Vivemos tempos muito difíceis, marcados por guerras, crises climáticas, desigualdades económicas e divisões políticas radicais, os quais geram mais desconfiança e violência a todos os níveis. Impulsionadas pelas redes sociais e pelas crises económicas, essas bipolarizações extremas, tanto políticas como sociais e culturais, têm dado origem a violentos debates sobre migração, direitos humanos e poder, corroendo o tecido social e tornando o diálogo quase impossível. Perante estes cenários, e não esquecendo obviamente a relevância da voz profética da Igreja no quadro actual, é necessário, mais do que nunca, munirmo-nos de uma linguagem da misericórdia de Deus, que nos capacite para compreendermos melhor a real dimensão do Reino tão desejado por Jesus.
Essa linguagem divina, através da qual Deus se comunica e se deixa reconhecer no decurso da história humana, está impressa profundamente na vida de Jesus. Naquele evento fundacional do Seu ministério, Jesus, sem quaisquer ambiguidades e impelido pelo Espírito, prenuncia o coração dessa linguagem do Reino: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (Lucas 4:18-19). Vemos depois toda a vida de Jesus como uma autêntica manifestação desse amor tão profundamente intenso marcado especialmente na vida dos que sofrem, dos injustiçados e dos pobres: deles é o Reino. Esse amor misericordioso, que pertence à própria essência da mensagem do Reino – parafraseando Orígenes de Alexandria, “Jesus é o Reino em si mesmo” – e que condensa o amor infinito do próprio Deus, indica a cada um de nós que acolher e praticar a misericórdia é a condição sine qua non para experimentar e partilhar a misericórdia do Pai.

Bartolomé Esteban Murillo (1618-1682): O Regresso do Filho Pródigo. National Gallery of Art, Washington DC”: O Reino desejado por Jesus é um convite a viver a história através de uma nova perspectiva, deixando que o amor misericordioso de Deus transforme o nosso coração e as nossas relações uns com os outros.”
É notório que esse Reino anunciado por Jesus não se identifica com quaisquer poderes políticos, violência e opressão, mas antes com uma vida plena de amor, paz, justiça e verdade. E esse Reino tem um rosto concreto, tantas vezes incomodativo e ostracizado por uma sociedade marcada pelo individualismo vicioso e pelo egoísmo, que é o rosto dos pobres, dos famintos, dos migrantes, dos sem-terra, dos refugiados e vítimas dos horrores da guerra. A esses, Jesus dá voz, dignidade, inaugurando o ano aceitável do Senhor, rebelando-se contra todas as estruturas de exclusão e indiferença. A linguagem da misericórdia pode por vezes ser perigosa e ambígua, como o afirmam José Antonio Pagola e Xabier Pikaza, no seu livro Entranable Dios Las obras de misericordia hacia una cultura de la compasion:
“Pode sugerir um sentimento de compaixão e ficar reduzida a ter um coração compassivo, sem o acompanhamento de um compromisso prático; pode ficar-se por fazer «obras de misericórdia» num momento ou noutro, sem abordar as causas concretas do sofrimento e das injustiças; pode entender-se como uma atitude paternalista face às necessidades de alguns indivíduos, sem reagir perante uma sociedade que funciona de maneira desumana.”
O Reino desejado por Jesus é um convite a viver a história através de uma nova perspectiva, deixando que o amor misericordioso de Deus transforme o nosso coração e as nossas relações uns com os outros. Nesse sentido, os seus discípulos são chamados a “traduzir” essa linguagem concretamente através de actos de justiça, fraternidade e acolhimento ao próximo. E isso tem implicações tremendas, provocando autênticas metanóias na maneira como vemos Deus. Há que desconstruir, como dizia o padre e teólogo José Maria Mardones, todas as imagéticas negativas acerca de Deus: O nosso Pai não é um juiz severo, mas um amoroso e misericordioso. As consequências práticas não deixarão de ter implicações na vida dos discípulos de Jesus e na construção do Seu Reino, que é também um constante “já aqui”, exigindo sérios compromissos com os mais fragilizados, com a justiça, a paz e reconciliação.
Disso nos fala o teólogo Miroslav Volf na sua obra Exclusion and Embrace: A Theological Exploration of Identity, Otherness, and Reconciliation, ao favorecer uma teologia pública através da qual o Reino de Deus se manifesta em práticas de justiça, misericórdia, solidariedade para com os mais fracos, pobres e excluídos da nossa sociedade. Urge, pois, que os discípulos de Jesus aprendam a comunicar com o mundo pela linguagem da misericórdia, contribuindo assim para edificar o lugar onde Deus se faz visível nesse amor que de ninguém desiste, e que abre caminhos para a verdadeira transformação da Igreja e de um mundo que tão sedento está dessa misericórdia.
Vítor Rafael é doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. Email: vitor.rafael@edu.ulisboa.pt
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










