
“Paulo reivindica, contra o legalismo judaico, a liberdade cristã face aos ditames da Lei.” Foto: Estátua representando São Paulo, da autoria do escultor Adamo Tadolini, na Basílica de São Pedro do Vaticano. © AngMoKio / Wikimedia Commons
No meu habitual périplo pela bíblia, revisitei a Primeira Carta de Paulo aos Coríntios. Por mais que leiamos um texto, sempre que lá voltamos, detetamos algo que nos impressiona pela primeira vez, embora nos não houvesse suscitado dúvidas ou inquietações em leituras anteriores. Foi o que aconteceu comigo ao reler os capítulos quinto e sexto desta Carta.
Paulo reivindica, contra o legalismo judaico, a liberdade cristã face aos ditames da Lei. É controverso o que Paulo entende por Lei. Provavelmente, a sua polémica contra a imposição da Lei aos cristãos de origem pagã refere-se apenas à Lei ritual judaica e não à totalidade das normas que a Torá explicita. No entanto, quando expõe a sua teoria bastante radical a respeito da justificação pela fé e não pelas obras da Lei, estará eventualmente a referir-se à totalidade das normas contidas no Pentateuco. Mas não é esse o foco do presente artigo.
No capítulo quinto da Primeira Carta aos Coríntios, Paulo exige que a comunidade cristã tome medidas em relação aos “pecadores” e fá-lo de uma forma que me parece totalmente destituída de sentido e a léguas da mensagem e comportamento de Jesus. Tendo ouvido falar dos pecados que são cometidos entre os cristãos da cidade de Corinto (fornicação, idolatria, ganância, calúnia, bebedeira, rapacidade), Paulo exige nada mais nada menos do que a expulsão desses membros da comunidade cristã. O vocabulário usado é bastante claro e significativo. Para referir qual a atitude da comunidade em relação aos prevaricadores, usa as seguintes expressões: “tirar do meio de vós”, “julgar”, “entregar [o pecador] a Satanás para destruição da carne”, “afastar”. Para se referir ao comportamento que a comunidade deve assumir, usa as seguintes expressões: “não se misturar com”, “não se associar a”, “não comer com”. Todo este vocabulário relacionado com o julgamento, a condenação, a expulsão, a proibição de manter contacto com o pecador contrasta radicalmente com a mensagem e a atitude de Jesus.
Desde logo, a proibição de julgar os outros está bem patente em Mateus 7, 1-5: «Não julgueis, para não serdes julgados; pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista? Como ousas dizer ao teu irmão: “Deixa-me tirar o argueiro da tua vista”, tendo tu uma trave na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então, verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu irmão.»
Em segundo lugar, vemos Jesus a estabelecer relações de grande proximidade com os pecadores públicos, sem nunca os excluir da sua comunhão. E essa postura é tão radical, que a sua atitude é motivo de acusação por parte dos defensores da Lei (Mc 2, 16-17): «Mas os doutores da Lei do partido dos fariseus, vendo-o comer com pecadores e cobradores de impostos, disseram aos discípulos: “Porque é que Ele come com cobradores de impostos e pecadores?” Jesus ouviu isto e respondeu: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.”»
Por último, Paulo ao exigir a expulsão da comunidade dos que ostentam uma forma de vida não consentânea com a moral cristã que ele mesmo defendia, está efetivamente a pressupor que a comunidade cristã deve ser constituída exclusivamente por santos e puros e nela não tem lugar qualquer tipo de pecador. Em suma: uma comunidade de “anjos” que, do alto da sua santidade, se pensam investidos do poder de julgar os demais. Voltaremos a esta conceção errónea da comunidade cristã e às consequências que dela advieram.
No capítulo sexto, Paulo define mesmo quem não poderá herdar o reino de Deus, excluindo dele os fornicadores, os idólatras, os adúlteros, os efeminados, os homossexuais, os ladrões, os gananciosos, os bêbedos, os caluniadores, os rapaces. Há, pois, para Paulo, um antes e um depois. Antes da conversão à fé cristã, éramos pecadores, depois da adesão a Cristo morto e ressuscitado, não há já lugar para o pecado. Ao homem novo, justificado por Deus em nome de Cristo, não é consentido percorrer o caminho do erro. Consequentemente, a comunidade cristã é constituída por santos — uma espécie de super-homens ou gente sobre-humana — que já não vivem segundo os parâmetros do mundo.
Mas será mesmo assim? Será sequer isso possível? Será a comunidade de Cristo constituída apenas por santos e puros? Haverá, portanto, uma clara distinção entre os membros de uma comunidade, sendo fácil discernir os que são santos e os que são pecadores? A experiência quotidiana diz-nos que assim não é. Uma tal comunidade nunca existiu e nunca existirá enquanto peregrinarmos pelo mundo, que é, pela sua própria natureza, uma realidade imperfeita. Aliás, caindo em contradição, o próprio Paulo afirma a universalidade do pecado na Carta aos Romanos (3, 23): «(…) Não há distinção [entre judeus e pagãos], pois todos pecaram e estão privados da glória de Deus.»

“Seria realmente importante que refletíssemos sobre as consequências nefastas de uma visão tão maniqueísta da vida (os bons e os maus; os puros e os impuros…). A vida é bem mais complexa do que uma tal simplificação.” Foto: São Paulo pregando em Atenas (1516), Rafael. Victoria and Albert Museum (Londres). / Wikimedia Commons
A visão paulina de que não há lugar para o pecador no interior da comunidade cristã veio a ter uma enorme fortuna na história do cristianismo. Infelizmente, tal visão corrosivamente moralista e legalista da comunidade cristã (como comunidade de perfeitos e puros, cumpridores de todas as regras e normas e investidos do poder de julgar) produziu as maiores injustiças e atrocidades. Desde logo, a expulsão dos supostos “pecadores” a mando dos que se autoconsideravam santos, manifestava desde logo a visão maniqueísta da vida comunitária por haver quem merecesse participar da vida comunitária e quem não estivesse à altura da santidade que a pertença à comunidade exigia. Posteriormente, virão as perseguições dos heréticos, as condenações à morte, a inquisição e todos os seus horrores, as limitações à liberdade de expressão, as condenações ao silêncio, etc. Tudo isto tem a sua raiz nesta ideia perniciosa de que a comunidade cristã é uma comunidade de gente separada do mundo, inteiramente pura e santa, por oposição aos demais cuja maldade deve ser punida. Quando nos elevamos à condição de deuses, consideramo-nos competentes para ajuizar a respeito dos demais e dos seus defeitos.
Seria realmente importante que refletíssemos sobre as consequências nefastas de uma visão tão maniqueísta da vida (os bons e os maus; os puros e os impuros…). A vida é bem mais complexa do que uma tal simplificação. Cada ser humano, enquanto não for introduzido pela misericórdia de Deus no seu reino, será simultaneamente santo e pecador, sempre em caminho para a perfeição que deseja mas nunca alcança efetivamente, por força da sua insuperável incompletude (pelo menos enquanto vivermos sob o desígnio do tempo). A ser assim, a comunidade cristã deverá abster-se de elaborar juízos apressados a respeito dos seus membros, sempre que o comportamento de alguém não corre claramente sobre a linha divisória que o padrão impõe. Lembremo-nos que abundam em nossos olhos traves que nos cegam (por exemplo, a trave da intransigência, da soberba, etc.). Como poderemos pretender remover do olho do vizinho o argueiro que o limita?
É por isso que considero inteiramente inaceitável que a comunidade expulse alguém, por mais pecador que se apresente, ou condene e persiga os que se não enquadram nos padrões previamente definidos. E não me refiro apenas ao “pecado” moral, mas também às ideias heterodoxas, às divergências mais ou menos fundamentais quanto à doutrina.
O cristianismo sempre foi plural. Nunca na sua história houve perfeita unanimidade quanto aos padrões teórico-práticos. E ao contrário do que os conservadores pensam, a doutrina evoluiu, não se manteve estática ao longo dos dois mil anos de história do cristianismo. A pluralidade é tão humanamente fundamental como a unidade. Infelizmente, o último milénio da história do cristianismo foi solícito em esmagar implacavelmente a diversidade sob o pretexto de construir unidade, esquecendo que uma unidade entendida de forma tão radicalmente uniforme mais não é do que a colonização intelectual dos povos e dos indivíduos por uma única forma culturalmente limitada de viver o cristianismo.
Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.
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