Dominique, nique, nique… Entre les étoiles, Tous les chemins… Vendeu três milhões de discos em pouco tempo, chegou a vender mais cópias do que Elvis Presley, participou com uma gravação no Ed Sullivan Show, esteve semanas no primeiro lugar do top nos Estados Unidos. Naqueles três títulos de músicas – mas podiam ser mais – condensa-se a carreira curta e fulgurante da Irmã Sorriso, que cantou e encantou muitos, mas cuja vida acabou em tragédia a 29 de Março de 1985 – faz neste domingo 41 anos.
Jeanne-Paule Marie Deckers (ou Jeannine Deckers) nasceu em Bruxelas em 17 de Outubro de 1933. Frequentaria mais tarde a Universidade de Lovaina, tornando-se professora de arte. Por pouco tempo, já que aos 26 anos ingressou na Ordem Dominicana, no convento de Fichermont (Waterloo), assumindo o nome de Luc-Gabrielle, contraindo o nome do pai (Lucien) e juntando-o ao da mãe (Gabrielle).
A sua veia musical e de compositora manifestou-se na criação de várias canções – a música é uma tradição antiga e uma dimensão importante na vida dos mosteiros e conventos, como parte dos momentos de oração, evangelização ou lazer. Foi isso que aconteceu também com a irmã Luc-Gabrielle e, com o apoio e incentivo das outras freiras, recorreu a um estúdio da Phillips para gravar algumas das suas criações.
O resto veio pela voz – leve, transparente, capaz de modular por si só a melodia. A guitarra completava essa leveza, através dos dedilhados eficazes, ornamentados, mas sem complexidade exagerada. Os responsáveis da editora que acompanharam a gravação viram o potencial comercial das músicas e propuseram-lhe um contrato, rebaptizando-a de Soeur Sourire, Irmã Sorriso.
No All Music, Gregory McIntosh recorda: “O apelo comercial que a Phillips viu em Soeur Sourire foi partilhado pela Europa quando o seu primeiro single, uma homenagem a São Domingos intitulada Dominique, dominou as tabelas em 1963.” Era uma cantiga de estrada: “Domingos partia simplesmente viajante, pobre e cantando por todos os caminhos, em todos os lugares, ele não fala senão do bom Deus…”, diz o poema da canção, que se pode ouvir a seguir e celebra o fundador de uma das principais ordens mendicantes.
Assim era também a Irmã Sourire com as suas canções. E se Domingos de Gusmão percorria “a Europa a pé, Escandinávia ou Provença, [e] na santa pobreza inflamou todas as escolas, meninas e meninos cheios de entusiasmo”, a sua seguidora percorreria outros caminhos – mesmo intercontinentais –, já com outros meios, mas inflamando igualmente muitos espíritos com a sua música.
De tal modo que, pouco depois, a empresa discogrática fazia o lançamento do single nos Estados Unidos, mudando de novo o nome da Irmã Sorriso, desta vez para o inglês The Singing Nun (a freira cantora). No país, era o tempo da Guerra do Vietname e da vertigem do rock & roll, recorda Linda Seida num outro texto sobre ela. O disco chegou ao primeiro lugar da tabela dos mais vendidos no país, única vez em que algum(a) belga alcançou tal feito nos EUA, mantendo-se assim durante dez semanas.
Um outro facto, em 1965, confirma o sucesso na época, ainda conforme a história referida por Gregory McIntosh: um musical de Hollywood, protagonizado por Debbie Reynolds e Chad Everett, inspirava-se vagamente na vida da irmã Luc-Gabrielle, nome que ela mantinha fora de palco. Mas a história criada acrescentava uma freira a andar de motorizada, que se sentia atraída pelo personagem de Chad Everett.
O sucesso fulgurante foi demasiado para a jovem freira, que decidiu abandonar a carreira musical. Linda Seida nota que ela “não procurava activamente a fama”, que “as actuações ao vivo não lhe agradavam” e que a sua participação no programa televisivo de Ed Sullivan, mesmo gravada, merecera reticências da sua superiora. Este pormenor, no entanto, não se nota no vídeo que pode ser visto ainda hoje, no YouTube, cantando algumas das canções, entre as quais Alleluia:
Quando questionada por Sullivan sobre as suas razões para cantar, a irmã Luc-Gabrielle diz que as freiras estão próximas de Deus para estarem próximas de “todos os que têm dificuldade” na vida. E a prioreza insiste: “Estamos próximas de Deus porque ele nos aproxima de todas as pessoas e dos problemas humanos.”
Ela própria recusava essa “aversão aos holofotes”, diz Linda Seida, quando em 1967 editou o disco Je ne suis pas une vedette (“Não sou uma vedeta”). Apesar disso, já depois de morrer, Jeanne deu origem a livros sobre ela e a sua vida, antologias de músicas, recolhas de múltiplos vídeos na internet. E Dominique foi gravada em dezenas de versões; algumas delas, em 10 línguas diferentes, estão no vídeo a seguir.
Fugir da fama levou ao recalcamento da sua veia criativa durante um ano, o que se tornou insuportável. A irmã Luc-Gabrielle decidiu voltar a ser Jeanne Deckers, abandonando o convento e o nome artístico que usara antes, adoptando outro pseudónimo: Luc Dominique.
Era uma tentativa de regressar ao que ela cantava em Tous les chemins (“Todos os caminhos”), adaptado como canto paralitúrgico em Portugal com o título O Sol já raiou: “Todos os caminhos deste mundo/ Conduzem-te para o céu/ E o vento que vagueia/ Leva-te para o sol.// E cantam os prados/ E cantam as flores/ A alegria está no meu coração/ Eu tenho a minha alegria no Senhor.”
Depois de sair do convento, Jeanne passou a viver uma relação de casal com uma antiga amiga de faculdade, Annie Pescher e gravou uma canção política a favor do controlo de natalidade, Glory Be to God for the Golden Pill (“Glória a Deus pela pílula dourada”). Muitos daqueles que até aí a admiravam estavam nos antípodas desta posição – nesse tempo, o debate sobre a pílula e os meios anticoncepcionais era intenso e, em 1968, o Papa Paulo VI publicaria a encíclica Humanae Vitae, pressionado por alguns sectores da Cúria Romana e assumindo uma posição de recusa de qualquer anticonceptivo que não fosse “natural”.
“[Jeanne] afastou ainda mais os seus apoiantes ao abraçar posições radicais e ao assumir abertamente o seu estilo de vida homossexual com Prescher”, resume McIntosh, que refere ainda o facto de ambas terem criado e aberto uma escola para crianças autistas, que geriram em conjunto durante os anos de 1970.
No início da década seguinte, a autoridade fiscal belga pediu a Deckers 60.000 dólares em impostos atrasados sobre os lucros de Dominique. Nasceu um imbróglio jurídico e uma rampa descendente para a tragédia: a antiga freira tinha doado todas as verbas provenientes dos direitos da música ao seu convento, como era normal, e no início dos anos 1980 já não tinha dinheiro para pagar a dívida. Jeanne refugia-se progressivamente no álcool e em comprimidos, fazendo ao mesmo tempo alguns espectáculos para tentar saldar o encargo, mas o Governo ameaçou fechar a escola. McIntosh resume o desfecho: “Deckers e Prescher escreveram cartas à família e aos amigos e, em seguida, suicidaram-se juntas a 29 de Março de 1985 com uma mistura de barbitúricos e álcool.”
Para trás ficara Complainte pour Marie-Jacques (“Lamento por Marie-Jacques”). Ao contrário da leveza e da ingenuidade que Dominique transmitia, esta era uma música no lado B da mesma vida: “Com o queixo nas mãos, os pés na sarjeta/ Olhas para o céu e respiras a noite/ A cidade adormecida tem a cor do sonho/ E parece um sonho que se esvai.// Enquanto nos bares dançam rapazes e raparigas/ E dança o vento nas ruas dos subúrbios/ Tu cantarolas no teu coração a amarga poesia/ Que te nasce na espera do dia.// É de noite, como é belo acreditar na luz/ Na aurora triunfante, no sol da manhã.”
A canção, reproduzida no vídeo seguinte, oscila entre a dor, o lamento e a esperança de que, apesar de tudo, haja um futuro melhor, com referências bíblicas e da fé que Jeanne terá mantido até ao fim: “O teu luto transformar-se-á numa dança alegre/ Olhar renovado, mão estendida, o coração cheio de refrões/ Rumo à cidade que te espera, caminharás radiante/ Para trabalhar na obra do grande esforço humano.”
Depois de sair do convento, Luc Dominique gravara uma canção com esse mesmo título (a outra era “Eu não sou uma vedeta”), na qual cantava: “Ela está morta, a Irmã Sorriso,/ Ela está morta, já era tempo/ Vi a sua alma voar/ Através das nuvens.”
A frase “Vi a sua alma voar através das nuvens” ficou registada na lápide do túmulo que reúne os restos mortais de Jeanne Deckers e Annie Pecher, no cemitério de Wavre. Em Entre les Étoiles, cantava a ainda Irmã Sorriso (e a música pode escutar-se no vídeo seguinte): “Entre as estrelas/ O Senhor escreveu o teu nome/ Entre as estrelas/ Lá no alto, na Sua casa/ Entre as estrelas/ O Senhor colocou a tua vida/ Entre as estrelas/ Perto d’Ele no Paraíso.// A noite em que o Senhor te chamará/ A noite em que os teus últimos dias apressarão a partida/ A noite do encontro transfigurado/ A esperança/ Abençoada seja a noite.”
Terá sido assim, Jeanne.
(As canções de Soeur Sourire/Luc Dominique podem ser ouvidas nas plataformas digitais)










