A importância de uma estátua

| 19 Out 19 | Entre Margens, Últimas

Colocação da estátua de D. António Barroso, bispo do Porto (1899-1918), em Cernache do Bonjardim. Foto © Amadeu Araújo, cedida pelo autor.

 

É inaugurada neste domingo, 20 de Outubro (Dia Mundial das Missões) em Cernache de Bonjardim, uma estátua, em bronze, erguida à missionação portuguesa. O monumento representa a figura do antigo missionário e bispo do Porto (1899-1918) D. António Barroso (1854-1918) e revela os 320 nomes dos padres missionários, que saíram, como ele, do Real Colégio das Missões, entre 1856 e 1912, nos governos liberais e no início da República.

O marquês Sá da Bandeira, por cinco vezes presidente do conselho de ministros de Portugal, e Afonso Costa, ministro da Justiça e do Culto nos alvores perturbados da I República, ficam para a história política do país: o primeiro como promotor do Real Colégio, que haveria de acudir às necessidades do Padroado português do Oriente; o segundo, braço armado da maçonaria, responsável pelo desejado apagamento da Igreja Católica, em Portugal, em menos de uma geração.

Sabe-se que, nesse espaço de tempo, cerca de 5.000 alunos receberam daquela instituição diferentes luzes de conhecimento. Por mais de meio século, Cernache do Bonjardim foi o único seminário nacional, aberto ao Padroado, já que Joaquim Augusto de Aguiar se tinha encarregado de fechar, em 1834, o cortejo de conventos e mosteiros, espalhados pelo país.

O erguer deste monumento deve-se à intensidade espiritual, vivida em Barcelos, de onde D. António Barroso procede. Ele é natural da freguesia de Remelhe. Em 2018 assinalou-se o primeiro centenário do seu falecimento, tendo sido estendida homenagem aos missionários originários daquele concelho, por empenho expresso da própria autarquia. Foi por dedução pastoral que a vice-postulação da causa de canonização do missionário de Remelhe, representada por Amadeu Araújo, biógrafo de D. António Barroso, apostou nesta obra, com o propósito de dignificar a memória de quem cumpriu deveres patrióticos e de evangelização.

 

Contra a cruz e a espada

O monumento evidencia, entre os bispos e padres, formados nesta casa, a personalidade forte do missionário que bateu o pé aos corifeus da República, quando governava a diocese do Porto, nos inícios do séc. XX. Barroso trazia já um corpo debilitado pelas febres africanas, mas também mais informado pelas longas caminhadas, em nome da fé e do desenvolvimento das gentes de Angola, em S. Salvador do Congo, na prelazia de Moçambique, despida de apoios sociais e religiosos, na turbulenta diocese de Meliapor e, na última fase da vida, no Porto, preocupado com os pobres que abundavam na diocese. O missionário-bispo trouxe à Sociedade Portuguesa de Geografia e ao Ateneu Comercial do Porto a discussão limite sobre o modelo de missionário para os territórios coloniais de então.

Se numa mão levantaria a cruz, na outra envergaria a enxada, símbolo da proximidade com a mãe terra. Foi por esta determinação que a Santa Sé, por decisão do Papa Francisco, o fez venerável, em 2017, às portas de uma consagração não limitada por fronteiras. Um missionário de corpo inteiro que amou a terra que o viu nascer entre os calores de uma eira aberta e que, aos 63 anos, o viu partir, de palavras confessadas: “Pobre nasci, rico não vivi e pobre quero morrer.”

Há no país algumas estátuas de D. António Barroso e artérias em diversas localidades com o seu nome. Com a concretização desta iniciativa foi, assim, atendido o desejo de deixar na casa de formação dos designados “padres de Cernache”, um sinal de futuro, para que a história não esqueça os que se distinguiram pela coragem e pela dedicação ao seu semelhante. Mesmo que a onda de banalização dos lugares, que nos está a atingir a todos, possa perseguir esta iniciativa, erguida no interior do país, e por muitos participada, restarão, na pedra do mármore alentejano, as cintilações dos nomes, em bronze, a marcar caminhos andados, pelos sertões da África e pelo exótico Oriente, o almejado diálogo entre cultos e culturas, outrora arrasado por ventos coloniais demolidores.

Como assinalou o papa Paulo VI, nesta tarefa, missão é o novo nome da Pa: o entrelaçar de esforços para o desenvolvimento integral dos povos. Em liberdade.

 

Manuel Vilas Boas é jornalista da TSF

Artigos relacionados

Mais 14 cristãos mortos a sangue frio no Burkina Faso

Mais 14 cristãos mortos a sangue frio no Burkina Faso

Pelo menos 14 cristãos protestantes foram “executados” durante o serviço religioso que decorria neste domingo, numa igreja protestante no leste do Burkina Faso. O ataque ocorreu em Hantoukoura, perto da fronteira com o Níger (leste do país) e terá sido executado por um dos vários grupos jihadistas que operam na região.

Apoie o 7 Margens

Breves

Cordão humano pelo direito a horários dignos e compatíveis com vida familiar novidade

Um cordão humano de trabalhadores do comércio e serviços manifestou-se nesta quinta-feira, 12, diante do centro comercial Vasco da Gama, em Lisboa, a pedir horários dignos, a conciliação entre a vida profissional e familiar e melhores salários. Na acção de sensibilização, organizada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP), filiado na CGTP-IN, os trabalhadores empunharam faixas e distribuíram panfletos contestando a “violência e desumanização dos horários de trabalho” que impedem muitos de acompanhar os filhos menores, por exemplo.

Formação sobre cuidador informal começa em Lisboa

Consciencializar todos os que se confrontam com familiares em situações limite de dependência e doença prolongada é um dos objectivos principais da formação sobre cuidadores informais promovida pela paróquia de São Lourenço de Carnide (Igreja de Nossa Senhora da Luz), que nesta quinta-feira, 12 de Dezembro, se inicia em Lisboa.

Formação avançada em património religioso lançada na Católica

A Faculdade de Ciências Humanas (FCH) da Universidade Católica Portuguesa e o Departamento de Turismo do Patriarcado de Lisboa organizaram um programa de formação avançada em Turismo e Património Religiosos, com o objetivo de “promover a aquisição de competências nos domínios do conhecimento e divulgação do património artístico religioso da diocese de Lisboa”.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro novidade

A viagem começou a 3 de Fevereiro, diante da Sé do Porto: “Quando estacionámos o jipe em frente à catedral do Porto, às 15h30, a aragem fria que fustigava o morro da Sé ameaçava o calor ténue do sol que desmaiava o seu brilho no Rio Douro.” Terminaria doze dias depois, em Bissau: “Esta África está a pedir, em silêncio e já há muito tempo, uma obra de aglutinação de esforços da comunidade internacional, Igreja incluída, para sair do marasmo e atonia de uma pobreza endémica que tem funestas consequências.”

É notícia

Entre margens

Taizé e os jovens: uma experiência que marca

Ao longo dos anos em que tenho participado nos encontros de Taizé, no âmbito da minha docência na disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica, acompanhando e partilhando esta experiência com algumas centenas de alunos, tenho-me interrogado acerca do que significa aquilo a que chamamos “espiritualidade de Taizé” – que, no meu entender, é o que leva, ano após ano, milhares de jovens, a maioria repetidas vezes, à colina da pequena aldeia da Borgonha (França).

A escultura que incomoda a Praça de São Pedro

Foi na Praça de São Pedro, dentro desses braços que abraçam o mundo inteiro, que o Papa Francisco quis colocar um conjunto escultórico dedicado aos refugiados, o “anjo inconsciente”. De bronze e argila, representa uma embarcação com algumas dezenas de refugiados, tendo à frente uma mulher grávida ao lado de uma criança, de um judeu ortodoxo e de uma mulher muçulmana com o seu niqab.

Cultura e artes

Joker, o desafio da diferença

Filmes baseados em banda desenhada não faltam, mas este Joker é diferente. Para melhor. É o único representante desta década nos vinte melhores filmes de sempre da IMDb e parece-me sério candidato aos Óscares de melhor ator, realizador e banda sonora.

Concertos de Natal nas igrejas de Lisboa

Começa já nesta sexta-feira a edição 2019 dos concertos de Natal em Lisboa, promovidos pela EGEAC. O concerto de abertura será na Igreja de São Roque, sexta, dia 6, às 21h30, com a Orquestra Orbis a executar obras de Vivaldi e Verdi, entre outros.

“Dois Papas”: um filme sobre a transição na Igreja Católica

Dois Papas é um filme do realizador brasileiro Fernando Meirelles (A CIdade de Deus) que, através de uma conversa imaginada, traduz a necessidade universal de tolerância e, mesmo sendo fantasiado, o retrato das duas figuras mais destacadas da história contemporânea da Igreja Católica. O filme, exclusivo no Netflix, retrata uma série de encontros entre o, à altura, cardeal Jorge Bergoglio (interpretado por Jonathan Pryce) e o atual Papa emérito Bento XVI (interpretado por Anthony Hopkins).

Livro sobre “o facto” Simão Pedro apresentado em Lisboa

Um livro que pretende ser “um testemunho, fruto de uma meditação” sobre a vida do apóstolo Pedro, será apresentado nesta segunda-feira, 2 de Dezembro, em Lisboa (Igreja paroquial de Nossa Senhora de Fátima, Av. Berna, 18h30). Da autoria do padre Arnaldo Pinto Cardoso, Simão Pedro – Testemunho e Memória do Discípulo de Jesus Cristo pretende analisar o “facto de Pedro” que se impôs ao autor, fruto de longos anos de estadia em Roma, a partir de diferentes manifestações.

Sete Partidas

Visto e Ouvido

Agenda

Dez
14
Sáb
3º Concerto de Natal da Academia de Música de Santa Cecília @ Basílica do Palácio Nacional de Mafra
Dez 14@21:00_22:30

Entrada gratuita mediante o levantamento de bilhetes nos Postos de Turismo de Mafra e Ericeira

 

A Academia de Música de Santa Cecília, escola de ensino integrado de música, apresenta o seu terceiro concerto de Natal nos dias 14 e 15 de Dezembro, no Palácio Nacional de Mafra, classificado recentemente como Património Cultural Mundial da UNESCO.

Neste concerto participa um coro constituído por 250 crianças e jovens dos 10 aos 17 anos e uma orquestra de cordas de alunos da escola, a soprano Ana Paula Russo e ainda o conjunto, único no mundo, dos seis órgãos da Basílica de Mafra.

No programa estão representados vários compositores nacionais e estrangeiros, destacando-se a obra “Seus braços dão Vida ao mundo”, sobre um poema de José Régio, da autoria da jovem Francisca Pizarro, aluna finalista do Curso Secundário de Composição da Academia de Música de Santa Cecília.

O concerto assume especial importância não apenas pela singularidade do conjunto dos seis órgãos do Palácio Nacional de Mafra mas também pela dimensão do número de jovens músicos envolvidos.

A relevância do concerto manifestou-se em edições anteriores (2016 e 2017), pela sua transmissão integral na RTP2, tendo o concerto de Natal de 2017 sido difundido em directo para a União Europeia de Rádio. O concerto tem o patrocínio da Câmara Municipal de Mafra.

Programa do concerto

Arr. Carlos Garcia (1983)
Ó Pastores, Pastorinhos (tradicional de Alferrarede)

Francisca Pizzaro (2001)
Seus braços dão Vida ao mundo (sobre um poema de José Régio), obra em estreia absoluta, encomendada para a ocasião; Francisca Pizarro é aluna do curso secundário de Composição da AMSC

Arr. Fernando Lopes-Graça (1906-1994)
O Menino nas Palhas (tradicional da Beira Baixa)

Eurico Carrapatoso (1962)
Dece do Ceo (sobre um poema de Luís de Camões)

Arr. Carlos Garcia
Gloria in excelsis Deo (tradicional francesa) *

Franz Xaver Gruber (1787-1863) Arr. Carlos Garcia
Stille Nacht

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Alleluia, do moteto Exsultate, jubilate

Tradicional francesa
Quand Dieu naquit à Noël

Louis-Claude Daquin (1694-1772)
Noël X

Arr. Malcolm Sargent (1895-1967)
Zither Carol (tradicional da República Checa)

Tradicional do País de Gales
Deck the Halls

John Henry Hopkins Jr. (1820-1891); Arr. Martin Neary (1940)
We three Kings

Arr. Mack Wilberg (1955)
Ding! Dong! Merrily on High (tradicional francesa)

Arr. David Willcocks (1919-2015)
Adeste Fideles (tradicional), com a participação do público.

CANTORES E MÚSICOS
Ana Paula Russo, soprano

Ensemble Vocal da AMSC
Coro do 2º Ciclo da AMSC
Coros do 3º Ciclo e Secundário da AMSC

Orquestra de Cordas da AMSC
Pedro Martins, percussão

Rui Paiva, órgão da Epístola
Flávia Almeida Castro, órgão do Evangelho
Carlos Garcia, órgão de S. Pedro d’Alcântara
João Valério (aluno da AMSC), órgão do Sacramento Liliana Silva, órgão da Conceição
Afonso Dias (ex-aluno da AMSC), órgão de Sta. Bárbara

Carlos Silva, direcção da orquestra

António Gonçalves, direcção

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco