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[Entre Margens]

A leveza em ignorar dias especiais

| 01/03/2026

 

Há uma leveza qualquer em ignorar dias especiais, um jogo de fintas bem sucedidas contra as incumbências do destino, um gesto anárquico a desenjoar das convenções.

No dia do meu vigésimo-oitavo aniversário, eu estava sozinha em Epitaciolândia, no Acre. Já não me lembro qual era o plano — década e meia se passou —, sei apenas que andava às voltas pela América do Sul na intenção de chegar à Bolívia, a La Higuera em Santa Cruz, para conhecer a escola — agora museu — onde o Ernesto fora assassinado.

Saí da Pousada Fronteira para caminhar na cidade e ver o que a tarde me reservava — fazia calor, muito, daquele calor húmido que inunda de suor até o mais higiénico dos bípedes racionais —, mas desisti logo de peregrinar, preferi sossegar no terraço da pizzaria Italilândia.

A moça que me trouxe a Brahma Duplo Malte estupidamente gelada chamava-se Suelly — contou-me que era de Brasiléia, mas vivia na Bolívia, logo ali em Cobija, onde os alugueres permaneciam acessíveis ao bolso do comum proletário, porém, trabalhava em Epitaciolândia porque o salário era mais alto.

Nunca fui à Bolívia, mas vou daqui a uns dias, vou até ao Titicaca, Disse-lhe, omitindo que iria também a La Higuera, porque nunca se sabe o peso que a política tem na cabeça dos sul-americanos.

Então, eu saio daqui a pouco, você quer vir conhecer a Bolívia, é logo depois da ponte, vamos que eu te mostro, Propôs Suelly de um jeito nitidamente habituado aos turistas insuspeitos que apareciam por ali — vá-se lá entender por que carga de água. Com tanto lugar no mundo para apreciar, ainda há quem vá aterrar em Epitaciolândia — ele há coisas que nem Freud explica.

Aceitei, a Suelly era querida à primeira vista, boa de conversa e simpatias, arquétipo de bom anfitrião.

Sentei o rabo no lugar traseiro da Honda Wane 110S e abalámos. Ao passarmos pela Ponte da Amizade, ela não parou para o controlo obrigatório, apenas buzinou e seguiu. O polícia rodoviário federal que controlava a fronteira estava dentro da guarita, debaixo da ventoinha, a dormir de barriga para cima numa espreguiçadeira.

A Suelly parou a motorizada a meio da Avenida Ismael Montes e sugeriu que caminhássemos, por ser mais fácil para vermos de perto as tendas de artesanato e contrabando, mas eu já só via os tanques de lagarta de um lado para o outro pelas estradas de terra batida, transportando militares de metralhadoras ao ombro que  miravam atentos a rua.

Calma, Declarou ela ao notar-me desconfortável, pálida, talvez, esbugalhada e tremida, É normal aqui, por ser uma fronteira propícia ao trafico de cocaína e passagem de gente ilegal que se escapa de um país para o outro.

Suelly, eu estou ilegal na Bolívia, passámos sem controlo, não tenho carimbo no passaporte, como é que eu agora saio daqui sem provar que não sou um desses fugitivos, traficantes, assassinos, contrabandistas, Neste momento eu já tinha desistido de abafar o choro e entrava em histeria sem reticências nem cautelas.

Naquele momento, fui atropelada por uma burrice emocional aguda que me sugou da realidade para me soltar aos leões na jaula da psicose, convicta de que todos aqueles militares estavam prestes a abater-me, que as pessoas em volta constituíam o maior grupo de máfia do planeta e que a Suelly era mais esperta do que bonita e simpática, e tinha planeado aquilo como já devia ter feito com centenas de outros turistas vindos de países mais ingénuos — para tráfico humano, roubo de dinheiro ou contrabando de orgãos. Imaginei-me presa numa cela boliviana com mais vinte cholitas, campeãs de luta livre, a espancarem-me à vez pintando nas grades verdadeiras obras-primas com sangue vivo. A minha filha orfã, a minha mãe eternamente triste, os meus amigos a relembrar parvoíces cheios de saudade, as más-linguas da terra a jurar que me tinha  metido no tráfico pesado e que já desconfiavam porque há muito que me viam drogada pelas ruas de Albufeira — quem me manda ter tatuagens, piercings, uma orientação sexual amaldiçoada e, ainda por cima, ganhar a vida como malabarista de fogo? Estou mesmo a pedi-las, assim é natural, que pensem de mim o pior dos cenários.

Caramba, eu só tinha vinte e oito anos feitos há meia hora e o mundo, afinal, não acabara em dois mil e doze — havia tanto por viver e eu fora imperdoavelmente burra.

Devo ter desmaiado de pânico, num tijolo que serviu de assento, porque quando voltei a mim, lá estavam as mãos da Suely a passar-me água fresca pela testa e lábios.

Está calor de mais para uma gringa, Indagou ternurenta, Devias voltar para a pousada, ligar o ar-condicionado e descansar, anda, eu levo-te, mas vamos a pé, não tens condições de subir na moto.

Quando atravessámos a ponte, o guarda estava desperto e o estômago contorceu-se-me dentro da barriga, ou foi o coração que me saltou pela boca, sabe-se lá. A Suelly devia mesmo ser de confiança, porque explicou com a naturalidade de um Bom Dia retórico que eu era só uma turista que ela levara a ver Cobija, e não o acordou porque vinha logo trazer-me de volta, e sabia bem a importância que o cochilo da tarde tinha para ele. Já venho, Juanito, Foi assim que ela se despediu. Quem é que trata um guarda militar fronteiriço pelo diminutivo do seu nome?

Cheguei finalmente a terra lícita, terminando assim o meu episódio de clandestinidade na Bolívia.

Despedi-me da Suelly na manhã seguinte e parti para Santa Cruz de la Higuera, com coragem e rebeldia renovadas, repetindo mentalmente, Antes a morte à submissão. Hasta la victoria siempre, comandante!

Hoje admito que a minha cabeça seja mais sinistra e perigosa do que as fronteiras latino-americanas.

Hoje admito que a velhice é sábia conselheira das cobardias e que a submissão é preferível à morte, que os sapos da vida não se escarram — como fez o comandante —, engolem-se. E que as vitórias, essas, são destino inalcançável.

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