A Justiça livra da morte

| 30 Mar 21

[Senhor] Vede se é errado o meu caminho,
conduzi-me pelo caminho do que é eterno.
(Salmos 140:24)

A justiça livra da morte
(Provérbios 10:2)

 

“Se continuas a querer fazer o bem tendo em vista algum benefício imediato, então ainda não o queres da maneira que deves querer.” Gravura: Georg Pencz – Biblioteca Nacional Digital – Brasil / Wikimedia Commons

 

É muitas vezes a fraqueza, a impotência e a frustração por não conseguirmos fazer aquilo que realmente queremos, que nos conduz ao mal.

Queremos ser heróis, conquistar uma glória qualquer, ser absolutamente livres, e não compreendemos que o maior dos heroísmos não é o do impulso de uma hora, mas o de todas as horas em que tentamos adequar a nossa ação ao nosso juízo mais justo. Mesmo que doa, mesmo que a solidão pese, mesmo que a angústia prevaleça.

Fazer o mal é uma forma de ceder ao desespero. É não ter, nem entrever, nem se dispor a construir futuro. É, fundamentalmente, ser escravo do agora, da conveniência imediata, da vileza de espírito. Dói-te o amanhã? Ou mesmo o hoje? Não vês perspetiva de alegria, de magia, de redenção? Pois, olha melhor e vê se isso tem mesmo razão de ser, se há racionalidade na tua angústia, no teu medo ou desencanto. Vê se não tens culpa nisso.

Ai julgas que não vale a pena fazer o bem, algum bem, mesmo se pequeno?! Então o que vale a pena? Se isso não vale a pena, nada vale a pena. Que espécie de deus é esse em que acreditas, vazio e obscuro, se estás confinado a ti mesmo e às tuas conveniências imediatas, ao teu egoísmo, e não vês sentido nem te queres incomodar em fazer o bem, algum bem, mesmo se pequeno? Se não queres fazer algo em prol de outrem sem esperar nada em troca, senão talvez a boa consciência do bem realizado, da justiça praticada? Que espécie de realidade é essa que preconizas radicada no Absoluto-Bem, ao mesmo tempo que consideras inútil e incómodo saíres de ti para levar a esperança a outrem – o mesmo é dizer, um pouco desse bem e dessa justiça que preconizas princípio, meio e fim de Tudo?

Se continuas a querer fazer o bem tendo em vista algum benefício imediato, então ainda não o queres da maneira que deves querer. Não se queres estar de acordo, em harmonia, com o Ser que preconizas. Vais continuar a desiludir-te e, no final, abandonarás o bem que, ao contrário do que pensavas, não te trouxe – como não poderia nunca trazer – aquilo que procuravas. O egoísmo, a autorreferenciação doentia, não traz senão solidão e esterilidade. Ao recusarmos o bem que podemos fazer, a justiça que podemos levar ou construir, a beleza que podemos edificar, pomo-nos de parte, à margem da corrente da própria Vida. Negamo-nos a colaborar com a própria natureza do Ser – se de facto cremos que o Ser é o Bem, i.e., Deus –, e assim também não somos.

Fazer o bem, praticar a justiça – para quê, então? Para levarmos esperança a outrem – e a trazermos a nós mesmos também. Para que haja futuro para além da angústia. Para nos religarmos e reconhecermos, para nossa incomensurável alegria, coparticipantes de algo muito maior, mais vasto e mais profundo, que assim também nos amplia e nos situa no Ser. No centro, e não à margem. Para que, enfim, sejamos.

 

A natureza radical de toda a realidade

“A infinitude do Ser, infinitamente presente em cada coisa, não parece limitar a multiplicidade das identidades…” (Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, Galiza. Foto © Paulo Bateira, cedida pelo autor)

 

O Ser – o que é, afinal?

O Ser é a natureza última, radical, de toda a realidade. De tal maneira que o Ser está em tudo absolutamente, infinitamente, e é na verdade Tudo. Ora, para entendermos que a realidade é moral, não é necessário que tenhamos como pressuposta a inscrição de uma normatividade moral no Ser. Isto é, não é necessário supor inscrito no Ser uma tábua normativa universal e imutável, uma moral absoluta. Basta que se preconize que, no coração do Ser, existe o Bem Absoluto, que não é normatividade em si mesmo, mas tão-só plenitude de Ser.

Significa isto que o Bem Absoluto é Finalidade de tudo, inclusive da ação moral, que visa sempre algum bem, i.e., um telos[1], uma plenitude de realização. Com efeito, historicamente a moral não é absoluta, antes varia. Varia consoante a consciência humana está mais ou menos próxima da consciência do Ser, i.e., de Deus. O Ser é o Bem, mas a nós ele manifesta-se num sendo, que não deixa porém de visar, escatologicamente, o próprio Bem.

O Todo (i.e., a Totalidade que é o Ser manifestado) é criado e recriado a partir da Eternidade. Segue-se que, em absoluto, há algo que, libertando-se da ditadura do sendo (i.e., da continuidade temporal, do princípio causa-efeito), pode por vezes ser criado ab origene, ou seja, diretamente a partir da Eternidade, para a seguir ser nela reabsorvido completamente. A eternidade irrompe por vezes no Todo, o Ser manifesta-se – mas o Todo continua, prossegue sendo, eternamente. Sim, pode haver criação de universos em sentido absoluto, quer dizer, ab origine, mas nunca ex nihilo.

O Absoluto-Ser está sempre pronto a doar-se inteiramente numa recriação de si próprio, porque criar-se é dar-se sempre em grau infinito. Mas nada pode vir do nada, pois tudo o que pode ser criado, todo o espectro do possível, encontra-se já no Ser, não o cria. É por isso muito provável que existam infinitos universos, tantos quantos a Eternidade, que é o Bem, pode infinitamente produzir (nada que não esteja hoje perfeitamente no horizonte especulativo da Física).

Mas tudo isto para chegar à moral. A infinitude do Ser, infinitamente presente em cada coisa, não parece limitar a multiplicidade das identidades, quer dizer, a diferença das coisas entre si. Podem estas, contudo, encontrar a sua equidade no Todo a que pertencem, do mesmo modo que diferentes órgãos encontram a sua equidade no contexto do corpo de que fazem parte. Neste sentido, o Todo é, de facto, anterior às partes, conferindo-lhes equidade pelo modo como as convoca para um mesmo fim sem o qual elas também não são.

Analogamente, o Absoluto-Bem, que é absoluta unidade, manifesta-se na infinita diferença e multiplicidade, nos múltiplos “bens” intermédios que promove para a prossecução do Fim Último. Múltiplos “bens” expressam-se também em múltiplas “moralidades”, múltiplas manifestações positivas da normatividade, ou mesmo expressões de consciência moral. Há o “bem” da pedra, o “bem” do animal, o “bem” dos seres humanos, um “bem” da natureza, enfim. Nem todos estão exatamente de acordo, podem aliás estar em contradição, como aliás é evidente. Assim o é também historicamente, diacronicamente, entre os seres humanos. E mesmo sincronicamente.

 

Criação acabada e criação em devir
Céu vermelho.

“Cada tempo, cada momento histórico, é simultaneamente criação acabada, cumprida, e criação por acabar, em devir.” Foto © Íris Martín Pereira

 

No caso do ser humano, individual e coletivamente, tudo depende como este se situa no sendo para realizar o seu “bem” histórico, servindo o Bem de acordo com o seu nível de consciência do Ser (ôntico). O nível de consciência do Ser estará intimamente ligado ao nível de evolução do ser humano em cada momento. Ora, haverá certamente um nível de normatividade e consciência moral mais próximo do Ser em sentido absoluto, e por isso mais passível de universalidade e intemporalidade. Mas ele só pode surgir num plano de consciência superior que admita já uma expressão mais plena da liberdade.

Mais liberdade significa, pois, menor dependência do sendo, quer dizer, das condicionantes da espaciotemporalidade, da causalidade estrita, e consequentemente maior capacidade de agir ab origine, quer dizer, a partir do Ser – logo, de acordo com e tendo em vista o maior bem.

Cada tempo, cada momento histórico, é simultaneamente criação acabada, cumprida, e criação por acabar, em devir. Criação ab origine a partir da eternidade, e sendo. Assim, em cada momento, há um bem a cumprir, simultaneamente finalidade em si mesma e etapa para o Bem maior. Cada tempo tem assim o seu caráter intemporal de inscrito no Eterno, bem como as suas exigências singulares, os seus bens a cumprir, os seus fins, as suas circunstâncias, válidas por si mesmas, mas sempre em evolução/transformação.

A moral normativa e a consciência moral têm assim, em cada tempo, em cada momento do devir histórico, uma expressão total, válida por si mesma, singular, no contexto da finalidade maior do Todo histórico em devir a que pertencem. Mas, ao mesmo tempo, não cumprem completamente o Ser – nem podem cumpri-lo -, quer dizer, não exprimem jamais, em nenhum momento, a infinitude do absoluto Bem. Mas a criação é infinita, não pode cessar, o sendo prossegue, persiste, visando sempre o mesmo horizonte escatológico. E assim vai-se aperfeiçoando, vai produzindo consciência cada vez mais apta para intuir o Ser, o Bem Último.

Assim também se aperfeiçoa a moral, a consciência amplia-se, os seres conscientes reconhecem-se cada vez mais na unidade transcendente de uma origem e um destino comuns. A esse nível, estão mais preparados e motivados para fazer o bem, para se tornarem, em consciência, coparticipantes no Ser. A sua posição no Ser é agora mais esclarecida, mais ciente da Unidade que subjaz a todo o devir, a toda a aparência, e que constitui a justificação, a origem e o fim de Tudo.

Fazer o bem é ser. É participar da imortalidade e da dinâmica do próprio Ser. É reintegrar-se na corrente da Vida. É recuperar o horizonte do universal na própria vida, e isso ser tudo.

 

[1] Palavra grega que significa limite, finalidade ou perfeição.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

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