A “Laudate Deum” e a Inteligência Artificial

| 20 Out 2023

Inteligência artificial. IA

«A inteligência artificial e os recentes progressos tecnológicos baseiam-se na ideia dum ser humano sem limites, cujas capacidades e possibilidades se poderiam alargar ao infinito graças à tecnologia. Assim, o paradigma tecnocrático alimenta-se monstruosamente de si próprio.» (LD 21). Foto © Gerd Altmann / Pixabay

 

Um estudo publicado no passado dia 10 de outubro discute a crescente pegada energética da inteligência artificial (IA) e seu potencial impacte ambiental. A rápida expansão e ampla aplicação da IA nos últimos anos, especialmente com o lançamento do ChatGPT da OpenAI, aumentou a preocupação sobre o consumo excessivo de eletricidade para suportar estas ferramentas. Alex de Vries, o estudante de Doutoramento que realizou este estudo, receia que o aumento da eficiência da IA como ferramenta leve a um efeito de ressalto (rebound). Isto é, desenvolvemos a tecnologia para que se torne mais eficiente no consumo de energia e, por causa disso, as pessoas usam mais a ferramenta e todo o trabalho de investigação realizado para diminuir o consumo acaba por voltar à estaca zero. Se se questionam o que é o paradigma tecnocrático de que fala o Papa Francisco na Laudate Deum (LD), é isto.

«A inteligência artificial e os recentes progressos tecnológicos baseiam-se na ideia dum ser humano sem limites, cujas capacidades e possibilidades se poderiam alargar ao infinito graças à tecnologia. Assim, o paradigma tecnocrático alimenta-se monstruosamente de si próprio.» (LD 21)

A razão que prende muitas pessoas às redes sociais deve-se à dopamina libertada no nosso cérebro com a gratificação instantânea, mas uma das coisas que contribui para isso são os murais infinitos de conteúdo e os algoritmos que se ajustam mediante o crescente aumento do tempo de ecrã. Com esse aumento do tempo de ecrã, maior é a probabilidade de alguém ver a sua atenção captada por um anúncio em particular e atingir o objectivo verdadeiro pretendido: consumir. Não tanto conectar pessoas. O paradigma tecnocrático está nas mãos daqueles que geram toda uma economia da atenção com a promessa de conexão e de uso gratuito de ferramentas que nos mantêm a par da vida uns dos outros, ou facilitam a comunicação entre nós. Não é mentira, mas não é toda a verdade.

Quando colocamos os nossos dispositivos em modo de stand-by pensamos que não estão a consumir energia, mas há algum tempo que sabemos como isso não é verdade. E com o crescente impacte que as ferramentas de Inteligência Artificial têm sobre a tecnologia que utilizamos, por exemplo, sempre ligadas para serem sentinelas do nosso bem-estar 24/24h, 365 dias por ano, de modo a se adaptarem ao nosso modo de expressar desejos, monitorizarem a nossa saúde e fazer os ajustes necessários para estarmos sempre confortáveis e em cima do conhecimento, o preço pago será um aumento exponencial do consumo de energia. É problemático? Não porque, na verdade, esse consumo é coberto pela energia que recebemos do Sol e sobra ainda muito, mas como a fonte mais imediata de conversão de energia para alimentar os nossos computadores continua a ser a energia fóssil, o compasso de espera para desenvolver a transição energética definitiva para fontes renováveis de energia, torna-se incompatível com o desejo insaciável de consumo energético que têm as ferramentas de Inteligência Artificial.

«Deus uniu-nos a todas as suas criaturas. Contudo o paradigma tecnocrático pode isolar-nos daquilo que nos rodeia e engana-nos fazendo esquecer que o mundo inteiro é uma “zona de contacto”.» (LD 66)

Aquilo a que assistimos hoje é que a “zona de contacto” que o Papa refere na Laudate Deum e apela a recordar como estamos ligados ao mundo que nos rodeia através dos relacionamentos, essa zona de contacto é, hoje, mediada, essencialmente, pelos nossos ecrãs e daí o isolamento. Mas, e se não houvesse ecrãs? Isso é o que o casal Imra Chaudhri e Betany Bongiorno, que trabalharam pouco mais de 20 anos na Apple, quiseram fazer quando fundaram a HUMANE para criar um dispositivo que nos fizesse sentir como a tecnologia pode tornar-se invisível usando Inteligência Artificial. Dispositivos que interagem com o mundo do modo como nós interagimos com o mundo. Dispositivos que não têm ecrã, não se notam e possuem uma sensibilidade apurada ao mundo que nos rodeia.

Tudo maravilhoso, mas suportado pela Inteligência Artificial que precisa de uma enorme quantidade de energia para fazer o que esperamos que faça. Será que o melhor é fazer a tal pausa prolongada que muitos milionários pediram para tomarmos melhor consciência do paradigma tecnocrático em que vivemos e fazer alguma coisa para dele sair?

O Papa procura, na Laudate Deum, abrir a nossa mente à possibilidade de haver esperança de que a vida humana consiga sobreviver à crise climática com um renovado relacionamento com o mundo natural que a sustenta. Porém, a história de como isso acontecerá está longe de ter um fim à vista e o dilema que a Inteligência Artificial abre não se deve perder de vista da nossa reflexão.

 

Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro palavras (publicação de Autor); pode acompanhar o que escreve pela sua newsletter Escritos em https://tinyletter.com/miguelopanao

 

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