“Rostos de uma Barragem”

A longa viagem de uma identidade coletiva

| 2 Ago 2022

No sábado passado, 30 de Julho, foi apresentado no Barrocal do Douro (Picote), o livro Rostos de uma Barragem, o Álbum de Telmo Ferraz. A obra, coordenada por Henrique Manuel Pereira, reproduz um álbum de cerca de 200 fotografias, a preto e branco, na sua esmagadora maioria da autoria do padre Telmo Ferraz e por ele legendadas. Retrata a realidade da barragem de Picote, a primeira do Douro Internacional, iniciada em 1954 e inaugurada em 1958, um marco da engenharia e arquitectura portuguesa da época e um contributo para a industrialização do país. Este empreendimento está atualmente classificado como conjunto de interesse público, um dos raros exemplares da Arquitectura Industrial Moderna Portuguesa.

Telmo Ferraz, que foi padre da Obra da Rua/Casa do Gaiato, publicou O Lodo e as Estrelas, no qual falava da vida dos operários e foi apreendido pela PIDE. Em Rostos de uma Barragem, ele retrata as “pessoas de carne e osso” que contribuíram para a edificação daquela importante obra de engenharia e arquitectura.

Na apresentação do livro, promovida pela Alforria e pela Frauga – Associação para o Desenvolvimento Integrado de Picote, participaram, além do organizador da obra e do autor, também vários responsáveis de associações e estruturas locais, além do actual arcebispo de Braga (e que foi bispo de Bragança-Miranda até há poucos meses), José Cordeiro.

As imagens do livro são acompanhadas por excertos de O Lodo e as Estrelas em versão bilingue (português/mirandês). Pela importância deste documento social e histórico, o 7MARGENS reproduz a seguir o texto introdutório de Henrique Manuel Pereira.

“Uma aura de autenticidade emana deste conjunto fotográfico. Alguns dos protagonistas parecem olhar-nos a pedido, outros surpreendidos no instantâneo dum tempo muito curto de exposição.”

A fotografia não rememora o passado (não há nada de proustiano numa foto). O efeito que ela produz em mim não é o de restituir aquilo que é abolido (pelo tempo, pela distância), mas o de confirmar que aquilo que vejo existiu realmente.
Roland Barthes

Rostos de uma Barragem reproduz um álbum de cerca de 200 fotografias, a preto e branco, na sua esmagadora maioria da autoria do Padre Telmo Ferraz e por ele legendadas. Retrata a realidade da barragem de Picote entre os inícios da sua construção e inauguração (anos 1954-1959). Irradiação de vida e de memória, configura um documento social e histórico.

Telmo Ferraz, próximo dos 97 anos de idade, é natural de Bruçó, Mogadouro. Nos anos 1950 foi capelão da barragem de Picote, desenvolvendo um extraordinário trabalho pastoral e humanitário junto dos operários. Dessa experiência resultou O Lodo e as Estrelas (1960), lançado a público em finais de junho de 1960, em corajosa edição de Autor impressa em Braga e com prefácio de F. Videira Pires. Pungente e incómodo, ilustrado com 41 desenhos e capa de Maria de Lourdes Chichorro Rodrigues, o livro foi apreendido pela PIDE [polícia política do Estado Novo]. Sem que o seu autor o pretendesse ou previsse, O Lodo e as Estrelas deu-lhe a imortalidade simbólica.

Assim, não se estranhará que Rostos de uma Barragem, o Álbum de Telmo Ferraz seja pontuado por passagens da 1ª edição de O Lodo e as Estrelas em versão bilingue (português/mirandês). Não é uma subordinação da palavra à imagem, no sentido do que, há décadas, circula como um dogma, defendendo que uma imagem vale mais do que mil palavras. Desnecessário será contrapor o seu contrário como igualmente verdadeiro.

A figuração do mundo adota aqui um registo de fotografia documental. Todavia, pela sua natureza, a fotografia é seletiva e incompleta. Incapaz de condensar toda a complexidade e multiplicidade do real, é uma versão parcial e fragmentada da realidade. Aqui, um palco de tragédias íntimas e públicas, uma certa humanidade escondida. Ali, paredes meias, um outro mundo, uma “cidade ideal”, um património imaterial e arquitetónico celebrizado como moderno escondido.

Dir-se-ia que, em Rostos de uma Barragem, um capelão, algures nos confins das fragas transmontanas, “trava”, na expressão de F. Videira Pires, “o diálogo, profundo e necessário, com as máquinas, os camiões que passam, as gruas que rangem, os fraguedos que desabam, os zimbros agressivos, as estrelas, o vento, os farrapos, as lágrimas, os casebres, os operários, as crianças, as mulheres, os mendigos, as prostitutas, as grossas dores, as poucas alegrias”. E os sacos de papel, as frinchas, o contraste do frio áspero e cortante com o calor de fornalha, o Douro bravo, torrencial, a paisagem ciclópica, agreste, inóspita.

Não se trata de romantizar a pobreza, mas de a denunciar, de ser, na humilde medida do possível, “o dedo que aponta”. Uma aura de autenticidade emana deste conjunto fotográfico. Alguns dos protagonistas parecem olhar-nos a pedido, outros surpreendidos no instantâneo dum tempo muito curto de exposição. As palavras simples com que Telmo Ferraz guarda e eterniza os mínimos instantes têm textura de drama e de oração. Também assim as imagens e algumas das legendas manuscritas.

Uma boa fotografia não é necessariamente uma bela fotografia. O olhar pessoal e subjetivo, além da temática predominante, desaconselha análises técnicas, racionais ou mesmo estéticas. Atenta à poética do espaço, a objetiva (ou “caixotinho”) interessa-se sobretudo pelas pessoas. Há uma antropologia aqui a perscrutar.

capa Rostos de uma Barragem Telmo Ferraz

Rostos de uma Barragem, o Álbum de Telmo Ferraz é um “álbum de família”.

Sequenciada em blocos temáticos – trabalhos, habitação, trabalhadores, família, ação pastoral, colónias de férias –, a narrativa de Rostos de uma Barragem não é convergente com o álbum original, composto por 44 folhas cartonadas de 21×30 cm presas por um atilho. Privilegiámos a informação em detrimento dos cânones de qualidade, cabendo neste critério o que julgamos serem provas de contacto e, com particular satisfação, as imagens em que inadvertidamente se projeta a sombra do fotógrafo. Do conjunto original excluímos as fotografias que se afastam do genius loci, guardam momentos particulares, como casamentos e batizados ou configuram presumíveis ofertas posteriores.

A palavra encontra o seu contexto e ilumina-se; a imagem dá forma à palavra de O Lodo e as Estrelas. Ambas contra o esquecimento de destinos e rostos. A memória escreve no vento; a palavra e a imagem fazem o milagre das raízes.

“Ora isto, Senhores” – diria António Nobre – “deu-se em Trás-os-Montes”, ali por Picote, Miranda do Douro, em terras desse Reino Maravilhoso de que nos falou Torga. Mas olhar este passado não é olhar para trás, é olhar para a frente e mais alto, é a articulação simultânea do passado, do presente e do futuro.

Rostos de uma Barragem, o Álbum de Telmo Ferraz é um rosto plural e, todavia, radicalmente singular. Um rosto que não consente nome porque em nenhum se diz. Um rosto que nos habita como um indistinto rumor, personagem secundária, mas essencial à longa viagem de uma identidade coletiva. Este livro é, pois, um álbum de família.

Une-me a Telmo Ferraz uma amizade maior do que qualquer palavra. Não direi privilégio – vocábulo de efeito, gasto, delido, emudecido, sem vibração, de tão mentirosamente debitado ou escrito em textos de circunstância. Entendo-o como da ordem do dom ou da bênção. Não sendo novidade para ele, gostava que fosse confirmação.

Creio não ter a acrescentar ao seu retrato nada que não seja folhagem inútil. Como adiante afirmo, “o que quer que sobre ele diga ou escreva deixa-me sempre a impressão de ficar no limiar de algo profundo ou muito alto”. Mesmo o mosaico de testemunhos, de distintas idades e geografias, inscritos em O Homem que do Lodo Fez Estrelas é esforço inacabado, aproximação sem ponto de chegada, retrato provisório. (clicar nas setas em baixo para ver a galeria fotográfica)

À pluralidade de leituras trans e interdisciplinares que aqui se oferecem, aditamos o nome dos estúdios fotográficos que, em número desigual, revelaram e imprimiram as fotos deste álbum: “Foto Imperial – Porto fevereiro 1957”, “Foto Alves – Chaves”, “Marius – Vila Real”, “Peixe – Moncorvo” e, sobretudo, “Bazar Foto Amador – Porto”, com datas de abril, junho, agosto de 1958 e janeiro de 1959; também a “Foto Império – Luanda”. São dados que autorizam várias especulações. Que máquina ou “caixotinho” as tirou? Qual a sensibilidade dos rolos? Há́ mais do que uma grafia nas legendas do verso de certas fotos. Quem as escreveu? Em que data foi montado o álbum?

Temos em mãos um trabalho de equipa. Por conseguinte, como quem desafia a usura do tempo e porque é justo e necessário, quero manifestar a minha gratidão à Margarida Baldaia e ao Pedro Cascalheira, pela cumplicidade de sempre; a António Bárbolo Alves, a pronta e competente tradução dos textos para mirandês; a Jorge Jacoto Lourenço, o entusiasmo e a mediação junto das entidades patrocinadoras que tornaram possível este Rostos de uma Barragem, o Álbum de Telmo Ferraz. A todos e a cada uma destas, a nossa gratidão.

 

Henrique Manuel Pereira é professor da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa (Porto)

 

 

Rostos de uma Barragem, o Álbum de Telmo Ferraz
Organização de Henrique Manuel Pereira
Ed. Alforria, 2022; 252 págs., 30 €

Pedidos/encomendas:
FRAUGA, Associação para o Desenvolvimento Integrado de Picote
Rua de la Peinha de l Puio
5225-072 Picuote – Miranda de l Douro
frauga@gmail.com
Tlm. 918 216 168

Papelaria Andrade
Rua Mouzinho de Albuquerque
5210 Miranda do Douro
Tel. 273 431 421

 

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