“A longa viagem começa por um passo”, recriemos…

| 25 Jan 2022

Ben Lugamba. The Mother. Mãe

The Mother (A mãe), ilustração © Ben Lugamba, cedida pelo autor.

(Por causa de um problema informático, este texto saiu sem os dois parágrafos finais, na primeira versão; por isso repetimos aqui a publicação.)

Inicio o meu quarto ano de uma escrita a que não estava habituada, a crónica jornalística. Nos primeiros três anos escrevi sobre a interculturalidade. Falei sobre o modo como podemos, por hipótese, colocar as culturas moçambicanas e portuguesa a dialogarem. Noutras vezes, inclui a cultura judaica, no diálogo com essas culturas.

De um modo geral, tenho-me questionado sobre a cultura, nas suas diferentes manifestações: literatura, costumes, comportamentos sociais, práticas culturais, modos de ser, de estar e de fazer. Hoje a indagação é sobre a adequação cultural de algumas posturas públicas em Moçambique.

Sempre abordo a cultura numa perspectiva valorativa, baseada no princípio da relatividade cultural e ainda na ética dos Estudos Culturais, a partir da ideia de que a cultura deve ser analisada de modo descritivo, tal como afirma Clifford Geertz. E do discurso deste autor, depreende-se, também, que há que fazer-se a interpretação das culturas de modo reflexivo.

Descrever é um acto que não carece de explicação. Mas reflexão, na acepção do termo necessário para o entendimento do presente texto, vai além da descrição ipso facto e da relatividade cultural porque, como tenho dito, na análise de culturas, o que é nocivo ou o que fere a dignidade cultural, deve ser descontinuado e substituído por um equivalente, menos danoso, mas com a mesma função.

Esta conversa vem a propósito de se verificar, na sociedade moçambicana, a utilização de togas ou de becas em cerimónias de passagem de crianças da creche para a escola primária. Melhor dizendo, essas togas ou becas são vestidas a crianças nas cerimónias a que se tem designado “de graduação”. Não é que isto seja nefasto, mas julgo precisar de uma desconstrução mais ajustada ao assunto em causa.

Ora, se graduação se refere ao ensino superior, que razão existe para utilizar-se o mesmo nome na transição de um grau diferente? Como, por exemplo, designar de cerimónia de graduação a passagem da criança do infantário, para o pré-escolar ou para o ensino primário básico? Mais do que isso, que razões existem para vesti-las, nessa cerimónia, com togas ou becas, que na cultura ocidental são reservadas a magistrados ou professores catedráticos? Será que não haverá outro modo mais ajustado a esse ritual de passagem? Quanto é que custa uma reinvenção? uma adaptação? um ajuste de um ritual às condições próprias?

Na nossa sociedade, as limitações não param por aí. Escrevo o presente texto num dia de intenso calor, no qual ninguém escapa à transpiração e verifico que a televisão passa excertos de um famoso julgamento no qual os magistrados se apresentam de fato, gravata e toga. As imagens que são passadas não são simpáticas, por mostrarem os magistrados a transpirarem. Mau aspecto, para aquilo que à comunicação social diz respeito, pois ela vive de imagens estéticas pré-construídas. Não é por acaso que, quando se vai a um canal televisivo, antes de intervir em qualquer que seja o programa, antes da sua prestação, o indivíduo é sujeito à um prévio tratamento estético, nem que seja apenas uma aplicação de uma base de maquiagem, para diminuir os brilhos no rosto.

Espanta-me a nossa falta de capacidade de inovar ou de reintegrar determinado hábito, em função da nossa cultura. Espanta-me a falta de estabelecimento de um diálogo nesse sentido, num país em que na época quente e chuvosa, chega-se aos 42/43 graus de temperatura. Nesse contexto, qual é a razão para não tornarmos esta cultura mais dinâmica e mais ajustada à saúde física e mental dos cidadãos? Qual é a razão para não se instituírem novos costumes? – questiono-me. Chega a ser um sufoco assistir a essa desnecessária tortura.

Estes dois exemplos recordam-me um outro do qual nos livrámos, julgo que em função da pandemia da covid-19, que interditou ajuntamentos de pessoas.

Refiro-me a uma prática institucionalizada há uns anos, em instituições públicas. Assistia-se a uma imitação ou transferência do que é comum fazer-se em cerimónias tradicionais caseiras, como as do xitique ou ku xlomula mamani...

Nessas cerimónias, os participantes usam roupas feitas do mesmo padrão de capulana (uma farda). Antes de sermos acometidos pelas restrições da covid-19, funcionários de instituições públicas tinham passado a adoptar uma postura de, em determinados eventos laborais, sobretudo aqueles nos quais participasse um político de grande vulto, vestirem-se todos de roupas feitas do mesmo padrão de capulana, à semelhança dos eventos que acabei de referir. Repetidas vezes assistia-se a isso na televisão e sempre me questionei sobre a razão da transferência desse hábito caseiro, para um fórum público.

Um colega meu de trabalho aventou a hipótese de se tratar de uma transferência que advém do facto de, muito facilmente, nas instituições públicas haver o hábito de “pessoalizar” o atendimento público. Ao ponto de dar privilégios aos familiares e conhecidos do atendedor. Ou seja, levianamente, um funcionário público assume como próprios os poderes de atendimento público, a ponto de decidir como e quando atender a um cidadão, não se coibindo de dar privilégios a quem desejar. Quer dizer, o lugar que ocupa é assumido como pertença particular e não pública. Essa atitude leva a que, se tiver que solicitar o apoio de um colega para atender a um conhecido ou familiar seu, diga, sem pudores, que pede uma atenção especial, por se tratar de um familiar ou parente; pelo que o atendimento não é o mesmo que adoptaria perante qualquer outro cidadão. É nessa sequência que o meu colega afirma que, com esse comportamento, pode-se facilmente transferir os modos de fazer caseiros ou de fórum doméstico, para os modos de fazer públicos, sem receio algum.

O que a mim me parece é que o “nosso jeito moçambicano” de acolher e de nos sentirmos facilmente próximos de alguém, ainda que seja um desconhecido, é o que leva a parte dos comportamentos do tipo que acabei de narrar. Quem é que não se recorda da famosa expressão de acolhimento aos portugueses à sua chegada à Inhambane: bhelani khu myumbani, ie, “entrem para dentro da casa”? Se facilmente um desconhecido pode entrar nas nossas casas, não haverá, certamente, dificuldade em transformarmos os nossos escritórios e os procedimentos de trabalho público em privado. A fronteira se torna ténue, mas a primazia deverá ser sempre a de um atendimento público e de um bom serviço público. Além disso, a apropriação pública das tradições privadas, banaliza-as e não parece trazer qualquer benefício para o serviço público.

Há um longo trabalho a fazer-se, na adequação de práticas, em função de cada evento, mas há necessidade de nos pormos a caminho. A longa viagem começa por um passo…

 

Sara Jona Laisse é docente de Técnicas de Expressão na Universidade Católica de Moçambique e membro do Graal (Movimento Internacional de Mulheres Cristãs) em Maputo. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

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