O que é que uma rapariga iraniana condenada à morte, uma homilia proferida numa pequena capela de Lisboa e Platão têm em comum? À primeira vista pode ser difícil de perceber, mas na verdade têm tudo, sendo o aluno de Sócrates o denominador comum.
Em 2007, Reyhaneh Jabbari tinha 19 anos quando foi alvo de uma tentativa de violação que a levou a matar o atacante em legítima defesa, embora sem sequer se aperceber naquele momento de que este iria morrer. O instinto foi fugir, cruzando-se à porta com um segundo homem que talvez se preparasse para ser um segundo abusador.
Os sete anos seguintes da vida de Reyhaneh foram passados na prisão e marcados por tortura e um julgamento recheado de contradições e pressões que culminaram numa condenação à morte em 2009. Seguiu-se uma longa espera no corredor da morte, enquanto a família lutava dentro e fora do Irão por justiça e clemência.
Na realidade, todo o processo expôs a parcialidade do funcionamento de um sistema jurídico patriarcal onde a honra masculina vale mais que a vida de uma mulher. Trocando por miúdos: a lei de Qisas (lei da retaliação, a vingança de sangue) coloca nas mãos da família do homem morto o poder de perdoar ou exigir a execução. Como na lei de Talião, contida no antiquíssimo Código de Hamurábi, na Babilónia de 1770 a.C : olho por olho, dente por dente e por aí fora, a não ser que a pessoa a quem cabe aplicar esse superpoder de tirar uma vida se abstenha e, em vez disso, escolha a clemência.

Reyhaneh: não te preocupes, eu estou livre por dentro, nesta verdade, não são estes muros que me cercam que me aprisionam. Foto retirada do trailer do documentário.
Ao fim de muitos esforços da família e de muitas conversas da mãe com a mulher e o filho mais velho do homem morto – era o primogénito que iria ter a última palavra – Reyhaneh foi confrontada com uma escolha, a verdade ou a sobrevivência. Para escapar à forca, teria de admitir que mentiu sobre a tentativa de violação. Perante a recusa da jovem, o filho preferiu dar um pontapé no banco da forca e, na sua perspetiva, lavar assim a honra do pai.
É aqui que entra a tal homilia, ouvida dois dias depois de ter visto o documentário sobre Reyhaneh na pequena capela do Hospital de Santa Marta, despojada de paramentos dourados, mas rica em sabedoria e humanidade.
De olhos fechados, o padre António Pedro Monteiro falou sobre a Verdade como iluminação do Bem, ao mencionar o escárnio e humilhação exercidos sobre Jesus por soldados e outros, que lhe perguntaram directamente “se és Deus, porque não te salvas a ti mesmo?”. Ao comum dos mortais seria óbvio querer “salvar a pele”, é um instinto biológico, mas o propósito não era salvar-se a si mesmo no sentido de corpo, era salvar a sua existência sim, mas num propósito muito maior, no de uma existência para além do orgânico, era salvar aquela Verdade de que estava imbuído. Para alcançar o Bem.
Não era “safar-se”, nas palavras do celebrante.
Tal como Reyhaneh. Como poderia “safar-se”, se tal a iria aprisionar para sempre numa inverdade? Como disse numa carta à mãe, não te preocupes, eu estou livre por dentro, nesta verdade, não são estes muros que me cercam que me aprisionam. Mais ou menos assim.
E é aqui que entra Platão como denominador comum, com os seus arquétipos do Bem, da Justiça e do Belo. Platão chama justiça ao estado em que cada um cumpre a função que corresponde à sua natureza, e o conjunto vibra como um organismo saudável. Justiça não é apenas cumprir leis, é participar numa ordem viva, e tal não foi o que foi aplicado a Jesus, nem a Reyhaneh. Mas foi essa Justiça maior que ambos escolheram.
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Querida Sholeh, não chores pelo que estás a ouvir, escreveu Reyhaneh à mãe, quase no final. Foto: pormenor do cartaz de apresentação do documentário.
Do primeiro, sabemos que foi a intransigência na sua verdade que lhe permitiria revelar o Bem, o qual torna todas as outras formas inteligíveis e desejáveis e que ainda alimenta muita gente mais de dois mil anos depois. Da segunda ficou a saber-se que uma jovem comum também pode ter essa mesma intransigência, talvez não porque a tenha aprendido como um ensinamento cristão ao qual aparentemente não teve acesso, mas porque a apreendeu como arquétipo, o qual existe além de qualquer apropriação humana.
Aqui, a intransigência é a expressão da Justiça, é fazer o que está certo, o que cabe, independentemente dos interesses individuais, que nos dois casos eram interesses vitais, consistiam na própria sobrevivência. Mesmo perante a dor terrível de ambas as mães, na iminência da mais dilacerante e anunciada perda das suas vidas. “Querida Sholeh, não chores pelo que estás a ouvir”, escreveu Reyhaneh à mãe, quase no final.
Felizmente, nem todos temos marcos tão extremos na vida que nos exijam decisões tão difíceis, tal seria insuportável para a maioria, mas todos temos momentos quase no quotidiano em que face ao stress, às dificuldades e às pressões somos obrigados a escolher entre ser justos ou apenas “safar-nos”.
E essa escolha define-nos e pavimenta o resto da nossa existência.
Sobretudo, ou não despiciendo, nesta época de pós-verdade em que parece que nenhum daqueles arquétipos consegue ter um amplo eco entre as pessoas, estes exemplos são de maior importância.
É fácil? Não. Faz parte de uma luta diária.
(o documentário citado intitula-se Sete Invernos em Teerão e foi feito por uma cineasta alemã com vídeos pessoais gravados secretamente e fornecidos pela família de Reyhaneh, juntamente com depoimentos seus, cartas escritas na prisão e outros arquivos)
Título: Sete invernos em Teerão (Sieben Winter in Teheran)
Realizadora: Steffi Niederzoll
Tipo: Documentário, 97 min, 2023
Fátima Moura da Silva é jornalista e autora.










