[Nas margens da filosofia (LXIII)]

A inteligência prática das mulheres – relembrando o Livro de Rute

| 9 Mai 2024

Rute. Bíblia

Julius Schnorr von Carolsfeld, Rute no campo de Booz (1828), Galeria Nacional de Londres. Reprodução via Wikipedia

Muitas vezes ao falar de inteligência se contrasta um modo masculino e feminino de utilizar esta capacidade. Não me irei debruçar teoricamente sobre esta temática mas imediatamente declaro que encontro diferenças no modo como homens e mulheres raciocinam no que se refere à resolução dos problemas concretos da vida. E vou tomar como exemplo (entre muitos outros possíveis) um dos livros do Antigo Testamento onde as mulheres desempenham um papel central – O Livro de Rute [1]. Nele é-nos relatada uma história onde se aborda uma das relações mais conflituais da tradição ocidental – a de uma nora e de uma sogra. O contexto inicial é o de uma grande fome, um facto que obriga Elimelec e os seus familiares a deixarem Belém, deslocando-se para Moab. A morte de Elimelec e dos seus filhos deixa desamparadas três mulheres – a esposa (Noemi) e duas noras.

O segundo episódio deste relato passa-se num terreno de espigas cujo dono é Booz, um parente rico de Elimelec, que se dispõe a acolher a sua viúva, bem como as duas noras desta – Rute e Orfa, oferecendo-lhes trabalho braçal nos seus campos. No último episódio deste relato são-nos referidas as diligências feitas por Booz para conquistar Rute e legalizar os seus direitos sobre ela, bem como sobre a herança de Elimelec. Assim, compra um campo que a este pertencia e aceita com ele Rute, comprometendo-se a reconhecer que os filhos desta sejam colocados na linhagem de Elimelec. Deste modo, Booz asseguraria a continuidade da sua descendência e, simultaneamente impediria que o nome de Elimelec fosse “eliminado de entre os seus irmãos, bem como da porta da cidade” (4, 10).

Booz é um homem bom cuja actuação é fundamental para o desenrolar da história. Mas contrariamente ao que acontece com as duas mulheres, intervenientes activas, Booz mais do que agente é agido, cumprindo um plano urdido por Noemi e executado por Rute. De facto, Noemi engendra uma estratégia, colocando Rute aos pés da cama do ensonado Booz. E é Noemi que cala o espavorido parente quando este a descobre. É ela que comanda as operações: “Estende o teu manto sobre a tua serva…”; é ela que lembra as prerrogativas de Booz – “porque tens o direito de resgate” (3, 9). De facto, no contexto histórico, cultural e social do relato estão presentes a ideia de que a descendência de um morto pode ser assegurada através da fertilidade da esposa, mesmo que esta fique grávida de outro homem. O filho nascido de Booz e de Rute – Obed – é considerado na tradição hebraica da época dos Juízes como filho e herdeiro de Elimelec sendo Noemi considerada sua mãe legal. E Obed, que de facto não tem qualquer ligação de sangue com Noemi, surge como o seu redentor pois é ele que lhe devolve a vida, a alegria e a linhagem. É através dele que o nome de Noemi será perpetuado.

Note-se que a lei do levirato, com algumas variantes, desempenha um papel importante no desenrolar deste enredo [2]. Embora o homem que aparece para resgatar a terra de Elimelec e desposar Rute não seja cunhado dela, é no entanto um parente próximo que se pode reclamar desse direito. E, respeitando o costume, é junto dos anciãos da cidade que Booz defende a sua causa, obtendo deles   consentimento para concretizar o casamento.

Mais do que pelos aspectos históricos, sociais e culturais o relato é interessante no plano simbólico. A história de Rute e Noemi, é reveladora de uma história mais ampla – a das relações de Deus com o seu povo e com os outros povos. A mensagem transmitida é a de que toda a humanidade é criação de Deus. E assim se recuperam os excluídos de Israel que, embora não judeus, cultivam, tal como Rute, as virtudes da fidelidade, da amizade e da mansidão.

O relato termina com o nascimento de uma criança, Obed. Com este filho de Rute e de Booz, Noemi recupera o seu estatuto de mulher abençoada que através da nora vê perpetuar a sua descendência.

O Livro de Rute tem sido sujeito às mais variadas leituras, originando quer apreciações de carácter literário sensíveis à elegância da narrativa, quer considerações éticas sobre valores fundamentais do judaísmo, quer especulações sobre a abertura de Israel, a conversão dos gentios, o cumprimento da Lei. Aprecia-se no relato a relevância dada à fidelidade, mas também a partir dele se fala na autonomia e no desejo de afirmação individual. Há quem atenda ao carácter mítico do texto, confrontando-o com outros do mesmo teor, ligados aos mistérios da deusa cananita Anat ou a Eleusis [3]. Há quem veja nele a referência a um tempo histórico preciso e a um problema de miscigenação vivido pontualmente pelos judeus da era pré-monárquica. No que me diz respeito interessou-me lembrar este episódio bíblico para realçar a inteligência prática das mulheres e o modo criativo e imprevisível como conseguem resolver situações problemáticas. Tendo dedicado parte das minhas investigações a relevar a presença das mulheres na filosofia – muitas vezes injustamente secundarizada – interessou-me dar realce a este episódio, um dos muitos em que no Antigo Testamento as mulheres são referidas de um modo elogioso. E simultaneamente lembrar o tema do cuidado, tão caro às éticas feministas.

[1] Sigo a tradução dos Franciscanos Capuchinhos, Biblia Sagrada, Lisboa, Difusora Bíblica, 1988, pgs. 326 – 9.
[2] O levirato é uma prática comum no judaísmo coevo, consistindo no casamento da viúva de um homem que morreu sem descendência com um parente próximo (irmão ou primo) do seu anterior marido. O filho gerado nesta união será considerado como filho do primeiro marido.  Cf. Dt 25, 5-10; Gn 38.
[3]  Jack M. Sasson, “Ruth” em R. Alter & F. Kermode (eds.), The Literary Guide to the Bible, Cambridge, Massachusetts, Harvard University Press, 1987, (pp. 320-328), p. 320.

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática de Filosofia (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

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