Uma jovem mulher negra entra num elétrico numa capital europeia. Usa um hijab e fala discretamente ao telemóvel na sua língua materna. Um homem do outro lado do corredor olha-a com desdém e resmunga em voz alta: “Volta para a tua terra”. Ninguém intervém. Ela sai duas paragens antes, com a voz a falhar, a dignidade do seu dia destroçada.
Este não é um incidente isolado — é uma realidade diária para demasiadas pessoas na Europa de hoje.
De acordo com a Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA), quase 50% das pessoas negras na Europa relatam ter sido alvo de discriminação nos últimos cinco anos. O relatório Being Black in the EU documenta uma exclusão sistémica: desde o policiamento parcial ao acesso limitado à habitação e ao emprego. As comunidades muçulmanas enfrentam tendências igualmente preocupantes. No seu inquérito Being Muslim in the EU, a FRA concluiu que um em cada três muçulmanos já sofreu assédio devido à sua identidade religiosa. Entretanto, os incidentes antissemitas aumentaram drasticamente, com 80% dos inquiridos judeus a afirmar que o antissemitismo é um problema grave no seu país.
Também os cristãos enfrentam níveis crescentes de hostilidade em toda a Europa. Segundo o Gabinete para as Instituições Democráticas e os Direitos Humanos da OSCE (ODIHR), foram reportados mais de 500 incidentes de crimes de ódio anticristãos só em 2022, desde incêndio posto e vandalismo de locais de culto a agressões físicas e ameaças contra o clero e os fiéis. O relatório de 2023 sobre Crimes de Ódio na Região da OSCE (Hate Crimes in the OSCE Region) sublinha a necessidade de uma maior consciencialização e denúncia destes incidentes, uma vez que muitos não são reconhecidos ou são subnotificados tanto pelos Estados como pela sociedade civil. Esta marginalização persistente das comunidades religiosas — seja através de atos de violência, exclusão política ou estigma cultural — aponta para um problema mais profundo: a identidade religiosa é demasiadas vezes tratada como secundária, ou mesmo suspeita, na agenda mais vasta da Europa para a igualdade.

Imam Marwan Gill na sua visita a Portugal com grupo do KAICIID na Sinagoga de Lisboa, dezembro 2024. Foto reproduzida a partir do X @GillMarwan
Estes números não são apenas estatísticas; representam a experiência vivida de milhões de pessoas a quem é dito, implícita ou explicitamente, que não pertencem.
E, no entanto, no meio destas realidades preocupantes, uma verdade silenciosa persiste: a religião, frequentemente vista como uma fonte de divisão, pode também ser uma força de cura. Pode restabelecer a ligação em sociedades fraturadas, inspirar empatia e oferecer um vocabulário moral para a justiça e a dignidade humana. A religião, durante muito tempo tratada como marginal à política, é, na verdade, a peça que falta na arte de governar do século XXI.
Porquê? Porque a coesão social não se constrói apenas nos parlamentos. É moldada diariamente nos bairros, nos locais de culto, à porta das escolas, com cada ato de bondade, cada ritual partilhado e cada conversa genuína que atravessa as diferenças. A religião importa porque apela aos valores e motivações mais profundos das pessoas. Tem o poder de superar divisões quando abordada não como doutrina, mas como diálogo.
O diálogo inter-religioso, a esta luz, não é um ideal sublime. É uma prática fundamentada e necessária, que exige humildade, persistência e curiosidade. Não é fácil, mas é essencial. Trata-se de ouvir aqueles cujas experiências desafiam os nossos pressupostos e de encontrar no outro não uma ameaça, mas um reflexo.
Foi este o espírito que animou a mesa-redonda do KAICIID e da Comunidade Internacional Bahá’í, A Importância da Religião: Rumo à Estratégia Europeia Contra o Racismo, realizada em Bruxelas a 12 de novembro de 2024. Longe de ser mais uma reunião institucional, a mesa-redonda criou um espaço para conversas honestas, e por vezes desconfortáveis, entre decisores políticos, líderes religiosos e intervenientes da sociedade civil.
Os participantes exploraram de que forma o diálogo inter-religioso poderia contribuir significativamente para o desenvolvimento do próximo Plano de Ação da Europa Contra o Racismo. Falaram sobre as comunidades religiosas como alvos e, simultaneamente, como agentes de mudança, reconhecendo o papel ambivalente da religião, mas também o seu potencial imenso, e muitas vezes por explorar, para a solidariedade. Crucialmente, apelaram a uma abordagem que não seja meramente inclusiva no papel, mas transformadora na prática.
A mesa-redonda de Bruxelas refletiu um consenso crescente: os intervenientes de base religiosa e os líderes religiosos, para além da sociedade civil, devem ser parceiros integrantes na formulação da resposta da Europa ao racismo. Estes grupos gozam da confiança das comunidades. Trabalham nas margens. Compreendem o terreno emocional da exclusão. As suas perspetivas são indispensáveis.

Fórum de Diálogo Político, Reunião de Peritos do KAICIID em #Roma (8–9 de abril). Foto: Facebook KAICIID
Esta mensagem fez eco das conclusões da reunião de peritos do KAICIID em Roma, em abril de 2025, que juntou líderes religiosos, académicos e decisores políticos para explorar as ligações entre a justiça climática, a coesão social e a cooperação inter-religiosa. Embora focados em questões diferentes, ambos os eventos apontaram para a mesma verdade: as soluções sustentáveis requerem um diálogo entre múltiplas partes interessadas, enraizado em valores e não apenas em interesses.
Olhando para o futuro, para o 6.º Fórum Europeu de Diálogo Político (EPDF), a plataforma de diálogo distintiva do KAICIID na Europa, que terá lugar este ano em novembro, em Genebra, estas conversas estão a ganhar impulso. As parcerias do KAICIID com iniciativas como o Conselho de Liderança Judaico-Muçulmano (MJLC) e o Majlis de Líderes Muçulmanos Europeus (EuLeMa) demonstram ainda um compromisso a longo prazo com a inclusão, o diálogo e a criação de confiança entre as divisões.
Enquanto a Europa se esforça por traduzir as suas aspirações antirracistas em ações, o caminho a seguir deve ser simultaneamente de cima para baixo (top-down) e de baixo para cima (bottom-up). As instituições europeias devem criar quadros favoráveis, mas a verdadeira transformação acontecerá localmente, quando os municípios investirem na literacia religiosa, quando as escolas ensinarem a empatia e quando os líderes religiosos falarem não apenas com as suas congregações, mas também uns com os outros.
Uma Europa mais coesa, equitativa e inclusiva está ao nosso alcance, mas apenas se formos suficientemente audazes para reimaginar o que é a arte de governar: uma que inclua uma dimensão espiritual nos compromissos seculares de equidade, solidariedade e direitos humanos.
A religião, quando expressa através do diálogo e da humildade, não é uma barreira. É uma ponte.
António de Almeida Ribeiro é embaixador e Secretário Geral do KAICIID.










