
Father Brown
O Padre Brown é uma famosa personagem literária criada pelo escritor Gilbert Keith Chesterton no início do século XX. A partir das características principais do sacerdote católico, a BBC criou uma série que presentemente pode ser vista na FOXCrime. Além do ofício religioso, o Padre Brown trabalha com afinco para solucionar os crimes cometidos em Kembleford, a terra em que vive. Num dos episódios, a história começa apresentando uma mulher que está prestes a ver cumprida a sentença do tribunal que a condenou à morte por ter assassinado o marido. Pouco depois, é solta. Tinha encontrado um modo de, através de uma guarda prisional, chantagear uma idosa em estado terminal: ou garantia ter sido a autora do crime, e, por isso, a família receberia uma elevada quantia de dinheiro, ou, caso não o fizesse, seriam os netos a sofrer amargamente as consequências. A idosa opta pela primeira opção. Mente, confessando o crime que não cometeu, pelo que é ela a ser condenada à morte.
A verdadeira assassina é então libertada para, ao longo do episódio, infernizar a vida do Padre Brown e dos que lhe são próximos. Fá-lo para se vingar da circunstância de o célebre sacerdote ter contribuído decisivamente para deslindar o crime que ela tinha cometido e, portanto, para a condenar. Em certo momento da prolongada perfídia, a assassina consegue que um jornal coloque na primeira página o “verdadeiro” motivo por que o Padre Brown quis que fosse presa e condenada a mulher que todos agora julgam inocente. O móbil dir-se-ia banal. O sacerdote pretendeu ter relações sexuais e ela recusou. Tudo, assim, se explicaria facilmente.
Forjar uma mentira para combater alguém que não se aprecia – ou a respectiva conduta – é um procedimento comum. A qualquer comportamento é possível atribuir uma motivação mesquinha. A mais altruísta das acções pode ser considerada como tendo sido movida pela inveja, pelo despeito ou pelo interesse. A pessoa que esboça uma crítica pode ser acusada de o ter feito por alguma motivação oculta.
Sempre que encontra o Padre Brown, em privado ou em público, o Inspector Mallory, o chefe da polícia local, destrata-o. Acha-o um metediço. Incomoda-o, evidentemente, que o padre seja mais eficaz do que ele a resolver cada crime. Mallory considera Brown repleto de defeitos, mas transmite-lhe que o considera incapaz de ter assediado a assassina, como ela acusou e o jornal amplificou. Mallory percebe que há limites para as implicâncias.
Na semana passada, diziam os jornais, foi um tribunal a explicar isso a um indivíduo que é deputado do Chega, condenando-o por causa de uma acusação falsa contra um adversário político. Ao conhecer a decisão do Tribunal de Cascais, que o obriga a repor a verdade em relação a Francisco Louçã, o deputado não comprovou a acusação nem desmentiu a falsidade. Citado pelo Correio da Manhã, disse: “Viva a liberdade de expressão.”
A liberdade de expressão pode, de facto, permitir uma grande amplitude de imputações. Pode até considerar-se que, em relação a figuras públicas, é admissível – e até pode ser bem-vinda – uma adjectivação assaz contundente. Não é, todavia, legítimo tramar, atribuindo a seja quem for o protagonismo de factos falsos. Nem por causa de uma vingança, nem por conta de um ataque político. A mentira enfraquece sempre a respirabilidade do espaço público. Fortalecendo a desconfiança geral, é a própria ideia de liberdade de expressão que asfixia.










