A “imensa tristeza” do Papa e o que pode mudar (mais) uma foto que choca o mundo

| 27 Jun 19

Oscar e a pequena Valeria, sua filha, mortos no Rio Grande, na fronteira do México com os EUA. Foto captada de uma imagem da SIC.

 

Há (mais) uma foto a chocar o mundo, mas que efeitos pode ela ter? O Papa Francisco juntou-se nesta quarta-feira, 26 de Junho, às vozes que se manifestaram chocadas com a fotografia de Oscar Alberto Martinez Ramirez, 26 anos, e da sua bebé, Valeria, de 23 meses, mortos no Rio Grande, na fronteira do México, quando o jovem pai tentava atravessar a fronteira com os Estados Unidos para aí tentar trabalhar ilegalmente.

Nas imagens, vê-se a menina agarrada ao pescoço do pai. “Parece que, em desespero, ele colocou a menina na camiseta para não perdê-la na corrente e o que aconteceu é que a corrente os levou e ambos se afogaram”, disse ao El Paísuma das fotógrafas que acompanhou a operação de busca.

O Papa viu as fotos com uma “imensa tristeza”, disse aos jornalistas o director interino da Sala de Imprensa do Vaticano, Alessandro Gisotti. “O Papa está profundamente triste com as suas mortes e reza por eles e por todos os migrantes que perderam as suas vidas enquanto tentam fugir à guerra e à miséria”, afirmou Gisotti.

Na audiência-geral de quarta-feira, o Papa saudou os peregrinos de língua espanhola, elogiando a atitude dos mexicanos perante o aumento do número de migrantes: “São muito acolhedores, tão receptivos aos migrantes. Que Deus lhe pague.” Apesar do elogio, o México assinou há dias um acordo com os Estados Unidos, que prevê que o país estanque o fluxo migratório, em troca da isenção de taxas alfandegárias dos EUA aos produtos mexicanos.

Tal como aconteceu com o pequeno Aylan Kurdi, a criança síria que apareceu morta numa praia da Turquia em 2 de Setembro de 2015, quando o seu pai tentava chegar à Europa, desta vez são pai e filha que aparecem mortos, também de costas, na água do rio onde se afogaram. Em 2015m apesar da comoção que a foto despertou na ocasião, a falta de entendimento na União Europeia acerca da política de imigração não permitiu resolver o problema e, pelo contrário, países como a Itália endureceram as medidas contra os que tentam chegar a território europeu.

Um mural na Alemanha, representando o pequeno Aylan, que morreu em 2015 numa praia da Turquia. Foto Wikimedia Commons

 

“Esta imagem grita por justiça”

O caso de Oscar e Valeria levou também os bispos dos Estados Unidos a expressar, num comunicado, a dor que sentiam depois de ter visto as imagens dos dois corpos mortos na fronteira com o seu país: “Esta imagem grita ao céu por justiça. Esta imagem cala os políticos. Podemos olhar para esta fotografia e não ver os resultados das falhas de todos nós para encontrar uma solução humana e justa para a crise migratória?”

Citado pelo Catholic News Service(CNS), o texto acrescenta: “Esta fotografia mostra, tristemente, a situação diária dos nossos irmãos e irmãs. O seu grito não alcança apenas o céu. Ele toca-nos também. E agora deve chegar ao nosso Governo federal”, diz o texto, assinado pelo cardeal Daniel DiNardo, presidente da Conferência Nacional dos Bispos Católicos, e por Joe Vasquez, bispo de Austin (Texas, estado em cuja fronteira se situa a zona da tragédia) e presidente da Comissão dos bispos dos EUA para as Migrações.

“Podemos e devemos continuar a ser um país que dê refúgio a crianças e famílias que fogem da violência, da perseguição e da pobreza aguda”, afirmam os bispos no comunicado. “Todas as pessoas, independentemente do seu país de origem ou estatuto legal, são feitas à imagem de Deus e devem ser tratadas com dignidade e respeito.”

 

Arrastados pela corrente

O trágico acontecimento deu-se no domingo, dia 23 e as fotos e imagens entretanto divulgadas provocaram uma grande comoção pública. Os relatos dos média internacionais dizem que a família salvadorenha (a mãe ficara na outra margem) estava há uma semana em Matamoros (Tamaulipas), à espera de ser atendida pelos serviços de fronteira dos EUA. A espera levou Oscar a decidir-se atravessar a nado o Rio Bravo, entre Ciudad Juárez, no México, e El Paso, nos Estados Unidos, onde queriam procurar asilo.

Em entrevista ao jornal mexicano La Jornada, citada pelo CNS, a esposa de Martinez, Tania, disse que ela e o marido tinham decidido  atravessar o Rio Grande, após dois meses de espera ao pedido de asilo – pai, mãe e filha tinham partido de El Salvador em Abril, entrando no México através da fronteira de Tapachula (Chiapas), onde lhes foi concedido um visto humanitário, que permitia estar no país enquanto aguardavam resposta ao pedido de entrada nos EUA.

Decisão tomada, no domingo Martinez atravessou a filha e deixou-a na margem, enquanto regressava para ajudar a mulher. No entanto, ao ser deixada sozinha, Valeria terá ficado assustada e saltou para o rio. Correndo para a salvar, Martinez e a filha foram arrastados pela corrente.

Tania foi resgatada por uma pessoa que estava perto, e os seusgritos e desespero atraíram outras pessoas, que acabaram a chamar as forças de segurança de Matamoros. Domingo à tarde as autoridades ainda montaram uma operação de busca, mas os corpos, já sem vida, só foram encontrados segunda-feira de manhã, a cerca de 500 metros do lugar de onde tinham saído.

 

Situação “desumana e degradante”

A tragédia de Oscar e Valeria surge num momento em que, nos Estados Unidos, cresce o debate sobre as condições de detenção dos imigrantes que tentam entrar no país.

Um grupo de advogados visitou um dos centros de detenção no Texas e fez um relato do que encontrou. Citada pela BBC, a advogada Warren Binford afirmou que o centro de Clint, com capacidade para cem crianças, albergava 300, com as crianças “presas em jaulas horríveis, onde havia uma casa de banho aberta no meio do quarto” onde também comiam e dormiam. “Não havia ninguém para tomar conta destas crianças, não tomavam banho regularmente”, afirmou, de acordo com o Público.

Binford acrescentou que muitas das crianças não mudavam de roupa desde que chegaram ao centro, há já várias semanas, e que as condições de saúde são críticas: “As celas estão sobrelotadas, há uma infestação de piolhos e um surto de gripe”. Elora Mukherjee, outra advogada que fez parte do grupo, afirmou que a situação é “desumana e degradante, e não deveria estar a acontecer na América”. E as crianças continuam muitas vezes a ser separadas dos pais.

A propósito do assunto, o cardeal DiNardo e o bispo Vasquez tinham publicado um outro comunicado dizendo que as condições de vida dos imigrantes “não podem ser usadas como instrumentos de dissuasão”. “O Congresso tem o dever de fornecer financiamento adicional para atender às necessidades das crianças sob custódia federal”, escreveram, citados pelo CNS. “O projecto de lei de dotações suplementares também deve aumentar a protecção das crianças imigrantes, incluindo padrões elevados e supervisão das instalações de fronteira. É possível e necessário cuidar da segurança das crianças migrantes e da segurança dos nossos cidadãos.”

Tais posições, no entanto, não chegam, escreveu, em editorial nesta quarta-feira, o National Catholic Reporter: Enviaram os bispos uma mensagem forte? Exortaram os padres e fiéis a organizar a desobediência civil para proteger as famílias? Talvez patrocinar uma coleção nacional para distribuir escovas de dentes e fraldas frescas? Gritaram ‘já chega’? Não muito. Eles limitaram-se ao ‘por um lado isto, por outro lado aquilo’. No meio da crise, esforçaram-se para não ofender os funcionários públicos, particularmente o presidente, que instigaram essa desgraça nacional.”

Gráfico da BBC representando os migrantes detidos pelos serviços fronteiriços dos EUA, na fronteira com o México

 

Na região do Rio Grande, morre pelo menos uma pessoa afogada por mês tentando chegar aos Estados Unidos. Em 2018, morreram 283 pessoas tentando atravessar a fronteira. Segunda-feira, no mesmo dia em que Oscar e Valeria foram encontrados mortos, também quatro guatemaltecos (três crianças e uma mulher) foram encontrados sem vida no deserto do Texas por causa da desidratação.

A SIC resume alguns números: no ano passado, foram detidas mais de 396 mil pessoas que tentavam atravessar ilegalmente a fronteira do México com os Estados Unidos (tinham sido 303,9 mil em 2017); regista-se uma tendência de descida na última década e, apesar de terem baixado em 2017, os números voltaram a subir em 2018.

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