
O Papa Francisco com o xeque Ahmed el-Tayeb, fevereiro 2019. Foto © Eissa Al Hammadi / Ministry of Presidential Affairs.
Um trabalho interessante do Diário de Notícias dava conta de como os fóruns radiofónicos e televisivos revelam, cada vez mais, uma sociedade crispada. O momento que vivemos expõe-nos a uma enorme fragilidade e torna-nos mais suscetíveis à irritação. O sofrimento, oculto ou às claras, é propício à crispação de que dão conta os jornalistas que vão gerindo as intervenções e a opinião do público nos programas de antena aberta.
Seria sinal de um mau jornalismo que esta crispação não se manifestasse nas notícias. Mas nem toda a realidade é crispada. A polarização existe, mas não reduz tudo à sua lógica. Quando as notícias não captam outras expressões, outros tons da realidade, o jornalismo perde liberdade e deixa-se involuntariamente maniatar por interesses que diminuem a sua independência.
Celebrou-se dia 4 de fevereiro o 1º Dia Internacional da Fraternidade Humana. Esta efeméride foi instituída pela ONU, tendo a data sido escolhida para coincidir com o aniversário da declaração católico-islâmica em defesa da paz mundial e da convivência comum. O documento foi assinado a 4 de fevereiro de 2019 pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb. O 1º Dia internacional da Fraternidade juntou no mesmo momento os signatários do documento e o Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres. Tirando raríssimas exceções, poucas notícias foram dadas sobre este tema.
Podemos olhar com certa bonomia para aquele momento. Uma espécie de momento zen e bem-intencionado, mas pouco relevante e sem impacto social e político.
Dificilmente se pode considerar pouco relevante um encontro entre líderes de duas religiões que tantas vezes nos são apresentadas como vivendo um conflito insuperável. O facto de esse conflito ser muitas vezes alimentado por visões distorcidas, torna ainda mais importante que sinais como este sejam captados. Exemplo desta distorção é a forma como se associa o fantasma islâmico ao que se passa em Cabo Delgado. Aparentemente seria essa a sua única causa. As informações que chegam do terreno apontam noutro sentido e falam de interesses económicos de lógicas de poder.
Por outro lado, o impacto de um encontro como o que juntou o Papa Francisco, o Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb e António Guterres depende da atenção que os meios de comunicação lhe possam dar. Não se trata de pedir nenhum favor, um jeitinho para que haja espaço para umas imagens ou fotografias bonitas. Trata-se de chamar a atenção para a necessidade de uma informação que não pode favorecer a crispação e a divisão. As notícias devem dar conta da crispação, mas não entrar no jogo da polarização.
A fraternidade a que a declaração católico-islâmica apela não é um sentimento levezinho. É uma responsabilidade de todos para que a liberdade e o respeito por cada pessoa sejam possíveis. Sem perder a sua independência, o jornalismo não se pode alhear desta responsabilidade.
José Maria Brito é padre jesuíta e diretor do Ponto SJ










