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A JMJ e as reformas de Francisco

| 18/08/2023

Cerimónia de acolhimento ao Papa Francisco na Colina do Encontro no Parque Eduardo VII.

Cerimónia de acolhimento ao Papa Francisco na Colina do Encontro no Parque Eduardo VII. Foto © Sebastião Roxo / JMJ Lisboa 2023

 

Mais de um milhão de jovens do mundo inteiro responderam ao apelo do papa para participar nas Jornadas Mundiais da Juventude em Lisboa. Um evento realmente memorável. Este papa é, de facto, um grande mestre da palavra e da ação. Na linguagem simples de um pregador notável, vai traduzindo o evangelho para os tempos que correm. E fá-lo não apenas com palavras, mas também com gestos de impressionante humanidade. Não esquece os pobres, os deserdados, os presos, as vítimas de abuso… Oferece a alegria da vida a quem, pelos mais variados motivos, a perdeu. Revigora o evangelho, num tempo em que a Igreja parece soçobrar no interior de uma cultura que suspeita de tudo o que se relaciona com religião e tem razões de sobra para desconfiar das formas institucionais com que ela se tem revestido.

No entanto, e é esta convicção que me distancia dos seus mais aguerridos detratores, a religião está longe de ser aquele alfobre de crueldade que alguns querem fazer crer. O cristianismo é depositário de um património espiritual de altíssimo valor humano. É esse tesouro inesgotável de humanidade que o papa quer relevar nas suas múltiplas intervenções. E tem-no feito com eficácia. Não a eficácia que brota do calculismo hipócrita (tantas vezes evidente em líderes políticos e religiosos), mas da autenticidade existencial e da bondade do coração. Sem este papa, a Igreja estava hoje condenada a tornar-se um museu irrelevante para a grande maioria das pessoas. A crise dos abusos sexuais foi determinante para o avanço rápido deste processo de descredibilização da instituição, mas o fenómeno é anterior à revelação dos crimes. Porque será que a Igreja se tem tornado uma instituição cada vez mais irrelevante?

A meu ver, no centro deste fenómeno está o enquistamento da instituição em formas caducas de vivência religiosa e de organização hierárquica, a obsolescência da doutrina oficial e o congelamento do evangelho na rígida bitola da lei. A somar a tudo isto e como sua consequência, a conformação da instituição aos regimes liderados pela direita autoritária e a defesa constante, com raras exceções, dos interesses dos poderosos sem demonstrar qualquer sensibilidade, senão em ações de caráter meramente assistencialista, para com os direitos básicos dos mais pobres e deserdados. A Igreja esqueceu-se efetivamente do potencial revolucionário do evangelho, domesticou Cristo a partir dos interesses dos abastados, transformando-o num mero ícone espiritual ao qual se reza para obter a “salvação da alma”, mas que não interpela o crente a desenvolver um olhar crítico sobre as estruturas sociais e políticas, nem o impele a construir sociedades politicamente justas, igualitárias e fraternas, como seria suposto numa sociedade orientada por valores cristãos. Um Cristo da piedade popular veio adormecer o povo face à indigna condição a que é votado pela organização capitalista e autoritária da vida coletiva.

Urge, portanto, regressar ao Cristo dos evangelhos, ao Jesus histórico, ao profeta nazareno que não receava “sujar as mãos” com gente de má vida, que atraía prostitutas e outros excluídos da vida social e religiosa, que os defendeu face a uma compreensão rígida da letra da lei, que interpretava o código legal como um conjunto de regras ao serviço da libertação do ser humano (sobretudo dos mais vulneráveis) e não como instrumento de submissão do povo a interesses obscuros. Este Cristo real tinha de Deus uma visão realmente revolucionária face à teologia dominante. Não um Deus empenhado em condenar os “impuros”, mas em libertar e salvar através do acolhimento, do amor ilimitado e da misericórdia infinita.

Dois mil anos de história chegaram para desfigurar o Cristo real, revestindo-o das vestes sacerdotais e do poder imperial de modo a tornar-se num instrumento de subjugação de toda a liberdade, de mistificação da igualdade e de espiritualização da fraternidade, deslocando o eixo religioso da construção social para o mero desenvolvimento individual. Um tal Cristo fala ao coração do crente com o único fito de o transformar num ser conforme a todas as regras morais que orientam o plano individual da vida, mas não se pronuncia criticamente a respeito das formas opressoras que a organização social e política promove, nem propõe que todos os seres humanos possam ser sujeitos da sua própria existência.

A Igreja foi, durante muito tempo, infiel ao evangelho que tinha obrigação de preservar e de pregar sem nenhum receio. Agora é o tempo da mudança, se quisermos que a Igreja recupere o rosto que sempre deveria ter tido. Há muito lixo a varrer das sacristias. Nem tudo pode ser feito ao mesmo tempo, mas cada dia que passa sem avançarmos é mais um dia perdido no caminho da fidelidade da Igreja ao Cristo que ela confessa ser o seu Senhor. Não creio que as reformas encetadas por Francisco sejam suficientes. Estão longe do o ser. Mas este papa teve o mérito de iniciar um processo que tem de ser imparável, porque a vida não se detém no tempo, ela corre pelas calhas da história quer queiramos quer não. Se não soubermos ler os sinais dos tempos, seremos tragados pela nossa dupla infidelidade: ao Evangelho e ao tempo que nos foi dado viver. O evangelho não é uma pedra tumular, mas um fluxo vital que nos congrega à ação e nos convida a sermos mais autênticos não apenas como indivíduos, mas também como instituição. E ser mais autêntico não é ser mais rígido, mais inflexível, mais legalista ou mais empenhado em repetir ladainhas, missas em latim ou fórmulas doutrinais há muito mortas, mas mais comprometido em construir comunidades de irmãos, que se indignem com a injustiça, a desigualdade gritante, a pobreza inaceitável, a indigna acumulação da riqueza nas mãos de poucos, etc. Importa, portanto, uma Igreja que se interesse menos pela definição pormenorizada dos caminhos de cada pessoa no que às questões de moral sexual diz respeito, que deixe de mistificar um suposto sistema antropológico completamente irreal, fundado em categorias há muito inoperantes, e se dedique a propor caminhos para a resolução de questões que afligem efetivamente a vida diária das pessoas, como a pobreza, o desemprego, as desigualdade gritantes, as discriminações intoleráveis (inclusive no seio da Igreja), o défice democrático das sociedades em que vivemos, etc. Precisamos urgentemente de uma Igreja que aceite o resultado da investigação científica moderna no que se refere às questões da sexualidade e que desça da sua arrogante posição de quem se julga dona da verdade.

Estou em crer que uma tal reforma apenas teve o seu início com este pontificado. A sua continuação vai depender dos sucessores de Francisco e da pressão que os católicos do mundo inteiro vierem a exercer sobre a instituição. No que me diz respeito, seria inconcebível que o sucessor de Francisco fizesse tábua rasa de tudo quanto o seu antecessor já construiu e assumisse a triste tarefa de conduzir a Igreja até à sua implosão, transformando-a numa instituição envelhecida e incapaz de dar testemunho da alegria do evangelho.

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

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