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Miguel Panão

A Ilha da Verdade no Oceano da Desinformação

| 28/11/2020

O ritmo de crescimento mundial da internet, desde que se abriu a todas as pessoas em 1995, indica que em Outubro de 2027, toda a população humana do planeta terá acesso à world wide web. Se for verdade, que consequências?

Acesso Internet.Gráfico © Miguel Panão

 

Na década de 1970, Marshall McLuhan visionava a ideia de uma “aldeia global”, mas só com a internet é que a vemos concretizar-se num futuro próximo. Porém, no livro póstumo de 1989 como esse título, previa ainda como, no futuro, as tecnologias relacionadas com os ecrãs “irão implodir as nossas sensibilidades interiores, (…) irão invadir a nossa paz interior, ocupando todo o momento em estamos acordados”.

E concluía que precisaríamos de “um espaço para esconder”. Quais as implicações para a humanidade inteira se (quando) estiver totalmente ligada à internet?

Quando vejo quanto tempo as pessoas dedicam aos seus ecrãs, dentro e fora de casa, mais ainda em tempo de pandemia onde andamos todos feitos zoomies, isto é, mortos-vivos de zoom em zoom, fico a pensar que não nos podemos queixar de não ter sido avisados. O que procuramos com todo este dinamismo digital? Que valor tem a conectividade permanente para uma vida plena e profunda? Sabemos ainda o que alimenta uma vida profunda?

Em 2005, Stephen Colbert no seu show The Colbert Report popularizou um neologismo que em inglês se escreve truthiness, e que em português traduziria por “verdadez”, isto é, “a qualidade de preferir conceitos ou factos que uma pessoa deseja serem verdade, em vez de conceitos ou factos conhecidos como sendo verdade”.

Depois de ser evidente que Biden iria vencer as eleições americanas, não entendia a razão dos tweets de Donald Trump senão o de semear ideias falsas. É a “verdadez” subjacente ao que chamamos de desinformação. Ou seja, informação disseminada por alguém que desinforma, ou ainda, informação enganadora com a intenção de ser enganadora. Basta pensar no que assistimos nos EUA com a Fox News a veicular boatos para minar o resultado das eleições americanas.

A internet é o modo actual da informação fluir com a menor fricção possível, fazendo lembrar como a vida está, também, baseada em fluxos imateriais de informação. Faz-me lembrar um outro termo que encontrei no livro de Kevin Kelly, fundador da revista Wired, intitulado What Technology Wants. Kelly fala do technium como o grande, global e massivo sistema tecnológico interconectado que vibra à nossa volta. É como se a internet, como parte deste technium tivesse vida própria e tudo o que acontece, incluindo a desinformação, é o modo subtil de fazer fluir todo e qualquer tipo de informação. Seremos nós ainda os utilizadores da internet, ou seremos antes usados por essa? É uma ideia difícil de engolir e aceitar.

Mas, voltando à desinformação, essa não precisa de vir directamente daquele que desinforma. Pode ser a passagem inocente de informação falsa, sem que a pessoa se dê conta, e que, na sua origem, foi criada com a intenção de enganar, mas que parece verdade por estar dentro da nossa bolha de conhecimentos e convicções. Aliás, a razão daquilo que me levou a investigar este modo como a internet invade o tecido social provém de uma partilha que recebi por duas vezes em dois grupos diferentes no WhatsApp. Uma partilha no âmbito religioso.

Alguma vez vos chegou a mensagem “Uma homilia linda que o Papa Francisco fez” cujo texto começa com “Tu podes ter defeitos, ser ansioso, e viver algumas vezes irritado, mas não te esqueças que a tua vida é a maior empresa do mundo”? Pelo menos desde 2016 que esta mensagem circula como se se referisse a uma homilia do Papa (ver na Aleteia). Mas, aparentemente, num outro site, a mensagem é antes atribuída ao conhecido escritor Augusto Cury. Porém, a consulta deste último site também não me inspira confiança. Logo, a mensagem é bela, mas, neste momento, não sei a quem a atribuir. É o resultado da desinformação se ter tornado num oceano. A verdade passou a sua uma ilha difícil de descobrir. O que fazer?

Amar, vivendo a caridade na verdade. E questionar como acto de amor na procura da verdade. Recordo-me das palavras de Bento XVI na encíclica Caridade na Verdade (nº 77): “conhecer não é um acto apenas material, porque o conhecido esconde sempre algo que está para além do dado empírico. (…) Em cada verdade, há sempre mais do que nós mesmos teríamos esperado; no amor que recebemos, há sempre qualquer coisa que nos surpreende.”

Deixemos que seja a surpresa a impulsionar o nosso encontro com a verdade que humaniza, e nos faz experimentar a importância da dimensão espiritual humana que nos estrutura, dá sentido e significado à vida, e nos ajuda a encontrar o equilíbrio da verdade no oceano da desinformação.

“Deixemos que seja a surpresa a impulsionar o nosso encontro com a verdade que humaniza”. Imagem: Direitos reservados

Fontes

 

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra

 

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