AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

A Madeira (também) teve o seu dia de S. Bartolomeu

| 01/09/2021

Foi há 175 anos que rebentou a primeira grande perseguição religiosa que Portugal conheceu, depois da missa na Sé Catedral do Funchal. Houve fiéis protestantes mortos e centenas deles tiveram que abandonar a ilha à pressa.

 

Madeira

Capa do livro Madeirenses Errantes, do jornalista Ferreira Fernandes, que reconstitui a história da perseguição de 1846 e da diáspora que se lhe seguiu.

 No dia 23 de Agosto de 1846 o navio William de Glasgow zarpava da baía do Funchal com destino a Trinidad e Tobago com mais de 200 refugiados madeirenses que tinham abraçado a fé protestante e agora fugiam da sua terra para não serem mortos pela população atiçada contra eles pelo sectarismo religioso dos dirigentes católicos locais.

Fugiram durante a noite ou no início da madrugada dirigindo-se a praias isoladas, onde alguns botes os recolhiam discretamente e transportavam até ao navio britânico. Não tiveram oportunidade de preparar qualquer bagagem e muitos acabaram por vestir roupas oferecidas pela tripulação.

A perseguição tinha começado dias antes, a 8 de Agosto, no Santo da Serra e no dia seguinte logo que terminada a missa a Nossa Senhora do Monte, celebrada na Sé Catedral. O foguete marcava o sinal para o início da onda de violência que estalou em toda a ilha, uma espécie de cruzada brutal, terrível e devastadora com o intuito de exterminar a “heresia protestante”. Nos arredores do Funchal os archotes abriram caminho para a invasão das casas dos fiéis já a noite ia alta.

Na manhã do dia 9 a mulher do Dr. Robert Kalley disfarçou-se para não ser reconhecida e conseguiu chegar a casa do cônsul inglês, refugiando-se depois na sua casa de campo, no Santo da Serra, no meio dos camponeses. Entretanto o marido teve de se disfarçar fazendo-se passar por uma doente idosa, tendo sido transportado numa rede para bordo do navio britânico Forth que rumou às Índias Ocidentais Inglesas. Foi ali que o casal se reuniu mais tarde e de onde navegaram juntos para Inglaterra.

Poucos dias depois mais de quinhentos madeirenses fiéis protestantes da ilha haviam de viajar também para Trinidad a bordo do Lord Seaton, e nos meses seguintes mais de dois mil abandonaram a terra natal em busca de liberdade de culto e de uma vida digna em terras longínquas, agora com permissão das autoridades a quem interessava limpar da ilha os “hereges calvinistas” e satisfazer a Igreja Católica. Foram dias de grande sofrimento.

Kalley era um médico e cirurgião escocês de Glasgow que chegou à Madeira um pouco por acaso. A esposa tinha problemas de saúde e procuraram a ilha por recomendação clínica devido ao tipo de clima. Ali chegados, em poucos anos fizeram uma revolução em termos de saúde pública e educação, caindo nas boas graças das autoridades civis e religiosas do Funchal. Kalley, que tinha estudos teológicos, fundou um hospital e conseguiu medicamentos doados no estrangeiro para atender gratuitamente doentes mergulhados na pobreza extrema, mas cobrava os seus serviços aos ricos de modo a poder atender os pobres de graça.

Ficou conhecido na ilha como o “bom doutor inglês”, mas os pobres chamavam-lhe “santo”. Criou também uma rede de escolas primárias entre uma população que vivia ainda quase num tempo medieval. O problema é que depois de alfabetizados começaram a ler a Bíblia, esse terrível pecado, e aderiam em número cada vez maior à fé protestante, juntando-se aos milhares para ouvir os sermões do Dr. Kalley e participar nos serviços religiosos por ele promovidos, para isso caminhando ao domingo durante horas a fio por caminhos íngremes desde as suas casas.

Embora o escocês fosse muito considerado no Funchal pelos seus esforços filantrópicos a favor dos pobres, doentes e analfabetos, a verdade é que este movimento despertou as atenções e Lisboa pressionou para que se pusesse cobro à situação. O bispo católico, que tinha Kalley em grande estima, ainda lhe pediu que renunciasse ao seu apostolado, mas tal não era possível. Em suma, restou a repressão. Mandaram fechar as escolas que abrira, prenderam o homem durante seis meses e o clima foi-se agravando cada vez mais até ao dia de S. Bartolomeu a que a Madeira teve direito.

Os primeiros refugiados madeirenses estabeleceram-se em Trinidad e Tobago, Antígua e na Jamaica. Nas Antilhas, os madeirenses trabalharam nas plantações de cana-de-açúcar onde faltava mão-de-obra e onde muitos vieram a adoecer e morrer devido ao grande calor e humidade, antes de terem oportunidade de rumar a Jacksonville e Springfield (Illinois) em 1849, onde se comemoraram os 150 anos da data com a presença do nosso amigo Jacinto Baptista de Gouveia, actual presidente da Associação Dr. Robert Reid Kalley, com sede no Funchal.

A intolerância religiosa não é um problema novo nem apenas de outras paragens. É antigo como o mundo e também o chamado país dos brandos costumes tem alguns episódios pouco edificantes para contar. Este Dia de S. Bartolomeu à madeirense será talvez o pior deles nos últimos dois séculos.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This