As sociedades têm de ter este princípio base do BEM COMUM
(Marta Silva, no Partis, 26 de janeiro de 2024)

Corpoemcadeia é um projeto artístico de inclusão social que pretende levar a experiência da dança e do teatro a um grupo de reclusos, com idades compreendidas entre os 18 e 30 anos, em fase inicial do cumprimento da pena no Estabelecimento Prisional do Linhó. Foto Corpoemcadeia © Matilde Real
Manhã de 26 de janeiro de 2024.
Está um dia de sol. O caminho pelo jardim é sempre um bom começo. Apresso o passo pois sei que estou atrasada. O auditório está quase cheio e no pequeno palco alguém inicia a conferência de abertura. Para me sentar, passo frente a quem chegou a horas e tento ser o mais discreta possível.
Era o primeiro tempo do PARTIS (Práticas Artísticas para a Inclusão Social) de 2024 na Fundação Gulbenkian. O tema “Modelos de escuta e participação na cultura” desafiou-me a estar e ganhei esse tempo!
Faz um mês e só agora arranjei tempo para partilhar o que me encheu a alma.
Acho que ainda vou a tempo.
A primeira intervenção foi de Saad Eddine Said, co-diretor da iniciativa “Citizens in Power”, organização sem fins lucrativos do Reino Unido que procura codesenhar formas de os cidadãos liderarem a tomada de decisões e moldarem o futuro da sociedade.
A sua voz, a figura que quase dança no palco e a alma com que comunica rapidamente me cativam a atenção. Trata-se de alguém que fala do que estudou, mas também do que vive.
Num segundo tempo, apresentaram-se experiências concretas de envolvimento dos cidadãos em diferentes iniciativas e do respetivo sucesso. O espaço Largo Residências, em Lisboa, o festival Bons Sons, em Tomar, o projeto JAM! da Artemrede, o Trinity Community Arts, em Bristol, e The Agency, no Reino Unido. Todas se cruzaram num diálogo que ajudou a enriquecer o que ouvimos naquela manhã.
(Penso nas eleições que se aproximam. Como isso me preocupa!)
Depois destes dois momentos, que se completaram, senti a urgência de vos transmitir as reflexões que se seguem.
Começo por enumerar algumas das questões que surgiram nesta conferência e que se revelam muito importantes quando queremos realizar iniciativas com as comunidades.
Como, em ações concretas, fazer para iniciar cada projeto, ouvindo e envolvendo primeiro os públicos-alvo no processo de decisão?
Como se convida a participar?
Onde reside o poder dos cidadãos?
Quem lidera?
Qual o papel do conflito?
Como se concretiza o processo de decisão? Pelo voto?
O “convite” que envolve os possíveis beneficiários é o que tem maiores probabilidades de maior aceitação. Por exemplo: convidar a vir a uma festa ou convidar e pedir para trazer algo para a festa ou, talvez melhor ainda, convidar a pensar como fazer a Festa com os meios disponíveis. Deste modo, logo de início cada um tem a possibilidade de ser o motor do acontecimento.
Diversificar as formas de organização e de participação é também um importante fator de mobilização para a ação. A este associa-se, de resto, a questão da dimensão dos núcleos de debate e deliberação. Nas assembleias de maior dimensão, dividi-las por grupos mais pequenos e, numa segunda fase, juntar os contributos a que cada grupo chegou. Desenvolver debates por interesses, juntar ideias e decidir sem pressão do grupo.
Nesta linha de pensamento, temos de sustentar a consulta dos cidadãos em assembleias com votações anónimas, preservando o direito à diferença e ao juízo crítico independente.
As ideias devem ser o centro do debate! E por isso, importa que todo o debate seja apoiado em informação imparcial partilhada, sem temer o conflito de ideias, sem medo de errar e alimentando a disposição para aprender no reconhecimento do erro.
Há que trabalhar a confiança no processo e no seu futuro. Aqui os percursos que já fizemos e podemos apresentar como exemplo são uma boa base para a confiança. Um processo de consulta é seguramente longo, desejavelmente rico e provavelmente difícil, mas vale a pena.
E finalmente… A aventura de dar corpo ao projeto!
A verdade é que nem sempre as expectativas que temos são conseguidas, mas outras surpresas vêm e aprendemos sempre para recomeçar. Registar a divulgar cada processo apontando as dificuldades e sucessos é obrigatório!
A apresentação dos projetos foi muito rica porque os participantes não tiveram medo de explicitar as dificuldades na sua concretização, sublinhando embora a alegria de investir em cada um deles. Saliento sobretudo os dois que se desenvolvem em Portugal: o projeto ‘Largo Residências’, em Lisboa, e o festival ‘Bons Sons’, de Tomar, tão bem apresentados pela Marta Silva e pelo Miguel Atalaia, respetivamente.
Sugiro que procurem informação sobre cada um na internet. Vai valer a pena! E vão ter vontade de participar.
Deixo-vos com uma breve resenha dos dois projetos que destaquei.
‘Largo Residências’
Cooperativa cultural e de responsabilidade social, tem como missão o desenvolvimento local através de atividades culturais e da economia social e solidária que promovem a criação e dinamização artística, o envolvimento e a inclusão social, de maneira auto-sustentável. Os seus membros acreditam na ação cultural como veículo de coesão social e promoção do desenvolvimento local. Está atualmente em processo de transferência de local, do Campo da Bola pra o antigo Hospital Miguel Bombarda.
‘Festival Bons Sons’
A par da formação de públicos, o BONS SONS tem como principal objetivo o desenvolvimento local através da fixação dos mais jovens e da potenciação da economia no território em que intervém.
Lê-se no seu manifesto: «Um festival e uma aldeia que existem e que querem existir pela contemporaneidade no campo, por uma plataforma cultural, pelo planeamento do território, pela cidadania participativa, pelo envelhecimento ativo, pelo ensino em comunidade, por projetos de território, por uma ação sustentável, pela criação de espaço público e pela cultura popular.» (https://www.bonssons.pt/manifesto/).

Ana Cordovil é pintora e animadora de projetos na comunidade










