A linguagem do mal de Trump

| 4 Mar 2024

Uma forma de falar está a infestar a nossa política que é insultuosa tanto para o sujeito como para o ouvinte.

assalto ao Capitólio, EUA

“E não é só Trump que está a sujar as ondas hertzianas. Demasiados políticos republicanos estão infectados com a atitude diabólica que se infiltra nos comícios de campanha de Trump. O seu desrespeito pelas pessoas constitui agora um discurso público aceitável.” Foto: Assalto ao Capitólio dos EUA. Reproduzida do Twitter.

 

Será que alguém quer mesmo ver as notícias hoje em dia? Gaza. Israel. Rússia. Ucrânia. Migrantes. Tiroteios em massa. Execuções. Tragédia após desastre, após colapso, após fracasso.

E depois há o Sr. Trump.

A retórica bombástica do ex-Presidente dos Estados Unidos pouco faz para acalmar os nervos de qualquer consumidor de notícias. Nem melhora a visão que o mundo tem da política dos EUA ou do seu carácter moral.

No entanto, a fanfarronice de Trump é apenas uma parte do que ele trouxe à nossa política. Há uma forma de falar que infesta a política, os media e até as conversas privadas que é insultuosa tanto para o sujeito como para o ouvinte.

A linguagem de Trump é a linguagem do mal.

Vimo-lo e ouvimo-lo (entre as idas ao tribunal) a ridicularizar a OTAN/NATO, o serviço militar e todo o sistema de justiça dos EUA com termos e expressões faciais depreciativas.

E não é só Trump que está a sujar as ondas hertzianas. Demasiados políticos republicanos estão infectados com a atitude diabólica que se infiltra nos comícios de campanha de Trump. O seu desrespeito pelas pessoas constitui agora um discurso público aceitável.

Os republicanos da Câmara e do Senado denegridem rotineiramente os seus colegas legisladores e adversários políticos. De acordo com o The New York Times, os membros republicanos do Congresso fazem eco das posições intolerantes do seu presumível candidato, uma vez que “usam uma retórica que denigre as pessoas com base na etnia, religião ou nacionalidade”.

O vírus do desrespeito espalhou-se. Os sites das redes sociais estão repletos de linguagem grosseira e comentários maldosos. Estranhos agem de forma desdenhosa uns com os outros. As pessoas em posições de poder rebaixam as outras de forma mais evidente. As engrenagens individuais dos sistemas e das organizações esmagam habitualmente os indivíduos.

A linha divisória não é apenas a etnia, a religião ou a nacionalidade. Qualquer “outro”, real ou aparente, é um alvo justo. E embora toda a gente sofra, as mulheres são as que mais sofrem. Embora as mulheres enfrentem insultos e perigos diários, desde o assédio verbal à violação, também se deparam com reacções passivo-agressivas sempre que tentam participar no trabalho ou na sociedade.

A Igreja não é diferente. Pergunte-se a qualquer mulher que tenha escrito ao seu bispo ou pároco sobre um problema da sua paróquia e, muito provavelmente, ela dirá que foi ignorada. Não importa se ela pergunta o que aconteceu ao dinheiro da última iniciativa de angariação de fundos ou porque é que não há um conselho paroquial ou onde (ou mesmo quando) terá lugar a reunião do sínodo. Ela sofre um desrespeito eclesial ativo e passivo no âmbito de uma atmosfera crescente de desrespeito geral pela pessoa.

Os bispos católicos dos Estados Unidos dizem que a sua “prioridade preeminente” é o aborto e nas suas declarações alargam o seu interesse à vida humana. É claro que os bispos respeitam genuinamente toda a vida humana, mas como corpo parecem estar cada vez mais unidos às políticas trumpianas e, de forma implícita, à retórica trumpiana.

Os exemplos surgem por todo o lado. Quando o letreiro de néon de uma paróquia grita “Farto da cultura woke? Nós também”, a necessidade de separação entre a Igreja e o Estado ganha um novo significado.

Quem está a pregar dentro dessa igreja? Será a deputada Marjorie Taylor Greene, da Geórgia, que disse na Câmara dos Representantes dos EUA que queria censurar “a deputada Ilhan Omar, da Somália – quero dizer, do Minnesota”? Ou será que o pregador dessa semana seria o senador do Arkansas Tom Cotton, que, durante uma audiência da Comissão Judiciária do Senado, perguntou ao diretor executivo do TikTok, de Singapura, se era chinês, se tinha passaporte chinês ou se era membro do Partido Comunista Chinês?

A linguagem preconceituosa privada no Congresso é, alegadamente, pior.

Quando políticos presumivelmente educados e responsáveis falam como se estivessem a pregar num banco de bar à meia-noite, o que é que o resto de nós pode fazer para afastar a difamação furiosa de uma pessoa ou pessoas de qualquer outro púlpito de que possamos estar perto?

Os votos podem exorcizar o Congresso, mas será que isso vai acontecer? O problema é que demasiados eleitores parecem gostar da linguagem.

Noutros lugares, há quem se afaste calmamente.

 

Phyllis Zagano integrou a Comissão para o Estudo do Diaconado das Mulheres (em 2016-2018). É investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova Iorque, e o seu livro mais recente é Just Church: Catholic Social Teaching, Synodality, and Women (Paulist, 2023) [Igreja justa: ensino social católico, sinodalidade e mulheres]. Este texto foi inicialmente publicado em Religion News Service.

 

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