A ira do Irão

| 28 Abr 21

O velho orgulho persa vive hoje isolado num regime desenquadrado do mundo contemporâneo, reduzido a uma teocracia islâmica obsoleta que já não cativa os jovens. O regime tem prazo de validade e um dia destes cai.

“É o velho ressentimento contra os povos ditos cristãos que mantém o regime de pé, a ira do Irão.”  (9º aniversário da morte de Ruhollah Khomeini no mausoléu, 4 de junho de 1998. Foto: © khamenei / Wikimedia Commons)

 

A grande maioria da população iraniana é xiita (89%), embora os xiitas sejam uma minoria muçulmana no mundo (10%). Os sunitas não chegam a 10% no Irão e os restantes são de “outras” religiões, principalmente o zoroastrismo (45 mil pessoas), cristianismo, judaísmo e bahá’í (300 mil), mas também minorias religiosas de arménios, assírios e caldeus.No seu grande romance Samarcanda, Amin Maalouf traça o sentimento do povo persa nos inícios do século XX e os seus ressentimentos face a outros povos: “Que imagem têm hoje os persas das nações cristãs? A cristianíssima Inglaterra que se apropria do seu petróleo, a cristianíssima Rússia que lhes impõe a sua vontade segundo a cínica lei do mais forte? Quais são os cristãos com quem eles viveram até aqui? Uns velhacos, uns arrogantes, uns ateus, uns cossacos.”

O regime iraniano viola constantemente os direitos humanos. Persegue e prende jornalistas e minorias religiosas, em especial os adeptos da fé bahá’í a quem limita a liberdade não apenas em termos de profissão da fé, mas sobretudo pelas limitações impostas à sua vida. Os cemitérios bahá’ís são atacados, as autoridades mandam prender os seguidores da religião e barram a entrada aos seus jovens nas universidades. Daí que um grupo de docentes saneados em 1987 criaram a Bahá’í Institute for Higher Education, uma universidade clandestina no país, e voltada para seguidores da fé baha’í. A instituição oferece quase 40 cursos entre graduações, mestrados e programas de estudo nas áreas de ciências, engenharia, negócios e administração, humanidades e ciências sociais e recebe todos os anos cerca de 1.000 novos alunos. O trabalho e os diplomas conferidos por esta universidade clandestina são reconhecidos por dezenas de congéneres em todo o mundo, entre elas Yale (EUA), Queens University (Canadá), Universidade de Pune (Índia), Universidade de Bristol (Inglaterra), e outras em França, Alemanha, Áustria, Finlândia e Austrália.

Ao contrário dos restantes países do Médio Oriente o Irão é um dos únicos países não-árabes da região e revela distanciamento linguístico, político e religioso com os vizinhos. O país que hoje conhecemos como República Islâmica do Irão data de aproximadamente de 550 A.C. e foi conhecido na maior parte de sua história como Pérsia. Em tempos o império persa dominou a região. O xiismo tornou-se a religião nacional pela mão dos Safávidas (uma dinastia xiita formada por azeris e curdos) apenas no século XVI.

Depois do golpe de estado que derrotou a ocupação britânica em 1925 a Pérsia foi governada pela família Pahlevi, que rebaptizou o país em 1935, alinhou-se com o Ocidente, modernizou o estado à margem da influência religiosa, concedeu direitos às mulheres e aboliu a obrigação de usarem tchador.

Em 1979 e perante a insatisfação geral das populações, Khomeini liderou um golpe de Estado tendo fundado a actual república teocrática islâmica, altamente conservadora, promovido o corte radical com o Ocidente e instituído um líder religioso supremo.

Pelo menos desde a denominada Primavera Árabe que o Irão está em guerra fria com a Arábia Saudita, por via indirecta, na disputa de poder e influência regional. Os receios internacionais de os iranianos estarem a desenvolver um programa nuclear com intenções bélicas levou-os a submeterem-se à fiscalização do Conselho de Segurança (CS) da ONU e a firmar um acordo nuclear em 2015 com os cinco países do CS mais a Alemanha, no qual se empenhou o presidente Rouhani, que garantia a drástica diminuição do programa nuclear iraniano em troca do levantamento das sanções internacionais.

Mas a emergência da Administração Trump, que rasgou o acordo e impôs novas sanções económicas, o desenvolvimento da indústria de energia nuclear na Arábia Saudita e o envolvimento do país nos conflitos da região reverteram a situação, ao mesmo tempo que as sanções provocavam uma crise no regime pelo enfraquecimento da moeda, crescimento da inflacção, queda da economia interna, aumento de preços, desemprego e repressão política sobretudo sobre os mais jovens. O petróleo iraniano garante mais de metade das exportações, daí os incidentes frequentes que envolvem petroleiros.

É o velho ressentimento contra os povos ditos cristãos que mantém o regime de pé, a ira do Irão. Por agora ainda não se entende bem qual a estratégia da nova administração americana, mas sente-se a pressão de Israel, que teme um Irão nuclear, e dos sauditas, com quem os iranianos disputam a hegemonia regional, enquanto a população jovem vê o futuro hipotecado por um regime de características medievais.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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