A JMJ, a Igreja Católica e Portugal: alguns apontamentos

| 18 Ago 2023

Foto: JMJ Lisboa 2023

Bispos portugueses nos Jerónimos, durante o encontro com o Papa, dia 2 de Agosto: “Às vezes o nosso mau testemunho e os escândalos desfiguraram o seu rosto (da Igreja) e chamam-nos a uma humilde e constante purificação, partindo do grito de sofrimento das vítimas, que se devem sempre acolher e escutar.” Foto © JMJ 2023.

 

Em fevereiro deste ano, foram publicados os resultados do trabalho da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa. Li algumas passagens, e fiquei chocadíssima – quem não ficaria?

Os bispos portugueses, aparentemente, não ficaram. As suas reacções, após o relatório ter sido publicado, revelaram uma inaceitável falta de empatia da parte de alguns e uma inacreditável incompetência da parte de todos. Qualquer palerma que se prepare para uma entrevista de emprego prevê as perguntas que lhe vão ser feitas, e como deve responder para ficar bem na fotografia. Os bispos portugueses, contudo, apesar de saberem há anos o que, em matéria de abusos sexuais, se passava na Igreja Católica em todo o mundo, apesar de terem criado uma comissão independente para entrevistar vítimas e investigar o que se passara em Portugal, e apesar de saberem – espero eu – o que tinham feito nas décadas anteriores, não se prepararam minimamente para a “hora da verdade” e, numa primeira fase, só disseram disparates chocantes. É que nem tentaram disfarçar. O que suscita uma questão perplexa: em que mundo vivem eles?

A sério: em que mundo vivem eles?

No rescaldo desses dias, uma mágoa pessoal veio juntar-se ao escândalo dos factos revelados e ao escândalo das reacções sem compaixão dos responsáveis da Igreja. Doía-me a evidência dos dois pesos e duas medidas, conforme se tratasse dos leigos ou dos “da casa”. Pensava na tristeza do meu pai, impedido de ir à comunhão por ter casado após o divórcio, e perguntava-me quantas vezes aquelas hóstias que lhe eram recusadas a ele teriam sido consagradas por mãos imundas, mãos que agarravam crianças e lhes destruíam a vida. Como era possível a mesma Igreja que punia o meu pai por ter casado de novo encobrir padres que tinham cometido crimes horríveis? Como era possível que permitisse a estes continuarem a ministrar os sacramentos? Descobria com perplexidade que, quando se tratava de defender os seus, os responsáveis da Igreja não respeitavam nem sequer o seu próprio sagrado.

Foi então que vieram as jornadas. Somos portugueses, gostamos de receber bem, fazemos das tripas coração para acolher quem vem a nossa casa, queremos deixar boa impressão. De modo que pusemos temporariamente as desavenças de lado, e fizemos a festa.

E que bela festa foi! Em todo o país, pessoas vindas do mundo inteiro criaram laços com famílias portuguesas, trocaram-se impressões e histórias de vida, cresceram aqueles afectos que constroem a paz e reduzem instintos xenofóbicos e racistas. Em Lisboa, os palcos-altares encheram-se de mulheres a quem foi dado um protagonismo pouco comum na Igreja Católica. E o papa, segundo me pareceu, terá decidido oferecer aos jovens uma espécie de testamento pessoal, passando ao lado de toda a tralha acumulada na pesada máquina da sua instituição. “É esta a nossa Igreja: entregue ao serviço dos pobres e dos marginalizados e à luta pelos seus direitos, construtora da paz, defensora da Criação, onde todos são bem-vindos. Ponham-se a caminho, descubram sem medo a vossa voz e o vosso papel inspirados pela mensagem de Jesus Cristo.”

Apesar de todas as polémicas que antecederam estas JMJ, apesar de todas as notícias alarmistas que fomos recebendo nos meses anteriores relativas a falhas graves no seu planeamento, as jornadas acabaram por correr muitíssimo bem. O país tem bons motivos para se orgulhar do que conseguiu realizar com o esforço de tantos – desde os milhares de voluntários que trabalharam na organização aos condutores de transportes públicos, desde os agentes de segurança às empresas que alimentaram todas aquelas pessoas, passando por quem conseguiu preparar o parque junto ao Tejo em tempo recorde. Todos estão de parabéns, fizeram um excelente trabalho.

Também houve críticas, como não podia deixar de ser. Por parte dos que viam neste evento um espectáculo de proselitismo puro e duro da Igreja Católica. Dos que temiam que este momento festivo permitisse esquecer permanentemente o relatório dos abusos sexuais. Dos que tinham o coração nas quase cinco mil vítimas que constam desse relatório, e no sofrimento que lhes provocava ver os membros da instituição onde se cometeram e encobriram tais crimes a aparecer de cara alegre nos media. Dos que questionavam os critérios que justificavam e autorizavam tamanho envolvimento do Estado laico – em termos de custos, e não só. Dos que se perguntavam se é legítimo deixar que a cidade seja invadida por um evento deste tamanho, dificultando imenso a vida de alguns dos seus moradores.

Questões muito pertinentes, que ainda estão em aberto e pedem um debate inteligente e sereno.

Surpreendeu-me e chocou-me ver numa certa esquerda algumas reacções fundamentalistas contra os jovens e a Igreja. As roupas que os jovens usavam, os ritos, a fé: tudo era motivo de chacota e crítica. Não gostei e não aceito, como não gostei e não aceito quando vejo reacções semelhantes de uma direita ultraconservadora perante um evento da comunidade LGBTQIA+, por exemplo. Extremos opostos que servem de espelho mútuo onde se reflecte o mesmo desprezo fundamentalista, a mesma negação do direito à existência do outro.

Também foi embaraçoso observar o ridículo de certos políticos a fazer tudo para aparecer na fotografia, com os olhos postos nas urnas – uns muito encostadinhos ao papa, outros de costas voltadas para ele. Uns e outros a fazer cálculos sobre quantos votos renderia a performance. Pobre papa, ninguém merece.

Não sei se, do lado da hierarquia da Igreja, se olhou para as JMJ como uma oportunidade de mostrar ao mundo a sua força, ou antes como uma oportunidade de contactar com jovens, dialogar com eles, enviá-los para o desafio de tentar traduzir a mensagem de Cristo para as suas vidas, reforçar a dimensão comunitária e festiva do cristianismo – ou uma combinação de ambos. Fossem quais fossem as intenções dos organizadores, acredito que a maior parte dos jovens ali presentes não veio numa atitude de “contar espingardas”, mas de viver em comunhão com jovens de todo o mundo um momento especial do seu caminho de espiritualidade.

O país, esse, soube bem o que aproveitar das JMJ: alegrou-se com as visitas que recebeu, acolheu-as de coração aberto, e fez a festa com elas. Mas não se deixou impressionar por eventuais estratégias de proselitismo.

O mesmo não terá acontecido a Carlos Moedas. Suspeito que, ao olhar para aquela multidão, terá pensado “assim – se vê – a força da I.C.!”, e lhe tenha ocorrido surfar esta onda tão cheia de eleitores: estando presente muito para além do seu dever de presidente da Câmara, e oferecendo, com o nome da ponte do rio Trancão, um presente suplementar à Igreja destas multidões. Ou isso, ou então quis agradecer o silêncio a que a Igreja se remeteu quando todo o país começou a vociferar contra o preço do palco, deixando por dizer o óbvio: pediram um altar simples e barato, mas foi a Câmara que decidiu fazer bonito e caro.

Em todo o caso, pergunto-me em que momento terá Carlos Moedas caído na armadilha da pior realidade paralela da Igreja Católica, para esquecer repentinamente o horror de quase 5000 crianças vítimas de abuso (e este número é , tragicamente, apenas a ponta do iceberg) e decidir dar a esta ponte o nome de um bispo cuja boa imagem foi seriamente atingida pela forma como pactuou com o sistema de encobrimento e como reagiu ao escândalo.

O conflito ligado ao nome escolhido para a ponte não se trava entre os que são pela Igreja Católica portuguesa e os anticlericalistas e jacobinos, nem se trava entre os que são pelo Dom Manuel Clemente e os que são contra ele. Trava-se entre os que continuam a exigir da Igreja Católica portuguesa uma resposta decente (ou, para usar o seu próprio léxico: uma resposta cristã) e os que preferem ignorar ou esquecer tanto o sofrimento daquelas vítimas como a indignidade (em catoliquês: o pecado, ou seja, aquilo que nos afasta de Deus) das respostas dadas pelos responsáveis da Igreja em Portugal.

 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blog Dois Dedos de Conversa, onde este texto foi originalmente publicado.

 

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