A lição de Merkel

| 21 Fev 20

As eleições de Outubro de 2019 na Turíngia, estado da antiga República Democrática Alemã, ditaram um resultado que se vislumbraria difícil de solucionar. A esquerda do Die Linke ganhou as eleições, seguida da direita radical da Alternativa para a Alemanha (AfD) e da União Democrata Cristã (CDU), de Angela Merkel. O Partido Social-Democrata (SPD), não foi além dos 8,2% e os Verdes e os Liberais (FDP) ficaram na casa dos 5%.

Sabemos bem que a fragmentação partidária e o declínio de alguns partidos tradicionais não são uma realidade nova na Europa. No entanto, estas eleições vieram a verificar-se importantes para o atual cenário político na Alemanha, que devemos observar com atenção. Isto porque, pela primeira vez, foi rompido o cordão sanitário à AfD. A CDU, os liberais e o partido da direita radical aliaram-se para eleger Thomas Kemmerich (FDP) como chefe de governo daquele Estado Alemão.

Na sequência desta solução política, Angela Merkel rapidamente reagiu dizendo tratar-se de um “acto imperdoável” do seu partido. Kemmerich apresentou inclusivamente, pouco tempo depois da eleição, a sua demissão. O estado do Leste alemão irá a eleições novamente.

Num contexto europeu onde rapidamente se condenam alianças políticas entre partidos moderados e partidos radicais, e bem, creio que importa realçar quando certos líderes deixam claro que o caminho se faz com os democratas. E aqui não estamos perante uma líder qualquer, mas sim aquela que foi – e ainda é – uma das caras da Europa durante largos anos, e em momentos, quase sempre, difíceis.

Merkel não tem tido grandes jogos de palavras para fugir à questão. É momento de ser-se claro. No passado mês de dezembro, em visita ao campo de concentração de Auschwitz, a Chanceler disse: “Auschwitz era um campo alemão, gerido por alemães. É importante para mim referir esse facto. É importante nomear os perpetradores. Nós, os alemães, devemos isso às vítimas e a nós próprios. (…) Sinto uma profunda vergonha perante os crimes bárbaros que aqui foram cometidos por alemães, crimes que ultrapassam os limites de tudo o que é tangível. (…) Não se trata de retórica. Nos dias que correm, é necessário dizer isto claramente. Estamos a assistir a um nível de racismo preocupante, de intolerância crescente e a uma onda de crimes de ódio. Estamos a assistir a um ataque aos valores fundamentais da democracia e a um revisionismo histórico perigoso.” (citação retirada da página Comunidade Cultura e Arte).

Saber liderar um país europeu desta relevância é saber não deixar cair os ideais fundamentais, mesmo que a maré eleitoral pareça não ajudar. Os erros, sobretudo no contexto da União Europeia, terão sido vários. Ou não nos lembrássemos nós dos momentos difíceis por que passámos na sequência da crise das dívidas soberanas ou da crise migratória.

Mas acredito que é com propostas concretas e pensadas que a Europa continuará a liderar o Mundo a nível do bem-estar da sua população, e não é com discursos estéreis que procuram fomentar o medo e a polarização que essas propostas aparecem. Importa, de facto, traçar a linha.

Com o fim de ciclo à vista, e no atual contexto, importa realçar estas palavras e tomadas de posição da Chanceler alemã. Enquanto figura política, Merkel foi, ao longo dos anos, um garante de estabilidade e de calma, que tanta falta faz nos dias de hoje. Há e sempre haverá políticos que, ao procurarem deixar obra e serem lembrados, tocam, por vezes, a linha de alguma megalomania e soberba. O projeto europeu é, por definição, algo que vai contra isso, enquanto fórum cooperativo e balança entre várias forças distintas, onde destacar uma personalidade líder quase sempre fracassa. É por este e outros motivos que o equilíbrio, a previsibilidade e até mesmo e por vezes o recato são importantes. Sem se deixar de ser firme na defesa dos valores democráticos, ou do Estado de Direito e Social quando é necessário.

Creio que várias pessoas podem jurar a pés juntos que não terão saudades. Ainda assim, da minha parte, custa-me, hoje, pensar numa Europa melhor sem Merkel do que com Merkel.

 

João Catarino Campos é estudante de Economia no ISEG – Lisbon School of Economics and Management e vice-presidente da comissão executiva do Conselho Nacional de Debates Universitários. Contacto: joaopccampos24@gmail.com

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