A ilusão do super-homem

| 4 Abr 20

As últimas semanas em Portugal, e há já antes noutros cantos do mundo, um ser, apenas visível a microscópio, mudou por completo as nossas vidas. Na altura em que julgávamos ter atingido o auge da evolução e desenvolvimento técnico e científico, surge um vírus. Algo tão ínfimo que é invisível a olho nu e, mesmo com vários equipamentos e testes, teima em permanecer oculto, obrigando-nos a fecharmos cidades inteiras e trancar-nos em casa. E, mesmo com tantas medidas sanitárias, o número de mortes em países dotados dos melhores recursos que o nosso engenho concebeu, faz-nos arrepiar.

As projeções e tentativas de previsão do futuro sempre grassaram entre grandes estudiosos da economia, das ciências da vida ou da política. A insegurança perante um futuro incerto e incontrolável caracteriza-nos, tal como a tentação de criar engenhos para prever o que nos possa suceder. Decorre de um instinto de sobrevivência salutar, mas a ânsia de especular sobre o futuro como se dispuséssemos de meios para o fazer, acaba sempre por nos fazer sair derrotados.

Muitas crises políticas e económicas foram previstas e, mesmo nos tempos que correm, continuam a ouvir-se vozes que anunciam um apocalipse ou que estabelecem previsões sobre o fim desta pandemia, a data da descoberta de uma vacina ou o regresso à normalidade nas nossas vidas. A grande verdade é que é impossível saber, com precisão, qualquer dessas coisas e tudo o que se possa dizer são especulações com pés de barro.

Convencemo-nos de que tínhamos atingido uma tal superioridade técnica que as epidemias estariam reservadas a Estados subdesenvolvidos. A nossa fé inabalável na ciência quase nos fez crer que estávamos imunes. Numa época em que se questiona a possibilidade de clonagem de seres humanos, mutações em embriões, erradicação de doenças, eis que surge um vírus microscópio para nos recordar que não estaremos nunca a salvo.

Talvez possamos encarar esta fase como um convite a uma humildade a que nos tínhamos desabituado. Temos um corpo frágil, a nossa sociedade é movida por cadeias, não poderíamos viver sozinhos e uma economia não é formada por pequenos grupos de setores. O café que deixamos de poder beber tem, desde do instante em que chega ao balcão onde o vamos tomar, uma imensidão de intervenientes. Da pessoa que o plantou ou o serviu, ao fornecedor do café, ao responsável pela moagem do grão, aos diversos transportes por que teve de passar, aos que cuidam da limpeza do espaço, ao fabricante da porcelana da chávena e aos poderíamos enumerar indefinidamente.

Precisamos de uma ajuda, de uma mão. Croácia.

Precisamos de uma ajuda, de uma mão. Croácia. Foto © António José Paulino

 

O nosso bem-estar individual depende de uma imensidão de pessoas, o que nos recorda que nunca seremos autossuficientes, e talvez seja aí que reside a beleza da vida. Há um encontro de necessidades que nos impele a um modo de vida relacional. “No princípio é a relação”, escrevia Martin Buber no livro Eu e Tu, numa frase tão sugestiva quanto o próprio título. Para existir Eu, tem de ser acompanhado de outro eu a que vamos dar nome e chamar a participar na nossa vida, chamando-lhe Tu. Só quando lhe damos nome é que ganha existência na nossa história. Enquanto não nos dignarmos sequer a imaginar essa cadeia de pessoas, de cuja existência, presença e saúde dependemos, não conseguiremos sair da doce ilusão que construímos.

Reconhecendo a nossa humildade poderemos, com verdade, aproximar-nos dos outros, a carência é o ponto de partida de qualquer tipo de relação. A minha necessidade de não estar só leva-me a procurar as pessoas que aprendemos a amar e de quem queremos cuidar e proteger com todas as nossas forças. A nossa necessidade de alimento leva-nos a procurar estudar e trabalhar para servir alguém e ganhar sustento. É difícil imaginar um ato da vontade humana que não seja direta ou indiretamente dirigido para outra pessoa.

Acordar da ilusão de que não somos o super-homem que desenhávamos não nos deve fazer cair em desânimo. A necessidade e a interdependência enriquecem a nossa vida dando-lhe um sentido pleno. A busca de um estado de imunidade levar-nos-ia a uma tremenda infelicidade e à negação da nossa essência.

A reclusão é aquilo que mais custa em todo este processo. Juntamente com o medo de sermos afetados por esta pandemia. Não podemos prever com precisão como ou quando tudo irá terminar. Mas há duas coisas fundamentais que sabemos: que a Humanidade já superou ao longo da História muitos desafios e que não estamos sós.

Talvez, agora como nunca, nos sintamos realmente próximos uns dos outros. As ações de entreajuda entre países, as mensagens de esperança, gratidão e união nunca estiveram tão presentes. De repente, caímos em nós, percebemos que as nossas carências são comuns e partimos ao encontro dos Tu que formam a nossa vida, dando-lhes nome, existência e rosto. Numa hora como esta sintamos que para lá de todas as diferenças e divergências, a nossa grande responsabilidade é cuidar da forma como nos mantemos presentes junto dos outros.

Sofia Távora é estudante de Direito e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.

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