónimo, Jorge Bergoglio, que alguns anos depois de eleito como Papa, perante a insistência do jornalista que queria saber ao certo quantos funcionários tinha o Vaticano, lhe respondeu, sem vacilar e com imenso humor, à pergunta “Quantas pessoas trabalham no Vaticano?”, dizendo: “Cerca de metade!”
Uma Igreja que Ri – Os Padres na Berlinda, Um Concílio Fatal e o Humor Como Terapia
De: José Eduardo Franco e Cristiana Lucas Silva
Ilustrações: Irmã Leonor Wemans
Editora: Edições Esgotadas
102 págs. PVP: €16,00










