A máscara e o jogo da sociabilidade

| 22 Jun 20

Começo este texto com um pequeno episódio que vivi há anos e que, apesar da sua importância relativa, me tem acompanhado em várias tiradas reflexivas. Uma manhã, ao iniciar a rotina de mais um dia de trabalho e na correria para o próximo metro, dou de caras com um rosto que me parecia familiar. Fiz um pequeno aceno, mas o outro continuou indiferente na certeza de que não lhe era dirigido. Aquele rosto não me saía da cabeça, mas por maior que fosse o esforço, e durou vários dias, a memória havia decidido fazer greve e negar-me a mínima ajuda no relacionar o rosto com uma qualquer situação que tenha vivido. Desisti. Talvez a memória, alimentando-se dos dados fornecidos pelos nossos sentidos, não gostasse de se sentir pressionada.

Tal como os sentidos, é preciso tempo e descontração para que cada um deles tenha o seu espaço e oportunidade de nos revelarem o que de melhor eles fazem, o que de melhor eles nos proporcionam. Ninguém pode saborear um prato a correr ou escutar música como se estivesse de fugida. Muito menos tatear passando a mão ou ficar inebriado pelo cheiro de uma rosa passando apenas por ela ou não dedicando o tempo necessário a admirar a sua beleza.

Pois é, os nossos sentidos detestam ser apressados, é preciso dar-lhes tempo. O que muitas vezes dizemos não ter. A memória, enamorada pelos sentidos, gosta de pormenores e não de vistas aéreas, exige-nos tempo. Byung-Chul Han, no seu livro A Sociedade do Cansaço, escreve: “Ao desaparecer a descontração, perde-se o ‘dom da escuta’ e desaparece a ‘comunidade capaz de escutar’.”

Um belo dia, sem que nada o fizesse prever, a memória decidiu dar-me a resposta. Afinal, a proximidade daquele rosto era apenas fictícia e o enquadramento do registo era o de dois bancos de autocarro colocados frente a frente. Imagino que a viagem de que não me recordo tenha durado o tempo necessário para que a memória registasse os pormenores e transformasse aquele rosto desconhecido em algo aparentemente próximo. A vida é também tecida destes pequenos milagres de gente que, sem o saber, nos vai transformando e, quiçá, revelando-nos a nossa humanidade.

Este episódio mostra o quanto o rosto de alguém pode ser identitário e fonte de proximidade ou de afastamento, de empatia ou repulsa para cada um de nós. Ao pensar na utilização obrigatória e cívica das máscaras no tempo que hoje vivemos, veio-me à memória o episódio e dei comigo a pensar que implicações terá em nós, nos nossos sentidos, o seu uso ou que pormenores privilegiará ou deixará de registar a nossa memória?!

Os sentidos, se lhes concedermos o tempo devido, não deixarão de nos surpreender, mas como poderemos nós ver o que o outro nos revela? O rosto torna-nos mais autênticos, desnudados, correndo o maravilhoso risco de expormos através das muitas expressões do rosto o que os nossos sentidos captam. O rosto é para o outro uma espécie de visor dos nossos sentidos. Pelo rosto somos reconhecidos, nomeados, julgados, amados ou detestados, o que o transforma num suporte essencial de comunicação e de aproximação entre seres. É verdade que no oriente a parte superior do rosto, olhos e movimentos das sobrancelhas, são muito mais reveladores de sentimentos que a parte inferior, códigos que para nós ocidentais, por uma questão cultural, serão muito mais difíceis de decifrar.

Se no teatro grego, ou até no carnaval, um dos objetivos da máscara seria o de reforçar a identidade de uma personagem, acentuar-lhe os traços, neste caso, ao uniformizar os rostos, esconde-nos a identidade, rouba-nos a singularidade, torna-nos anónimos, afasta-nos do outro. Ao escondermos do outro as expressões dos nossos sentidos, podemos transformar-nos numa outra personagem sem corrermos o risco de sermos descobertos. David Le Breton, sociólogo e antropólogo, escrevia há dias no jornal Le Monde: “Esta banalização da máscara que induz o anonimato generalizado é uma rutura antropológica muito mais forte de sentido que o aperto de mão ou o beijo. Nem o sorriso os substituirá, porque não haverá provisoriamente rosto.” E acrescentava que o uso da máscara é propício à transgressão e transferência de personalidade.

Havia consciência de que, saídos do confinamento, não seríamos mais as mesmas pessoas, algo em nós se foi transformando sem que nos déssemos conta. Mas que será de nós no final deste ciclo pandémico? Se por um lado recuperámos, mesmo se provisoriamente, a sociabilidade das janelas e das varandas nas relações de vizinhança, por outro lado, a vivência desta pandemia e o medo em crescendo que a cada passo fomos interiorizando, viciaram definitivamente o jogo da sociabilidade. O grande risco, enorme diria, é que a partir desse viciamento se construa uma narrativa que confine a nossa liberdade de viver.

 

José Centeio é gestor de organizações sociais e membro do Cesis (Centro de Estudos para a Intervenção Social) e da equipa editorial do 7MARGENS

 

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