A loucura do antissemitismo

| 17 Dez 2023

Foto: museu judaico de Belmonte

 

Inicio esta crónica com palavras roubadas ao historiador Paul Johnson, escritas num dos seus ensaios sobre os judeus: “Há uma irracionalidade inata na febre do antissemitismo: contradizem-se. Dizem que os judeus são exibicionistas, mas sigilosos. Que não se integram, mas que se imiscuem. Que são ultra-religiosos, mas não têm fé. Que odeiam a cultura, mas impõem a sua. Que evitam trabalhar, mas lucram demasiado. Que são miserabilistas, mas materialistas.”

É esta irracionalidade que atravessa a história deste povo que, de um modo genérico, define o modo de ser e estar dos judeus ao longo dos séculos. Contradições que persistem até hoje. Uma vida de êxodo e de diáspora, difamação, inquisição, campos de concentração e de morte, mas hoje agarrados, com unhas e dentes, ao seu torrão natal que é o Estado de Israel.

A guerra entre os radicais do Hamas contra o Estado judaico, a partir do fatídico dia 7 de Outubro, dá-nos oportunidade de saber um pouco da história dos judeus, depois de já termos conhecido os radicais terroristas do Hamas.

Revisitemos, a traços largos, a sua atribulada e dolorosa história, nomeadamente no nosso país, onde vivem já há muitos séculos.

Numa Península Ibérica cristã, Portugal e Espanha, unidos pela espada e pela cruz, o antissemitismo grassou no seu seio com toda a violência. Radica na acusação feita a este povo de terem assassinado Jesus Cristo, também ele judeu. Declarados nas orações oficiais da Cristandade, até há poucas décadas, como “os pérfidos judeus”, esta denominação foi alastrando pelos séculos fora. E, em 1492, levou mesmo os reis católicos de Espanha, Isabel I e Fernando II de Aragão, a expulsar os judeus dos seus reinos, por real decreto, numa vontade de unir a Espanha numa só fé e numa só religião. Árabes e judeus que viviam em paz foram expulsos, sem dó nem piedade, deixando os seus bens para trás. Uma boa parte emigrou para Portugal.

Aqui, não encontraram melhor sorte. Perseguidos pelo Tribunal da Santa Inquisição, criado por D. João III em Portugal em 1543, os judeus poderiam vir a ser presos e arderem nas fogueiras, após julgamento.

Expulsos de Espanha, no reinado de D. Manuel I, rei de Portugal, em 1496 os judeus que haviam saído de Espanha para o nosso país acabariam por ser igualmente expulsos de Portugal. Uma debandada que levou muitos sábios e homens de negócios para outras terras da Europa, África e Ásia. O antissemitismo dava os seus maléficos frutos, após a Reconquista destes territórios aos mouros.

Quando foram expulsos do nosso país, alguns judeus tentaram resistir e permanecer em Portugal, depois de terem manifestado a sua vontade de se virem a converter ao cristianismo. Chamados cristãos-novos acabariam por ser sujeitos à perseguição da Inquisição, no caso de serem apanhados a praticar os seus antigos rituais judaizantes ou de não se identificarem ou negarem os dogmas da Igreja Católica. Com a vinda dos judeus de Espanha para Portugal, calcula-se que a população da zona raiana do nosso país aumentou para o dobro. Belmonte, na Beira Baixa, longe dos centros do poder, é um dos exemplos onde os judeus, nos seus lares, às escondidas das autoridades, continuavam a praticar os seus ritos religiosos. Sobreviver era o lema para tentar fugir à contínua perseguição que a Inquisição lhes movia.

Recordemos que os judeus que foram expulsos do nosso país por D. Manuel I espalharam-se pelo mundo. São agora os descendentes desses judeus sefarditas que, nos últimos anos, têm requerido ao nosso país que os reconheça como cidadãos portugueses. Até este momento, muitos já obtiveram este título de cidadania e outros continuam a aguardar.

Apenas com o Marquês de Pombal, no reinado de D. José I (século XVIII), a perseguição aos cristãos-novos sofreu algum alívio. Pombal queria protegê-los dado que, com a sua riqueza, sobretudo do comércio do Brasil, estava nas suas mãos. Mas só após a Revolução Liberal de 1820, a Inquisição acabaria por se eliminada em Portugal em 1821.

Devemos ainda recordar o antissemitismo nazi que criou os campos de concentração para eliminar o povo judeu, como o de Auschwitz. Neste local, foram construídos crematórios para reduzir a cinzas milhões de judeus depois de os terem gaseado nos mortíferos chuveiros.

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário. Contacto: florentinobeirao@hotmail.com

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Festival D’ONOR: a cultura com um pé em Portugal e outro em Espanha

Este fim de semana

Festival D’ONOR: a cultura com um pé em Portugal e outro em Espanha novidade

Está de regresso, já a partir desta sexta-feira, 19 de julho, o evento que celebra a cooperação transfronteiriça e a herança cultural de duas nações: Portugal e Espanha. Com um programa “intenso e eclético”, que inclui música, dança, gastronomia e outras atividades, o Festival D’ONOR chega à sexta edição e estende-se, pela primeira vez, às duas aldeias.

Bonecos de corda e outras manipulações

Bonecos de corda e outras manipulações novidade

“Se vivermos em função do loop que as redes sociais e outros devoradores de dados nos apresentam, do tipo de necessidades que vão alimentando e das opiniões e preconceitos que vão fabricando, vivemos uma fraca vida. Essa será, sem dúvida, uma vida de prazo expirado, por mais que o dispositivo seja de última geração e as atualizações estejam em dia.” – A reflexão de Sara Leão

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This