
Julius Schnorr von Carolsfeld, Rute no campo de Booz (1828), Galeria Nacional de Londres. Reprodução via Wikipedia
Muitas vezes ao falar de inteligência se contrasta um modo masculino e feminino de utilizar esta capacidade. Não me irei debruçar teoricamente sobre esta temática mas imediatamente declaro que encontro diferenças no modo como homens e mulheres raciocinam no que se refere à resolução dos problemas concretos da vida. E vou tomar como exemplo (entre muitos outros possíveis) um dos livros do Antigo Testamento onde as mulheres desempenham um papel central – O Livro de Rute [1]. Nele é-nos relatada uma história onde se aborda uma das relações mais conflituais da tradição ocidental – a de uma nora e de uma sogra. O contexto inicial é o de uma grande fome, um facto que obriga Elimelec e os seus familiares a deixarem Belém, deslocando-se para Moab. A morte de Elimelec e dos seus filhos deixa desamparadas três mulheres – a esposa (Noemi) e duas noras.
O segundo episódio deste relato passa-se num terreno de espigas cujo dono é Booz, um parente rico de Elimelec, que se dispõe a acolher a sua viúva, bem como as duas noras desta – Rute e Orfa, oferecendo-lhes trabalho braçal nos seus campos. No último episódio deste relato são-nos referidas as diligências feitas por Booz para conquistar Rute e legalizar os seus direitos sobre ela, bem como sobre a herança de Elimelec. Assim, compra um campo que a este pertencia e aceita com ele Rute, comprometendo-se a reconhecer que os filhos desta sejam colocados na linhagem de Elimelec. Deste modo, Booz asseguraria a continuidade da sua descendência e, simultaneamente impediria que o nome de Elimelec fosse “eliminado de entre os seus irmãos, bem como da porta da cidade” (4, 10).
Booz é um homem bom cuja actuação é fundamental para o desenrolar da história. Mas contrariamente ao que acontece com as duas mulheres, intervenientes activas, Booz mais do que agente é agido, cumprindo um plano urdido por Noemi e executado por Rute. De facto, Noemi engendra uma estratégia, colocando Rute aos pés da cama do ensonado Booz. E é Noemi que cala o espavorido parente quando este a descobre. É ela que comanda as operações: “Estende o teu manto sobre a tua serva…”; é ela que lembra as prerrogativas de Booz – “porque tens o direito de resgate” (3, 9). De facto, no contexto histórico, cultural e social do relato estão presentes a ideia de que a descendência de um morto pode ser assegurada através da fertilidade da esposa, mesmo que esta fique grávida de outro homem. O filho nascido de Booz e de Rute – Obed – é considerado na tradição hebraica da época dos Juízes como filho e herdeiro de Elimelec sendo Noemi considerada sua mãe legal. E Obed, que de facto não tem qualquer ligação de sangue com Noemi, surge como o seu redentor pois é ele que lhe devolve a vida, a alegria e a linhagem. É através dele que o nome de Noemi será perpetuado.
Note-se que a lei do levirato, com algumas variantes, desempenha um papel importante no desenrolar deste enredo [2]. Embora o homem que aparece para resgatar a terra de Elimelec e desposar Rute não seja cunhado dela, é no entanto um parente próximo que se pode reclamar desse direito. E, respeitando o costume, é junto dos anciãos da cidade que Booz defende a sua causa, obtendo deles consentimento para concretizar o casamento.
Mais do que pelos aspectos históricos, sociais e culturais o relato é interessante no plano simbólico. A história de Rute e Noemi, é reveladora de uma história mais ampla – a das relações de Deus com o seu povo e com os outros povos. A mensagem transmitida é a de que toda a humanidade é criação de Deus. E assim se recuperam os excluídos de Israel que, embora não judeus, cultivam, tal como Rute, as virtudes da fidelidade, da amizade e da mansidão.
O relato termina com o nascimento de uma criança, Obed. Com este filho de Rute e de Booz, Noemi recupera o seu estatuto de mulher abençoada que através da nora vê perpetuar a sua descendência.
O Livro de Rute tem sido sujeito às mais variadas leituras, originando quer apreciações de carácter literário sensíveis à elegância da narrativa, quer considerações éticas sobre valores fundamentais do judaísmo, quer especulações sobre a abertura de Israel, a conversão dos gentios, o cumprimento da Lei. Aprecia-se no relato a relevância dada à fidelidade, mas também a partir dele se fala na autonomia e no desejo de afirmação individual. Há quem atenda ao carácter mítico do texto, confrontando-o com outros do mesmo teor, ligados aos mistérios da deusa cananita Anat ou a Eleusis [3]. Há quem veja nele a referência a um tempo histórico preciso e a um problema de miscigenação vivido pontualmente pelos judeus da era pré-monárquica. No que me diz respeito interessou-me lembrar este episódio bíblico para realçar a inteligência prática das mulheres e o modo criativo e imprevisível como conseguem resolver situações problemáticas. Tendo dedicado parte das minhas investigações a relevar a presença das mulheres na filosofia – muitas vezes injustamente secundarizada – interessou-me dar realce a este episódio, um dos muitos em que no Antigo Testamento as mulheres são referidas de um modo elogioso. E simultaneamente lembrar o tema do cuidado, tão caro às éticas feministas.
[1] Sigo a tradução dos Franciscanos Capuchinhos, Biblia Sagrada, Lisboa, Difusora Bíblica, 1988, pgs. 326 – 9.
[2] O levirato é uma prática comum no judaísmo coevo, consistindo no casamento da viúva de um homem que morreu sem descendência com um parente próximo (irmão ou primo) do seu anterior marido. O filho gerado nesta união será considerado como filho do primeiro marido. Cf. Dt 25, 5-10; Gn 38.
[3] Jack M. Sasson, “Ruth” em R. Alter & F. Kermode (eds.), The Literary Guide to the Bible, Cambridge, Massachusetts, Harvard University Press, 1987, (pp. 320-328), p. 320.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática de Filosofia (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.









