
Imagem do filme La Haine/O Ódio (1995), de Mathieu Kassovitz. Foto: Direitos reservados.
Há mais ódio hoje do que outrora? Uns dirão que sim; outros, que não. As respostas serão díspares, mas nunca consensuais. Se houver uma medição do número de conflitos e guerras alimentados directamente por essa pulsão ou a partir de crimes em que o ódio esteve de algum modo presente, o resultado será, com certeza, muito diferente do que se obterá se o cálculo assentar em percepções, como sucede quando uma zona tranquila, sem qualquer registo significativo de crimes, é encarada como ameaçadora.
Na comparação entre antes e agora, as respostas variarão muito em função de múltiplos factores, como o lugar onde se vive, o ordenado que se recebe, a idade que se tem, a ideologia que se professa.
Uma pessoa que assista a certos programas televisivos nacionais – em que uma miríade de almas perora sobre crimes – ficará persuadida de que o fim do mundo está por dias. Sem qualquer ecrã por perto, em muitos cantos do planeta, inclusive entre nós, a amabilidade do dia-a-dia pode ser devidamente reconhecida.
Ser uma vítima (ou estar próximo dela) ou ser um algoz também muda, como é evidente, a visão das coisas.
É comum considerar-se que o ódio tem como ponto de mira o desconhecido, o diferente, o estrangeiro. Mas os comummente citados exemplos bíblicos de ódio entre irmãos desmentem, um pouco ou muito, conforme os exegetas, que se odeie o que está mais afastado e se ame o que está próximo. A violência conjugal aí está para também o corroborar. O ódio pode visar qualquer um, ainda que haja atávicos bodes expiatórios. São bem conhecidos, às vezes parecem passar despercebidos, mas, de vez em quando, voltam a ser brutalmente acossados.
Mas há, agora, mais ou menos ódio? Matteo Maria Zuppi, cardeal desde 2019, que tem no currículo o feito admirável de ter sido um dos dinamizadores, em nome da Comunidade de Sant’Egídio, do processo de paz em Moçambique nos anos 90 do século passado, escreveu com Lorenzo Fazzini, jornalista do Avennire e do Osservatore Romano, um livro com o eloquente título Odiarás o teu próximo. Porque esquecemos a fraternidade (Paulinas, 2023), que reflecte, precisamente, sobre se “hoje há mais ódio do que ontem”. É esse o tema do capítulo inicial, em que se assinalam situações em que o ódio pode mais facilmente emergir. Ele pode ser desencadeado quando, por exemplo, o individualismo se contrapõe a todo o espírito de fraternidade. Muitas vezes, “o individualismo usa a expressão ‘os meus direitos’, não se colocando declaradamente contra alguém. É óbvio que os direitos individuais são uma conquista paga por alto preço, por milhões de vítimas de todos os totalitarismos ou por mulheres e homens oprimidos e humilhados, explorados. Contudo, também estes direitos, sem um ‘nós’ que inclui o outro, se deformam, como acontece ao amor por nós mesmos – tão importante e que temos de defender – quando se afirma sem amor pelos outros”.
Matteo Maria Zuppi assinala três medos hoje prevalecentes que podem facilmente descambar em ódio. “Em primeiro lugar, creio que nos sentimos mais frágeis e indefesos, relativamente às épocas anteriores à nossa. Muitas seguranças se desvaneceram – no campo económico, social e político e cultural – e a amargura da desilusão toma a supremacia. Estamos mais expostos às dificuldades, já não nos sentimos à vontade, porque estamos privados de uma defesa adequada em relação a fobias que tocam a alma”.
O cardeal julga, em segundo lugar, “que se pode afirmar com serenidade que, como sociedade, estamos mais ‘velhos’: trata-se de um detalhe que não é secundário. O impulso típico de uma sociedade mais jovem (como era a da segunda metade do século passado) deixa lugar à prudência e àquele sentimento de vulnerabilidade típico das sociedades idosas”.
A globalização é também um factor de receio. “Tomemos um exemplo concreto: a quantidade de informação que nos chega em cada dia aumentou de forma significativa. Por outro lado, a nossa capacidade de discernimento e de compreensão da realidade continua a ser a mesma, ou talvez até tenha diminuído. Por isso, a dificuldade em julgar e em lidar com fenómenos que não se encontram sob o nosso controlo aumenta exponencialmente os nossos medos, e nós sentimo-nos desorientados e cada vez mais isolados”.
A necessidade de vigiar o medo, distinguindo medos legítimos de medos nefastos, foi algo que mereceu ponderação num encontro realizado em Paris, no Théâtre de la Ville-Sarah Bernhardt, no dia 21 de Maio, para responder à questão “Devemos ter medo do medo?”
Os medos perniciosos são os que apenas servem para favorecer políticas populistas que atiçam constantemente as emoções, instrumentalizando-as em proveito de políticas que nunca resolvem qualquer problema. As emoções populistas distinguem-se das emoções comuns por servirem para dividir a população e colocar os grupos sociais uns contra os outros, explicou a socióloga Eva Illouz, uma das participantes, com o filósofo Michaël Fœssel, o encenador Stanislas Nordey e a moderadora Fabienne Pascaud.
No texto de apresentação da iniciativa, refere-se que “o medo aí está, e bem enraizado”. Medo ou medos: “Medo da crise sanitária, do aquecimento global ou da ameaça nuclear. Medo da guerra, medo do outro. Medo dos resultados das próximas eleições na Europa, nos Estados Unidos…” A constatação “vivemos, ao que parece, numa época de catástrofes” impõe uma interrogação: “Mas deveríamos ter medo do medo ou, mais ainda, medo da cultura do medo que se insinua em todos os alvéolos da nossa psique e da nossa vida social?”
O encontro serviu para dar uma resposta útil. O medo politicamente (ou mediaticamente) instrumentalizado não serve para edificar seja o que for. O filósofo Michaël Fœssel defendeu que é importante combater as más paixões com paixões positivas e, ainda, opor à tristeza a alegria, essa “perfeição maior”. Quando, no final do encontro, uma espectadora colocou a derradeira questão sobre o que dizer a um jovem seduzido pelas ideias de extrema-direita, Michaël Fœssel prescreveu um remédio: a paixão, o amor. Um combate difícil, reconheceu.
Considerando que devemos tomar em consideração o medo, que não o devemos ignorar “por arrogância, por leviandade ou presunção”, também o cardeal Matteo Maria Zuppi pede que, depois, o enfrentemos “com a única atitude capaz de superá-lo: o amor”. A sua força “inesperada, nova e criativa” pode ter resultados surpreendentes.










