Nas margens da filosofia (XLI)

A importância de desacelerar

| 9 Jan 2022

Miguel Veiga

“Espaço e tempo passam a ser criações nossas dado que nos afirmamos como inventores de novos tempos e de novos espaços.”  Foto @ Miguel Veiga.

 

Um dos alertas que nos foi dado pelo Papa Francisco na sua encíclica Laudato Si’ foi a necessidade de tomarmos consciência do ritmo frenético que se instalara nas nossas vidas. O termo por ele usado foi rapidación, essa velocidade imposta às acções humanas, fortemente contrastante com a lentidão natural da evolução biológica.”[1] O convite feito a uma vida tranquila e mais amiga da Natureza implicaria um regresso à simplicidade, à fruição dos pequenos prazeres e ao cultivo da sobriedade.

A pandemia que presentemente vivemos e que tanto nos preocupa pode ser vista como uma oportunidade de desaceleração. A permanência forçada num mesmo espaço, a limitação de saídas e a restrição de contactos afectaram-nos negativamente, lembrando-nos a vulnerabilidade da nossa condição. Mas também nos abriram portas para saborear tempos perdidos, viver ritmos mais lentos, reatar contactos e descobrir amizades.

As horas que somos obrigados a passar em casa, sobretudo para as pessoas que não estão presas a horários fixos ou a teletrabalho, pode tornar-se um tempo de fruição e de descoberta. Quando estamos confinados não nos interessa a velocidade – para quê tentar sermos rápidos se a sucessão de manhãs, tardes e noites é gerida por nós? A pandemia tornou-nos donos do espaço e do tempo, desafiando-nos a ser criativos. Habituáramo-nos a considerá-los, à maneira kantiana, como formas a priori da sensibilidade que determinavam a nossa relação com as coisas.

Na situação que actualmente vivemos, espaço e tempo passam a ser criações nossas dado que nos afirmamos como inventores de novos tempos e de novos espaços. De facto, redescobrimos outras possibilidades nos espaços familiares das nossas casas, criámos ritmos diferentes no tempo de que dispomos, confundimos as horas, alterámos os sonos, tornámo-nos senhores do dia e da noite. A queixa habitual de que nos falta tempo, transforma-se agora em inquietação do que fazer com o tempo que nos sobra. Note-se que a desaceleração que nos foi imposta é uma mais-valia que urge aprender a apreciar.

As incertezas do nosso quotidiano não devem transformar-se em angústia. Encaremo-las preferencialmente como estímulos que nos abrem diferentes janelas. Abandonemos o stress que durante anos comandou as nossas vidas e saboreemos os tempos longos que nos permitem meditar, escrever, e gozar da companhia de amigos sem obediência a horários fixos.

É tempo de revisitar um sem número de pessoas que no passado connosco conviveram, reatando velhas amizades. Há que redescobrir os cantos ocultos da nossa casa, substituir os vasos das varandas, plantar flores e conversar com elas, como fazia o Principezinho de Saint-Éxupéry. Pensando em termos musicais, troquemos o tempo rápido do allegro, pelo tempo lento do andante e inventemos novos ritmos para as nossas vidas. Habituemo-nos a substituir a velocidade pela intensidade. A lentidão não é necessariamente um defeito mas algo que se impõe na relação que estabelecemos com os outros, sendo essencial no cultivar dos afectos mais nobres como é o caso da amizade e do amor.

A pandemia condenou-nos a um isolamento forçado, alterou a convivência com os amigos, privou-nos de espectáculos e de distracções, circunscreveu-nos ao espaço doméstico, instalou rotinas. Se há dois anos me dissessem que deixaria de guiar, de andar de metro, de viajar, que passaria meses sem ir a um cinema ou a um concerto, que me seria interdito cumprimentar alguém com um beijo, que andaria mascarada na rua e evitaria ajuntamentos, certamente me sentiria a pessoa mais infeliz do mundo, privada de tudo o que constituía o ritmo normal de uma vida activa.

Tomando como referência o sociólogo alemão Hartmut Rosa[2], há que reaprender a arte de escutar, estabelecendo novas relações com a Natureza, com os outros e connosco mesmos. A ressonância que nos propõe como cura para a aceleração constante em que vivemos tem uma dimensão diagonal que nos liga ao mundo das coisas, horizontal que nos une aos outros seres e vertical que nos abre à transcendência da experiência estética e religiosa. O imperativo da aceleração que progressivamente ganhou terreno nas sociedades ocidentais gerou múltiplas crises e hoje impõe-se uma política de desaceleração.

A inércia provocada pela actual pandemia poderá ser aproveitada positivamente, promovendo uma desaceleração generalizada e a aprendizagem da arte difícil de não fazer quase nada.[3] A desaceleração imposta pelo momento que presentemente vivemos não é necessariamente negativa. Há que valorizar os aspectos positivos desta pandemia, evitando lamentações, ultrapassando desconfortos e tentando tirar partido deles. Estejamos pois atentos à exortação premonitória que o Papa Francisco nos fez no início da Laudato Si’ – a urgência de trocar a velocidade que durante anos comandou o ritmo das nossas vidas, por uma desaceleração que nos proporcione um encontro em profundidade com os outros e com a Natureza, nossa amiga e nossa mãe.

 

[1] Papa Francisco, Louvado Sejas. Carta Encíclica Laudato si’, Sobre o cuidado da casa comum, Paulinas, Prior Velho, 2015 ,§18, p. 17.
[2] Hartmut Rosa, Social Acceleration. A New Theory of Modernity, New York, Columbia University Press, 2013 e Resonance. A Sociology of our relationship to the world, Cambridge, Polity Press, 2019.
[3] Denis Gordanovitch, L’art difficile de ne presque rien faire, Paris, Denoël, 2009.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

 

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