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Consumo

Semana Laudato Si’ (VI)

A (i)moralidade do acto de comprar e consumir

Foi por causa do presépio do último Natal que esta ideia nasceu: um presépio (o nascimento) no centro do globo, a nossa casa comum. Foi isso que a paróquia de Valongo do Vouga (Águeda, diocese de Aveiro) quis marcar com essa proposta, depois retomada em cada um dos domingos da Quaresma. Uma reflexão animada por Manuel José Marques, que fez o curso de animador Laudato Si’, do Movimento com o mesmo nome da encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado da casa comum. O 7MARGENS publica essas reflexões durante a Semana Laudato Si’, que se prolonga até ao próximo domingo, 28, também como forma de desafiar outros grupos, comunidades e paróquias a debater a encíclica do Papa e agir em favor da Criação e da casa comum. Publicamos a seguir a reflexão correspondente ao V Domingo da Quaresma (26 de Março).

“As pessoas acabam por ser arrastadas pelo turbilhão de estímulos das compras e gastos supérfluos”, escreve o Papa. Foto © Dan Burton / Unsplash

 

 

Vivemos numa sociedade de consumo, orientada sobretudo para a compra exagerada de produtos ou serviços, em geral desnecessários.

Reconhecendo-o, o Papa Francisco refere, na Laudato Si’ (LS 203), que, “as pessoas acabam por ser arrastadas pelo turbilhão de estímulos das compras e gastos supérfluos”. Agem, portanto, muitas vezes de forma inconsciente, esquecendo as consequências sociais e ambientais.

Esquecendo que por detrás do produto, do serviço e do seu preço, existem pessoas, existem origens, processos e histórias. Por vezes, aquilo que pensamos ser o melhor para nós, não o é para o mundo. Há que ter prudência no acto de compra. Há que repensar, reduzir e por vezes recusar.

Simples, mas repleta de conteúdo, a Laudato Si’ propõe-nos com profundidade (LS 206): “Comprar é sempre um acto moral, para além de económico.”

Se não, vejamos:

Muitas vezes, em vez de optar por produtos locais, as pessoas escolhem consumir produtos provenientes de locais distantes, gerando desde logo uma elevada pegada de carbono. Por exemplo, inclusivamente as frutas e legumes que estão no seu quintal não são colhidos e acabam por se estragar. No entanto, são o melhor, pois desde logo não poluíram em transporte. Não é o caso do pão porque em particular nós, portugueses, lamentavelmente só produzimos 3,5 % dos cereais que precisamos. No entanto, não deixam de ser uma opção a considerar. Os restantes são importados, desconhecendo a sua origem, se são produzidos de uma forma socialmente justa, não poluidora e saudável. Entre muitos casos, ainda podemos chegar ao exagero de poder ter na nossa mesa de Natal cerejas provenientes do outro lado do Atlântico.

No dia 25 de Março, assinalou-se o Dia Internacional em lembrança das vítimas da escravatura e do tráfico transatlântico de escravos. Em 2022, a ONU estimou que cerca de 50 milhões de pessoas vivem em condições de escravidão. Dessas, três milhões e 300 mil são crianças. Isto não são números! São seres humanos, são pessoas que têm nome, rosto, coração e lágrimas. São crianças que não têm o direito de brincarem, de estudarem e de sonharem, que crescem desamparadas, sem o aconchego da família, são pessoas muitas vezes obrigadas a produzir ao menor custo produtos para satisfazer a ânsia e a cega sofreguidão de mercados, distribuídos nas prateleiras de diferentes locais do mundo. É duro, envergonha!

No final de Março, tivemos a oportunidade de ouvir que no conforto das nossas casas é fácil rezar pela paz na Ucrânia. Com certeza. Mas que mais poderemos fazer? Também nessa mesma altura vimos pela televisão um encontro de representantes dos dois países. Reunidos em proximidade, cumprimentaram-se e sorriram-se. O que combinaram ou combinam nos entretantos, não sabemos. Falaram contudo em laços de cooperação e na sua prosperidade; sucesso, riqueza digamos assim. Pois bem, jamais se pode falar em prosperidade à conta da submissão, do sofrimento, da desgraça e da destruição de outros.

Se a China entender que os seus produtos não vão ser comprados nem exportados, porque são fabricados com matérias-primas e combustíveis provenientes da Rússia, então a guerra pode acabar.

Se entendermos então que a “compra é um acto moral acima do acto económico”, então temos na mão uma poderosa ferramenta, para construir a ecologia, para construir a justiça social e para construir a Paz.

 

Manuel José Marques é animador de encontros sobre a encíclica Laudato Si’ na paróquia de Valongo do Vouga (Águeda). Os outros textos já publicados:

 

I Domingo da Quaresma
II Domingo da Quaresma
III Domingo da Quaresma 
IV Domingo da Quaresma

 

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